1 A geração baby boomers

Pode parecer estranho, para alguns, que dedique tanto tempo a explorar questões e problemas do mundo anglo-americano. Porquê falar em wokismo? Porquê escrever sobre tradwives? Por que razão acompanhar o que vai acontecendo nas universidades norte-americanas? A razão é simples: queiramos ou não, a sociedade e a cultura norte-americanas continuam a influenciar desproporcionalmente o resto do Ocidente, e Portugal não é exceção.

Poderíamos, claro, conceber um mundo alternativo, como fez Philip Dick em O homem do castelo alto, em que seria a cultura japonesa (ou alemã) a influenciar ideias e comportamentos – ou podemos fazê-lo até prospectivamente com a cultura chinesa. Sendo realistas, temos de acompanhar o que se passa nos Estados Unidos: aquilo que lá acontece, por mais excêntrico que seja (ou, talvez, por isso mesmo), acaba por chegar cá. E o termo “boomer” exemplifica precisamente esse fenómeno, com muitos jovens portugueses a utilizar uma palavra que, tecnicamente, não faz qualquer sentido entre nós.

A palavra “boomer” resulta de a sociedade norte-americana dar especial atenção às questões geracionais, ao ponto de terem designações específicas para cada uma – como a geração perdida, que nasceu no final do século XIX e lutou na Grande Guerra, sofreu com a gripe espanhola e gozou os loucos anos 20; ou a geração silenciosa, nascida entre 1928 e 1945, num período de depressão económica e segunda guerra mundial, pelo que foi menos numerosa e mais conformista.

Para os tempos recentes, fala-se em geração X para aqueles que nasceram no final dos anos 60 até ao início da década de 80; e em millenials para a geração seguinte, que experienciaram o nascimento do mundo digital global: entre os 26 e 40 anos, são, por regra, filhos da geração baby boomers. Estes, nascidos entre 1946 e 1964, correspondem à explosão de nascimentos que se verificou após a segunda guerra mundial – é deste fenómeno que decorre o seu nome e a razão pela qual não há equivalente em Portugal.

Ainda assim, os jovens portugueses parecem empenhados em usar a palavra “boomer”, mas a razão é a de ela ter passado a significar uma coisa muito diferente.

2 O que é isso de “boomers”?

Na última década, a palavra “boomer” perdeu o seu sentido técnico para ganhar o sentido mais genérico de “geração mais velha com dificuldades em adaptar-se aos novos tempos”. Esta falta de adaptação resulta, em parte, da questão tecnológica, quando os mais velhos se revelam atreitos ao papel ou a fazer as coisas “como antigamente”. Mas tem vindo a ser igualmente entendida como falta de adaptação às novas normas sociais, passando a ser usada, no período woke, para significar todas as pessoas mais velhas que continuavam a usar palavras inadequadas, se revelavam incapazes de compreender termos como “cis” ou “não binário”, ainda faziam piadas inadmissíveis ou, o mais grave de todos os pecados, continuavam a defender esse princípio político arcaico conhecido como “liberdade de expressão”.

Não é possível, de facto, compreender o wokismo sem ter em conta esta questão geracional: foram estas novas gerações, sempre ligadas à internet, que se convenceram de que são as únicas a compreender como o mundo realmente funciona, pelo que todos aqueles que questionam as suas ideias são ou ignorantes (boomers, que devem educar-se) ou estão simplesmente a pactuar com um sistema de exploração (boomers, que devem ser cancelados).

“Ser boomer” perdeu, assim, o sentido técnico de pertencer a uma certa geração e ganhou o sentido de estar “desatualizado”, de ter “perdido o comboio do progresso”. E os “boomers” reagiram tipicamente de duas formas: alguns, tendo sido a seu tempo a geração progressista, aceitaram que a agenda mudou e que é preciso adotar subservientemente a nova agenda (mudaram o vocabulário, pintaram o cabelo e tornaram-se fervorosos adeptos da nova agenda de autodeterminação); outros, tendo sido a seu tempo a geração progressista, ficaram atónitos (e paralisados) com o facto de estarem hoje a ser alvo da mesma revolta que usaram contra os seus pais.

É por isso que a questão geracional é tão fascinante: é como se fosse inevitável à condição de juventude desafiar as gerações mais velhas, acreditando ter um acesso privilegiado à verdade e esquecendo de que o tempo deles também passará, de que também eles deixarão de ser jovens e de que também eles serão acusados de estar desatualizados e ser obsoletos.

3 A gerontocracia da América

Depois de estabelecido este novo sentido da palavra, a tendência depreciativa continuou: mais recentemente, tem-se registado o sentimento crescente, sobretudo entre aqueles que estão agora na casa dos 30 anos, de que os boomers são não apenas “culturalmente obsoletos” – encontram-se igualmente agarrados aos cargos de poder político e económico, pelo que impedem os mais novos de aceder a esses recursos.

É nesse sentido que se tem popularizado nos Estados Unidos a expressão “gerontocracia da América”, que dá título, por exemplo, a um livro recente de Samuel Moyn, que o autor discute com Ross Douthat aqui. As preocupações de Moyn parecem adequadas; as soluções lunáticas: não só defende que o voto dos mais novos deve ter um peso eleitoral maior, como coloca a eutanásia em cima da mesa para quando os mais velhos deixam de se sentir úteis (e, sim, eu sei que muitas pessoas querem reservar para si a hipótese de uma “morte boa”, mas conseguem imaginar a pressão social que resultaria para os mais velhos?)

A ideia de que os boomers estão a reter recursos económicos e capital financeiro é contestada: as gerações mais novas não estariam economicamente piores, mas seriam beneficiárias, pelo contrário, de condições económicas únicas. Cresceram com mais recursos materiais, com acesso a roupa, alimentação, viagens e comunicações muito mais baratas e vivem com mais dinheiro nos bolsos (fico sempre espantada com o dinheiro que os adolescentes têm hoje à sua disposição). Para estas gerações, nos Estados Unidos, o rendimento mediano (real) é mais elevado do que o dos pais na mesma idade, o desemprego manteve-se em mínimos históricos e o poder de compra aumentou cerca de 63% desde 1973.

Ainda assim, defende Johann Kurtz, algo não está bem:

“O meu argumento é o de que as gerações anteriores receberam uma enorme reserva de capital social: vizinhos de confiança, escolas públicas funcionais, uma cultura de namoro frutífera, percursos profissionais previsíveis e um espaço público onde as crianças podiam brincar livremente e se podia contar com os adultos. Essa reserva, outrora concedida gratuitamente, foi agora substancialmente liquidada.”

Para os mais novos obterem tudo isto, de que os mais velhos beneficiaram, precisam de…abrir os cordões à bolsa. Diz Kurtz:

“Por exemplo: em 1975, uma família norte-americana podia enviar os seus filhos para uma escola pública, partindo do princípio de que a grande maioria das outras crianças pertenceria a famílias preservadas, de comunidades semelhantes à sua e tendo o inglês como primeira língua. Hoje em dia, muitos pais têm de recorrer ao ensino privado para obterem essas mesmas garantias.”

Seriam estas despesas extra, por já não existir o mesmo capital social (gratuito), que tornaria tão difícil viver nos nossos dias. É preciso gastar mais do que o correspondente aumento do poder de compra em habitação, casamento, educação ou boa vizinhança.

Deixo a apreciação económica para os economistas para me centrar na questão cultural: é que o argumento de Kurtz, embora económico, permite-nos olhar para o problema de outra forma. Apesar de as gerações mais novas poderem ter mais recursos materiais, eles têm tido, claramente, menos recursos comunitários, ou seja, sociais e culturais. As gerações mais velhas beneficiaram de comunidades coesas, culturalmente uniformes, uma identidade nacional quase sempre inequívoca, famílias coesas. E tão ou mais importante, beneficiaram de valores e regras morais claros – valores e regras que os mais velhos desvalorizaram e não garantiram aos seus filhos. Mas esse é o tema da próxima semana.

PS: Curiosamente, nesta luta geracional, a geração X tem ficado entre trincheiras, como se, tendo ficado à espera da saída dos boomers, tivessem sido, nesse compasso de espera, abalroados pelos millenials. É possível que fique conhecida como a geração sacrificada, aquela que nunca teve a sua hipótese. Mais uma vez, a tecnologia terá desempenhado um papel fundamental: a geração X é aquela que ainda sabe como o mundo foi sem tecnologia digital (terá sido a última geração que foi feliz na infância) e que, por isso, não está totalmente moldada para funcionar num mundo de redes sociais, narcisismo e obsessão com a ideia de influenciar.