A fotografia combinada na 1.ª e 2.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior tem um padrão bastante nítido: o litoral absorve quase toda a procura, e o interior fica a meio gás. Já na 1.º fase era evidente, muitos cursos no interior ficaram com vagas por ocupar, alguns mesmo sem um único colocado. A listagem oficial mostra linhas inteiras em estabelecimentos de ensino no interior praticamente a zero, enquanto noutros polos a procura se esgotou completamente. A 2.ª fase não inverteu esta maré, apenas acrescentou gente ao sistema sem resolver o essencial, pois apesar de mais candidatos e mais colocados, continuam a sobrar milhares de vagas. Os dados da DGES são claros, de 55.292 vagas, na 1.ª fase ficaram colocados 43.899, dos quais apenas 39.498 se matricularam, já na 2.ª fase de 15.903 vagas foram ocupados 8.824 lugares, ficando assim a sobrar 9.313 vagas.

As folgas acumulam-se sobretudo em institutos politécnicos e universidades fora dos grandes centros. Enquanto em Lisboa e no Porto apresentam resíduos mínimos, o mesmo não se reflete pelo país fora.

Isto não é um tema académico, é económico. Menos estudantes no interior significa menos dinheiro em circulação num território já diversas vezes fragilizado. São quartos que não se arrendam, rendas que não entram, talões que não passam no supermercado, cafés, pastelarias e restaurantes a meio gás. Menos estágios em empresas locais, menos procura de serviços e cultura, menos vida nas cidades onde estas instituições estão sediadas. E há um efeito indireto que raramente entra nas contas, quanto mais cursos ficam subpovoados, mais as instituições perdem receita, o que corta investimentos em laboratórios, professores e projetos, e o ciclo repete-se, empobrecendo a atratividade do território.

Por outro lado, as regras postas em prática pelo atual governo em nada ajudaram. A mudança legal permitiu às instituições fixarem até seis conjuntos de provas de ingresso por curso (em vez das iniciais três). A intenção foi dar alguma flexibilidade, na prática, muitos candidatos esbarraram em combinações diferentes de exames exigidos, ficando assim inelegíveis em opções onde até havia vagas. E quantas destas instituições adicionaram conjuntos de provas, após a alteração? Responsabilidade individual de cada instituição? Acredito que sim. Assim, em vez de se ter aberto portas, a reforma ergueu paredes, multiplicou combinações sem um guião, nem campanha de esclarecimentos, que deixou candidatos com exames feitos, fora de cursos onde havia lugar.

O resultado, está à vista, vagas por preencher onde mais fazem falta, no interior, e um concurso menos justo e menos eficiente. Urge assim corrigir-se os erros neste concurso cometidos, harmonizar elencos sempre que possível e publicar um quadro único de elegibilidades por curso. Flexibilidade só conta se trouxer gente para dentro, tudo o resto é apenas burocracia a fingir política.

O concurso deste ano voltou a mostrar um país a duas velocidades, um litoral cheio, e um interior a perder tração, primeiro na 1.ª fase, e agora confirmado na 2.ª fase. Não precisamos de prometer uma reforma do mundo para salvar este ano, precisamos de uma liderança e execução, de um governo que saiba olhar para o país como um todo. Pois, se o governo não o fizer agora, a geografia decide por nós, e decide sempre o mesmo, mais pressão e custos no litoral, mais silêncio e persianas corridas no resto do país.