A histeria nos mercados financeiros sempre foi pautada por uma característica fascinante: oscila entre o entusiasmo desmedido e o pânico irracional com a mesma velocidade com que uma criança muda de brinquedo.
Desta vez, a mais recente ameaça ao império tecnológico ocidental dá pelo nome de DeepSeek, um modelo de IA generativa concebido pela China que, segundo os alarmistas de serviço, poderá abalar os alicerces das gigantes americanas como a OpenAI, a Meta e a Nvidia.
Os mercados reagiram como um adolescente inseguro: um soluço nervoso no Nasdaq e uma ligeira crise existencial no S&P 500. E qual o aparente motivo? A revelação de que a China conseguiu produzir um modelo de IA competitivo a um custo muito inferior ao dos seus rivais americanos. Ou seja, os investidores, na sua infinita sabedoria, acordaram subitamente para o facto de que Pequim assume uma abordagem mais agressiva e economicamente eficiente no desenvolvimento de tecnologia.
Em todo o caso, não será desta – por enquanto – o fim do mundo. Aliás, este pânico momentâneo denota muito mais um reflexo de stress exacerbado do que um diagnóstico realista. A prova disso é que, assim que foi anunciado o Projeto Stargate (um investimento de 500 mil milhões de dólares no por parte da administração Trump para garantir a supremacia americana na IA), os ânimos começaram a acalmar. Nada como meio bilião de dólares para tranquilizar os corações dos investidores mais nervosos.
Na prossecução da análise face à irreverência promissora que o DeepSeek possa trazer, há um pequeno detalhe que parece escapar aos entusiastas das teorias do colapso ocidental: quem é que, realmente, pretende fazer uso de um modelo de IA que não pode falar de Tiananmen ou do presidente chinês sem sofrer um curto-circuito ideológico? Quem… além dos que se encontram com a visão toldada pelo seu próprio regime, obviamente.
O sucesso de um modelo de IA jamais se medirá, tão-somente, pela sua eficiência técnica e operacional. A sua maior ou menor adoção global terá um impacto tão ou mais relevante. E, neste ponto, o DeepSeek enfrenta desafios gigantescos. Para começar, a transparência dos modelos chineses levanta tantas dúvidas quanto um banco suíço nos anos 80. O controlo estatal sobre a tecnologia traduz-se no receio legítimo de muitos países e empresas em adotar um modelo que pode, a qualquer momento, ser ajustado para refletir os interesses do Partido Comunista Chinês.
Não menos relevante, ainda, antevejo a possibilidade de os EUA – com Trump ao comando – simplesmente banirem o uso de modelos de IA chineses no seu território, uma estratégia que já foi aplicada a empresas como a Huawei e a TikTok. Afinal, se há algo que Washington sabe fazer bem, é construir barreiras comerciais disfarçadas de preocupações com “segurança nacional”.
Neste andamento preparatório, o próprio nome do “projeto” (Stargate), a tender para uma epopeia de ficção científica, a la Hollywood, já transparece uma estratégia muito clara: garantir que o domínio americano na IA não seja contestado por um país onde a Internet continua a precisar de uma VPN para funcionar plenamente. Segundo o que foi até agora divulgado, a ideia passará por construir centros de dados gigantescos, investir em infraestrutura e garantir que as empresas americanas tenham a capacidade de treinar modelos de IA numa escala que os chineses dificilmente conseguirão igualar a curto prazo. Por outras palavras, os EUA estão a fazer aquilo que sempre fizeram quando a concorrência aperta – usar dinheiro (muito dinheiro) para resolver um drama.
Dentro da minha análise de economista e ser-humano, sem a capacidade para a “tudologia”, acredito que os mercados irão recuperar, como sempre acontece após crises de histeria momentânea. O DeepSeek pode até ser uma peça relevante no tabuleiro da IA, mas dificilmente será o xeque-mate que esses tais seres – predestinados na previsão de 5 a cada 2 crises – anunciam.
Por outro lado, os investidores mais astutos historicamente sempre entenderam que o verdadeiro segredo está na diversificação. A inteligência artificial é, sem dúvida, uma revolução tecnológica, mas há outros setores a crescer longe das luzes da ribalta – como os segmentos da saúde, da energia e das finanças – e que não se encontram sujeitos às mesmas flutuações de humor face aos mercados tecnológicos.
Posto isto, concluo com uma ilação [gratuita]: sempre que os mercados entrarem em pânico por causa de uma suposta ameaça oriental, talvez seja boa ideia esperar uns dias antes de vender tudo e fugir para as montanhas. Até porque, se há algo que a história já demonstrou vezes sem conta, é que a narrativa do “fim do domínio tecnológico americano” costuma ser ligeiramente exagerada.