A política, em tempos de crise, revela não apenas o carácter dos seus protagonistas, mas sobretudo o nível de compromisso das instituições com a estabilidade e o interesse nacional. Não há nada mais pueril e irresponsável do que, perante um país a braços com desafios económicos estruturais, um cenário geopolítico europeu cada vez mais volátil e uma administração pública a precisar de reformas profundas, transformar a governação num imbróglio parlamentar digno de uma república de opereta. Há, de facto, momentos em que a nobreza do ofício exige que se diga, sem rodeios nem eufemismos, que se lixem as eleições e que se governe.
A incontinência eleitoral como solução mágica para todas as crises não é apenas um delírio adolescente de quem nunca teve de gerir nada mais complexo do que a sua conta de Twitter. É uma tentação populista, um engodo disfarçado de higienização democrática que ignora as consequências nefastas de um país que se habitua a viver em campanha permanente. É um desvario demagógico, um exercício de exibicionismo político que coloca a vaidade de uns acima do bem-estar de todos. A farsa é ainda mais grotesca quando os que hoje exigem sangue e antecipação eleitoral são os mesmos que, no passado recente, se indignavam com cada dissolução precipitada. O eterno retorno da hipocrisia.
O Partido Socialista, com décadas de prática na arte do sofisma, indignou-se com a mais recente crise política como se fosse uma vítima inocente da turbulência institucional. É uma encenação digna do mais ridículo teatro de boulevard. Afinal, foram anos de governação de uma arrogância insuportável, de um clientelismo metastático, de um desdém absoluto pelas reformas essenciais, substituídas por medidas avulsas para alimentar um eleitorado viciado em promessas ocas. O PS não apenas ignora as suas responsabilidades na degradação da vida política portuguesa, como ainda tem o desplante de se armar em defensor da estabilidade depois de passar anos a semear caos e inércia.
Por outro lado, temos o Chega, o eterno palhaço de pista que insiste em transformar a política portuguesa num circo de terceira categoria. A gritaria histérica, a dramatização grotesca de cada incidente parlamentar e a sua obsessão infantil por cavalgar crises tornam evidente que o partido de Ventura não tem interesse algum na estabilidade do país. Alimenta-se do escândalo, sobrevive do tumulto e precisa da instabilidade como de ar para respirar. O seu discurso de cruzada contra o sistema é uma fraude desmontável por qualquer criança atenta: a sua única estratégia é criar barulho e iludir os incautos com um populismo de pacotilha, incapaz de apresentar uma alternativa governativa séria.
Há uma diferença abissal entre oposição e sabotagem. Discordar da governação é não apenas legítimo, mas essencial. Mas boicotar a estabilidade, transformar qualquer fragilidade num palco de guerrilha política e negar, por capricho ou oportunismo, as condições mínimas para que o executivo cumpra o seu mandato, é um exercício de sabotagem pueril. Os artífices do caos, os campeões da crise permanente, são os mesmos que, entre dois soundbites e uma indignação encenada, clamam por responsabilidade. A coerência nunca foi o forte dos que vivem da teatralização da política.
O país precisa de reformas estruturais, não de mais um episódio de convulsão institucional com os habituais protagonistas a esgrimirem platitudes ocas nos telejornais. As instituições exigem maturidade, os cidadãos esperam responsabilidade e os mercados castigam a instabilidade. Recusar precipitar o país para um novo ciclo eleitoral quando não há uma alternativa credível ou um programa reformista consistente não é uma questão de conivência com o governo, mas sim de inteligência política. A democracia não é um brinquedo para ser atirado ao chão sempre que alguém se sente preterido numa disputa de egos.
A política não pode ser um concurso de pavões em que cada um desfila as suas penas na esperança de mais uns pontos nas sondagens. A governação exige solidez, e a solidez não se compadece com os amuos dos que preferem a arena mediática ao exercício sério do poder. A histeria do momento não pode ser critério de decisão para o futuro de um país. A política não é um campo de batalha para aspirantes a gladiadores, nem um teatro de marionetas onde cada ator ensaia indignações ao sabor das audiências. É um exercício de responsabilidade. E a responsabilidade, num momento como este, exige que se governe. Ponto final.