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1 O talento não tem morada, pousa sem anúncio e cintila onde quer. O que o pode tornar diferente, ou muito diferente, é o seu eco e nisto mesmo, nesta espécie de ingrata contabilidade, reflectia eu, assistindo, no salão nobre de um hospital, a um desfile de roupa produzido pelas suas doentes. Desafiante gesto, portanto. À mesmíssima hora e dia em que ocorria a Moda Lisboa onde os criadores nacionais expunham o melhor da sua inspiração e do seu traço, numa fértil mistura de “melhores”, ali no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL) — ex-Júlio de Matos — também se tratava de melhor, mas de um outro, mais delicado. Um melhor “diferente” e nesse sentido esta coincidência temporal entre “modas” ,não me deixou incólume: de um lado a predisposição para o brilho e o aplauso; do outro, um espectáculo caseiro, numa revelação quase escondida, confinada àquelas quatro paredes e no entanto, também capaz e oh quanto, de cintilação. Tão surpreendente que percebi que era quase obrigatório contá-lo. Tarefa à partida espinhosa – a dificuldade de contar, surgia-me como directamente proporcional à incredulidade que suscitaria – mas paciência: não tinha eu “visto”? E o desafio não era afinal o meu próprio confronto com descoberta de que “ali” também podia escorrer — e escorreu — criatividade e o talento para a concretizar?

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