Sobre a pandemia actual evitei pronunciar-me nas redes sociais por um simples motivo: não sou médico, e muito menos epidemiologista. E, no entanto, há cerca de um mês, quando reportaram as primeiras duas mortes em Itália fui ao supermercado comprar víveres para a eventualidade de ter de ficar fechado em casa. Não houve neste acto nenhum pânico apenas a interpretação dos factos. Esse dia, a essa hora, as prateleiras transbordavam de alimentos e a loja estava praticamente vazia. O mesmo não sucede actualmente. Os alimentos não faltam, mas outros bens já começam a escassear, para não dizer que, com uma alta percentagem da população infectada, ir ao supermercado seria inevitavelmente uma actividade de risco.

Também não sou um visionário. Confesso que para mim a China também estava longe, as epidemias no Sudeste Asiático são, ou parecem ser, frequentes e não existe memória viva de nenhuma ter chegado aqui. Mas a Itália está aqui ao lado (eu vivo em Madrid) e se havia dois mortos ali, de uma doença altamente transmissível e que é relativamente lenta a matar, então o vírus já estava aqui e a solução era isolar-se, como os seres humanos fizeram desde tempos imemoráveis. Curiosamente a grande maioria das pessoas não pensa assim, e eu estou cada vez mais convencido que a nossa sociedade, do alto da sua excepcional capacidade tecnológica e prosperidade material, deixou de ter memória, como se o que aconteceu no passado já não nos pudesse afectar.

Além da memória, parece que ao deixar as funções de cálculo às entranhas dos computadores no seu dia a dia os indivíduos perderam a capacidade de perceber as características de uma função exponencial. É que se um dia há 2 mortos e 50 casos diagnosticados, isso significa não só que existirão 1000 casos não diagnosticados, como que a cada 3-4 dias esse número duplica e num mês, mês e meio, vão existir dois mil mortos, cinquenta mil casos diagnosticados e um milhão de infectados. E a contagem não para: 3 ou 4 dias depois serão o dobro. E foi aqui que a estupidez dos políticos se revelou fatal. Acharam que para conter a doença bastava impedir o contacto com as regiões de onde o surto vinha, sem se aperceber ou importar com o facto de que no seu proceder não impediam a sua propagação e exportação a regiões e pessoas por infectar. Quem diz dos políticos, diz de muitos dos nossos concidadãos que encheram praias e esplanadas num total desrespeito, não pelas suas próprias vidas (que estão nesse direito e muitos eram população de muito baixo risco), mas pela vida dos demais, em particular dos mais débeis da nossa sociedade: os idosos e os enfermos. Não quero pensar como teria sido se o outro grande grupo de dependentes – as crianças – tivessem estado entre as principais vítimas. Acredito que os governos tivessem actuado contundentemente antes, mas duvido que os jovens – grande parte deles não são pais nem tencionam sê-lo – se tivessem comportado de outra maneira.

A resposta governamental na generalidade dos países ocidentais foi tíbia e totalmente desadequada porque o COVID-19 não encaixa na realidade em que eles próprios acreditam e a generalidade da população comparte. Só assim se explica que tenham permitido realizar eventos multitudinários, como jogos de futebol ou manifestações do Dia da Mulher, que fazem as delícias de qualquer coronavírus que se preze. Além disso, onde é que se viu parar practicamente toda a actividade económica, da qual depende essencialmente o seu poder, por causa de uma gripe, ou uma espécie de gripe? Foi só quando perceberam que a possibilidade de essa espécie de gripe, que afinal é uma espécie de pneumonia, poder colapsar totalmente o sistema de saúde é que eles começaram a actuar, ainda assim de forma insuficiente na minha modesta opinião. Para colocar a questão em números porque de doenças percebo pouco: existem em Portugal aproximadamente 10 milhões de pessoas. Se 70% da população for infectada, estamos a falar de 7 milhões de pessoas, a maior parte das quais assintomáticas, o que explica a praia. Mas 20% destas, ou seja, um milhão e quatrocentas mil pessoas vão ter um quadro mais severo, a necessitar quarentena, e 15% das mesmas, ou seja, duzentas e dez mil pessoas terão complicações a necessitar internamento num hospital. E é aqui que a coisa se complica porque não só não existe capacidade para internar 210 mil pessoas como os recursos humanos, médicos, enfermeiras, etc., teriam que ser desviados de outras pessoas com outras doenças para ser dedicados ao combate a esta doença. Deixei para o fim o número de mortes porque nesta fase e com todas estas complicações adicionais que surgiriam no sistema de saúde é indeterminável, mas se for 1% das pessoas que apresentaram um quadro severo (uma estimativa optimista baseada nos números da China que aplicou medidas muito mais extremas) estaríamos a falar de 14.000 pessoas e tudo isto em 3 ou 4 meses por causa do tal crescimento exponencial. A gripe comum mata (e demasiado) em Portugal, com cerca de 3.000 casos por ano, pelo que a inépcia dos governantes é geralmente bem tolerada. O caso de Pedrogão onde esta inépcia foi de bradar aos céus não provocou nenhum desgaste eleitoral, pelo que a questão que deveria preocupar os portugueses é se o governo que pode suportar 14.000 mortos no espaço de 3 meses. Felizmente o próprio acha que não porque já começou a tomar medidas, além de que não se deve deixar de aproveitar uma crise para aumentar o poder, mas sobre isso falaremos mais adiante.

Desde que o homem observa a Natureza que se apercebeu que nesta sobrevivem os mais fortes e esse parece ter sido o critério de acção não confessado de muitos dos que ocuparam as praias nos últimos dias. No entanto, a ideia de justiça que o Ocidente exportou para o resto do globo com maior ou menor sucesso assenta numa ideia radicalmente oposta. A Natureza não é justa, só as sociedades humanas almejam sê-lo ao estender o acesso à justiça a todos, independentemente das suas capacidades físicas ou intelectuais, do número dos seus bens ou da sua influência política. E o motivo por que conseguir isto é impossível na sua totalidade é exactamente porque é anti-natural. Afinal de contas o mais forte tem mais energia para fazer valer os seus direitos, o mais inteligente para se aperceber de quais estes podem ser, o mais rico para contratar os melhores advogados e o mais influente para chegar ao juiz. O único antídoto contra esta eventualidade são os valores partilhados pelos indivíduos que constituem uma sociedade. Só esses, devidamente interiorizados, podem alterar a balança de forças da justiça. E são de tal maneira eficazes que, se os valores da sociedade forem injustos, então é o indivíduo quem, independentemente da sua força, intelecto, fazenda ou poder, vai sucumbir às mãos da turba.

Na génese do mundo Ocidental, há coisa de mil anos, emergiu uma realidade política em que a justiça e a violência eram normalmente exercidas por duas instituições distintas: a Igreja e o Estado. Houve tentativas de ambas partes para concentrar este poder, mas fruto do acaso ou da Divina Providência, nenhuma se conseguiu impor. Coincidentemente (ou não) este equilíbrio manteve-se até que chegou uma pandemia – a Peste Negra – a partir da qual, paulatinamente, o Estado foi centralizando o poder. No entanto, a ideia de que era importante separar os poderes já estava consolidada e é disso reflexo a tentativa – muito mais imperfeita – nas revoluções liberais, de impor e manter essa separação, só que sob a égide de uma mesma instituição: o Estado.

A esta explicação mais ou menos mecânica da separação dos poderes falta acrescentar a particular definição de justiça da Igreja que era, filosoficamente, a do Cristianismo. É do Cristianismo que resulta essa ideia anti-natural de que os débeis têm direito à justiça em igualdade de situação que os fortes. Não tivesse existido essa preocupação e a separação de poderes teria sido um exercício fútil porque, no fundo, não teria existido diferença nenhuma entre o Estado e a Igreja, como não existiu em nenhum outro lugar ou época. O Estado sempre foi, é e será o responsável pelo Maat, pela manutenção da ordem cósmica de onde emanam a Verdade e a Justiça. Apenas no mundo cristão e pós-cristão assim não sucede. Só que o Cristianismo praticamente desapareceu destas paragens, pelo que a manutenção deste equilíbrio depende essencialmente da memória do Cristianismo algo que, numa sociedade que parece destituída da mesma, corre o risco de extinção, como determinam as leis de Darwin para qualquer animal inadaptado.

E é esta perda de memória o que mais nos deve preocupar. Depois da pandemia o modo de vida da população em geral vai-se alterar, como se alterou com o SIDA ainda que o tempo se encarregue de nos fazer pensar que não, que sempre foi assim. Por exemplo, antes do SIDA os dentistas trabalhavam sem luvas e poucos esterilizavam os materiais de trabalho. Agora não só esse procedimento é comum como é obrigatório por lei, por ser fundamental para o Maat moderno. Quer isto dizer que o Estado se encarregará de aumentar o seu poder para que a sua intromissão continue a ser fundamental na vida dos cidadãos e, por cada lei justa, incorporará no nosso quotidiano dez ou vinte com o simples propósito de alimentar e perpetuar no poder a casta governante. Mas isso não significa que o Estado não deva ter o poder de mandar isolar a população em casa, e fechar toda e qualquer actividade económica pelo uso da força contra ameaças extraordinárias contra a população que rege, fazendo uso de todos os recursos possíveis. Afinal de contas foi isso que o Reino Unido fez quando se viu só ante a ameaça Nazi no continente europeu. O perigo, como bem advertiu Hayek, é a população pensar que, como o governo foi exitoso na gestão económica do país em tempo de guerra, irá continuar a sê-lo em tempos de paz, e o que não falta é gente por aí a pedir já a total nacionalização da Saúde, mesmo antes de a ameaça ter sido sequer contida. Em tempos de guerra só existe um objectivo e é ampliamente partilhado pela população: vencer. Em tempos de paz os indivíduos têm fins diversos e devem ser livres de os perseguir. O Estado é incapaz de gerir os recursos numa sociedade livre.

Os romanos nos tempos da República, em caso de ameaça grave, entregavam todo o poder a um ditador, que depois voltava a entregar as insígnias desse poder ao Senado. É famosa a lenda de Cincinato, que depois de vencer a Batalha do Monte Álgido, aclamado pela população que o queria nomear rei, foi lavrar os seus campos e apascentar os seus rebanhos. Depois desta crise, eu também sou partidário de mandar os governantes pastar, porque sei que eles vão aproveitar a ocasião. Mas que o consigam só se deve à ignorância ou falta de memória dos cidadãos, não à actuação do Estado para conter a epidemia.