O país acordou, uma vez mais, perante uma noite eleitoral que nos obriga a parar e refletir. Os resultados das legislativas de 2025 não são apenas números: são sintomas de algo mais profundo. São o espelho de uma democracia cansada, fragmentada e cada vez mais exposta ao risco da radicalização.
Em seis anos, o sistema partidário português sofreu uma transformação que poucos previram com esta rapidez. Em 2022, o Partido Socialista (PS) alcançava uma maioria absoluta histórica, com mais de 2,3 milhões de votos. Hoje, regista um dos seus piores resultados: menos de 1,4 milhões. Não é apenas uma derrota eleitoral, é o reflexo de um ciclo político esgotado, que falhou em renovar-se e em responder às exigências de um eleitorado cada vez mais exigente e volátil.
Ao mesmo tempo, a direita recuperou terreno. A Aliança Democrática (AD), centrada num discurso moderado e agregador, tornou-se a força mais votada. Mas o fenómeno que verdadeiramente marcou estas eleições foi a ascensão fulgurante do Chega: fundado há apenas seis anos, ultrapassou o milhão e trezentos mil votos. Tornou-se a terceira força política nacional, superando o PS em várias regiões, consolidando-se como a voz do descontentamento.
E é precisamente aqui que começa a inquietação. Porque esse descontentamento é legítimo, mas a forma como é canalizado pode ser profundamente perigosa. O voto no Chega não é apenas um voto de protesto. É um voto que, consciente ou não, legitima discursos de intolerância, simplificações perigosas e um estilo de fazer política que ameaça os fundamentos do regime democrático. E custa aceitar que tantos tenham confiado num partido (AD) cujo líder se recusa a esclarecer questões graves no parlamento, a casa da democracia, sobre negócios familiares opacos.
Perderam-se votos em partidos moderados, essenciais para o equilíbrio do sistema. E com isso perdeu-se mais do que representação: perdeu-se tolerância, perderam-se pontes, perdeu-se a capacidade de compromisso. O novo parlamento contará com uma maioria de direita que, somando AD, IL e Chega, ultrapassa os dois terços dos deputados. Isto significa poder absoluto e, como a história nos ensina, o poder absoluto é um teste ao caráter de quem o detém.
Mas nem tudo está perdido. A História mostra-nos que as democracias, mesmo feridas, podem regenerar-se. O PS, apesar do resultado, continua a ser uma força enraizada na sociedade portuguesa, e tem a responsabilidade, e a oportunidade, de se renovar. A AD, por sua vez, enfrenta o maior desafio: governar sem ceder aos extremismos que a rodeiam. O futuro da democracia portuguesa dependerá, em larga medida, da capacidade de ambas as forças em concentrar o debate político, restaurar a confiança dos cidadãos e reafirmar os valores fundamentais que nos trouxeram até aqui.
Resta uma pergunta: vamos ficar a assistir? Ou vamos lutar pelo país em que acreditamos? Um país solidário, tolerante, democrático. Um país onde o voto não seja arma de frustração, mas instrumento de construção. Eu, por mim, não me conformo. Nem me quero conformar.