A Europa decidiu, finalmente, tentar correr. O problema é que entrou na pista quando os outros já iam duas ou três voltas adiantados.

O Relatório Draghi teve o mérito de dizer o que, durante anos, foi politicamente incómodo: a Europa perdeu competitividade, escala e velocidade. Não por falta de talento ou de valores, mas por excesso de fragmentação, aversão ao risco e uma cultura que confunde prudência com imobilismo. O diagnóstico está correto. A dúvida é se a resposta será proporcional ao atraso acumulado.

Os Estados Unidos iniciaram esta corrida tecnológica moderna, pelo menos, em 2007, com o lançamento do iPhone. Não foi apenas um produto, mas o início de uma nova economia baseada em plataformas, ecossistemas digitais, dados e modelos de negócio globais. A Europa observou, regulou e comentou. Os EUA executaram.

A China entrou mais tarde, mas com uma estratégia clara. Há mais de uma década que define planos nacionais de liderança tecnológica, com metas concretas até 2030 em áreas críticas, como inteligência artificial, semicondutores, energia limpa e mobilidade elétrica. Enquanto a Europa discutia equilíbrios institucionais, a China construiu escala industrial e cadeias de valor completas.

Hoje, em 2026, a Europa aponta 2030 como horizonte de recuperação. Recuperar, em cinco anos, o que outros construíram em vinte é possível, mas apenas com uma mudança profunda de cultura e de liderança. Não se faz apenas com fundos, programas ou novos relatórios.

O relatório Draghi identifica corretamente os pilares de inovação, competitividade energética e segurança. Mobiliza recursos e reconhece que, sem produtividade, não há modelo social sustentável. Passado um pouco mais de um ano da apresentação do relatório, falta, porém, o mais difícil: uma cultura de execução agressiva, pragmática e orientada à criação de valor.

Esta fragilidade é visível quando descemos ao nível nacional. Em Portugal, continua a ser reduzida a criação de clusters, parcerias estratégicas ou operações de fusão e aquisição. O diagnóstico repete-se há décadas: empresas pequenas, defensivas, receosas de perder controlo e incapazes de ganhar escala.

Nos Estados Unidos, o conceito de coopetition (cooperar com concorrentes quando isso cria mais valor) é aplicado sem dogmas. O caso recente da Apple é ilustrativo: ao reconhecer atraso na IA, integrou tecnologia de um rival direto (a Google) no núcleo do seu produto principal. Não houve debates ideológicos, houve decisão rápida.

A Europa continua presa à ideia de que soberania é fazer tudo sozinha, quando a soberania moderna é a capacidade de escolher, a velocidade e a integração inteligente de competências próprias e alheias. Confunde cooperação com fraqueza e escala com perda de identidade.

Se a ambição do Relatório Draghi for real, a Europa terá de aceitar verdades difíceis: consolidar setores, premiar o risco, acelerar as decisões e abandonar o conforto da lentidão. A corrida já começou há muito tempo. Os outros não esperam até 2030.

A pergunta é simples: queremos apenas reduzir o atraso ou estamos preparados para mudar radicalmente a forma como corremos?

Sem essa mudança, continuaremos em pista, sempre a ver os outros 2 ou 3 voltas à frente e a distanciarem-se. Tenhamos lideranças europeias ambiciosas.