O crescimento político do partido Pessoas-Animais-Natureza no universo partidário português, cuja dimensão conheceremos melhor no próximo domingo, reflete a progressiva ocupação do espaço público não só por preocupações ambientais, mas também por reflexões que, no domínio da filosofia, designamos por “libertação animal”. O termo popularizou-se com a publicação, em 1975, do livro assim intitulado pelo filósofo australiano Peter Singer, que esteve recentemente em Portugal. O argumento central de Singer assenta na ideia de que a modernidade se caracteriza pela sucessiva expansão do princípio moral da igual consideração de interesses (pensemos na luta dos negros e das mulheres). A sua reivindicação é a de que devemos alargar mais uma vez esse círculo por forma a compreender agora animais não humanos: “Este livro é sobre a tirania dos animais humanos sobre os não-humanos. Esta tirania provocou e provoca ainda hoje dor e sofrimento só comparáveis àqueles resultantes de séculos de tirania dos humanos brancos sobre os humanos negros. A luta contra esta tirania é uma luta tão importante como qualquer das causas morais e sociais que foram defendidas em anos recentes.” (trad. port. Maria St. Aubyn, Via Óptima, 2000) Não o fazer constituirá um ato de “especismo” – expressão cunhada por Richard Ryder –, significando discriminar injustamente seres de outras espécies.

Se esse caminho de expansão será percorrido só o tempo dirá, embora se consigam adivinhar mudanças profundas para as próximas décadas e tudo indique que o espírito da modernidade nos levará a um diferente olhar sobre os restantes animais. Mas importa recordar o outro lado daquilo que designamos como o caminho do progresso. Em 1750, o genebrino Jean-Jacques Rousseau ganhou notoriedade com o seu Discurso sobre as Ciências e as Artes, redigido para responder à questão colocada pela Academia de Dijon: terá o restabelecimento das ciências e das artes contribuído para depurar ou corromper os costumes? Rousseau, contra o espírito das luzes, responde que não só mais conhecimento não conduz a um homem mais virtuoso, como, analisada a história da humanidade, podemos afirmar que se verificou sempre o contrário: “as nossas almas corromperam-se à medida que as nossas ciências e as nossas artes foram avançando até à perfeição. Dir-se-á que se trata de uma infelicidade específica da nossa era? Não, meus senhores. Os males causados pela nossa vã curiosidade são tão antigos quanto o mundo.” (trad. port. Hugo Barros, Edições 70, 2019)

Este polémico texto seria sucedido por um segundo discurso – o Discurso sobre a origem e os fundamentos das desigualdades entre os Homens – em que Rousseau reforça as suas dúvidas sobre a ideia de progresso. A história do homem civilizado é a história do homem que multiplicou as suas necessidades e desejos, num movimento permanente de insaciabilidade. E o problema não é só rodearmo-nos do supérfluo e, ao habituarmo-nos a ele, aumentarmos as nossas dependências – o problema é também carregarmos as gerações futuras com esse fardo: “foi este o primeiro jugo que impuseram a si mesmos sem pensarem nisso e a primeira fonte de males que prepararam para os seus descendentes; pois, para além de continuarem assim a amolecer o corpo e o espírito, a privação destas comodidades (…) tornou-se muito mais cruel do que a posse era suave e ficava-se infeliz por as perder, sem se ser feliz por as possuir.” (Didáctica Editora, 1999)

O mundo atual, sobrecarregado de tecnologia, limita-se a confirmar as intuições de Rousseau. O ser humano foi capaz de viver milhares de anos sem tecnologia digital, mas hoje parecemos incapazes de abdicar dos nossos smartphones, redes sociais, selfies e do comodismo garantido por aplicações e motores de busca – sem que tudo isto nos torne mais felizes. E nesse imparável movimento de extensão do círculo de necessidades, o homem antropomorfiza tudo à sua volta. O mais recente exemplo disso é a extraordinária invenção de parques caninos. Um cão é um cão. Mas isso não chega. Tem de se parecer o mais possível connosco e, sobretudo, sentir a nossa sede insaciável por necessidades. E, por isso, criamos parques em tudo semelhantes a parques infantis – mas geralmente com mais espaço – como se esses animais fiéis se tivessem tornado as nossas novas crianças. Talvez por essa razão devam precisar do dispensável, como se a sua felicidade dependesse disso. Para o homem moderno, não basta um cão ser simplesmente um cão.

Texto originalmente publicado no jornal digital Vila Nova.