Na terceira década do século XXI, a ideologia cabe num depósito de combustível. De esquerda ou direita, anda na mesma, como quem usa 95 ou aditivada, normal ou low-cost. Na Alemanha, a esquerda radical ganha em Berlim enquanto a direita vai limpando os pequenos estados da antiga RDA. Deveríamos estar à beira da guerra civil, ou, pelo menos, dum confronto fratricida entre extremos a nível nacional; mas, na prática, o que temos são dois partidos anti-NATO, anti-Euro, pró-Rússia, pelo fim da ajuda à Ucrânia, dos rigores da transição energética e a favor de que o Estado concentre esforços mas é em aumentar-lhes os ordenados e as pensões. Extremos? Se o merchandising não os distinguir muito bem, arriscamo-nos a sair para o comício de um extremo e acabar a agitar bandeirinhas no do outro.

A cada eleição no mundo ocidental, local ou nacional, vamos observando a conclusão aparentemente óbvia de os radicais estarem inexoravelmente mais perto do poder. E eles comportam-se em conformidade. Fazem voz grossa, agitam, cada vez menos dissimuladamente, uns símbolos do passado, falam em deitar abaixo o “sistema” e construir uma nova ordem. Mas é curioso porque, se nos aproximarmos, é difícil distinguir onde estão ao certo. Em que se distinguem estes rebeldes do pacato cidadão na fila do trânsito ou no food court do centro comercial.

Em 2026, a “ideologia” é uma patranha. Os supostos extremos não estão preocupados com ideologias, não têm visões de mundo nem modelos de sociedade diferentes para opor. Não há “bloco ocidental” nem “bloco de Leste” para contrastar; se o preço da energia continuar a subir, tornam-se todos tão pró-russos como o PCP. De cada vez que sobe o preço do gás, Putin fica um pouco menos monstruoso – afinal, não serão “eles” todos um bocado bandidos? Não há nenhuma guerra “civilizacional” ou “cultural” em curso. Não no Ocidente. Muçulmanos e chineses até nos poderão achar decadentes e ver mesmo no horizonte uma oportunidade histórica que, por cá, estes novos rebeldes continuarão perfeitamente disponíveis para lhes comprar tudo o que produzam enquanto for barato. Só não querem ter de comer à mesma mesa que eles. Ou vê-los encarecerem-lhes as rendas de casas, ou, por aparecerem como mão-de-obra barata, baixarem-lhes os salários. A burqa até se atura – lá coisas deles – mas longe.

A Europa decidiu que ia ser verde, mas esqueceu-se de fazer os carros para isso, deixou de ter filhos e de querer cansar as suas “gerações mais bem preparadas de sempre” com trabalho braçal; agora, surpreendida por ter de dividir o jardim com as crianças dos outros, quer os forasteiros de volta à terra deles. Como pagarão as contas, os sistemas de pensões, quem os servirá ou trabalhará, em geral, na agricultura, pescas, fábricas e até nos serviços, logo se vê. Ao “sistema” que querem derrubar, não têm qualquer modelo económico novo para propor; só um Estado ainda mais interventivo, ainda mais protector, ainda mais gastador, que ninguém sabe quem irá pagar. Aumentar pensões e ordenados, baixar a idade da reforma, supostamente à custa das supostas fortunas gastas a dar casas a imigrantes e a patrocinar políticos corruptos (que não se sabe por que razão mágica não existiriam no sistema deles).

Na América, não é muito diferente. São todos a favor das maravilhas da inteligência artificial até alguém querer construir um datacenter na cidade deles, com as suas macro-exigências energéticas. Se Trump cair, não será por razões ideológicas, pelos escândalos, pelos tiques ditatoriais, pelos ataques à universidade, à ciência, à saúde pública, aos tribunais, à imprensa, às liberdades dos próprios americanos ou sequer por estar a destruir em dois anos um século de alianças, acordos económicos e laços diplomáticos com meio mundo, mas por uma razão simples: por ter metido os EUA, ao contrário do que sempre disse que faria, numa guerra. Mas note: não será pelas vidas de soldados americanos que essa guerra possa ceifar (bem poucas, na era dos drones), mas por ter tido, como imperdoável consequência, fazer-lhes disparar o preço do “gallon”.

Nestes tempos de cheiro intenso a fim de império, são de combustível os tanques que decidem a guerra; os novos pretensos rebeldes, uns burgueses aborrecidos com a perda de qualidade de vida. Quando comprarem a t-shirt do Che Guevara, em vez de vitória, deveriam mandar estampar: “Até ao conforto, sempre!”. Rumo ao bem-bom. Não acreditam em coisa alguma, senão numa vaga nostalgia dum suposto paraíso perdido em que o seu país ou o seu “modo de vida” terão sido reis. Dum lado e doutro, são extremistas de sofá, por isso se mostram tanto nas redes sociais. Não admira que aticem uns cães raivosos na liderança dos partidos em que agora encontram consolo para que ladrem a quem passa. Ideias ou consistência não virão daquelas bocas. Resta saber quem morde primeiro.