O apagão elétrico que deixou a Península Ibérica sem energia no dia 28 de abril expôs vulnerabilidades em várias frentes. À partida, tratou-se de uma falha técnica com origem além-fronteiras, envolvendo infraestruturas de transporte e distribuição de energia que operam em rede europeia. Contudo, rapidamente se tornou mais do que isso: um teste à resiliência do Estado, à maturidade das instituições e ao sentido de responsabilidade política dos seus protagonistas.
Do ponto de vista técnico-operacional, a resposta do sistema energético foi, dentro das limitações impostas pela falha, relativamente célere. No entanto, ao nível da Proteção Civil, verificaram-se dificuldades que merecem análise séria. A comunicação com a população revelou-se insuficiente nas primeiras horas e a ausência de orientações claras gerou incerteza junto de vários serviços essenciais e da sociedade civil. Também a articulação com autarquias e estruturas locais poderia ter sido mais proativa, sobretudo em zonas onde falharam simultaneamente energia e comunicações móveis.
Reconhecer estas falhas é essencial para que se possa melhorar, mas importa não confundir a identificação de problemas com o aproveitamento político precipitado. E foi exatamente isso que se viu.
No mesmo dia em que técnicos e autoridades tentavam compreender a extensão e as causas da falha, num cenário de corte abrupto de energia, redes móveis e sistemas de emergência, surgiram declarações públicas que não tinham como objetivo escrutinar ou propor melhorias, mas apenas criar dano político.
Pedro Nuno Santos acusou a Proteção Civil de falta de prontidão na comunicação. A crítica teria legitimidade, e até utilidade, se fosse proferida com ponderação e respeito pelo tempo técnico da resposta. Não foi o caso. Foi feita com uma precipitação calculada, no meio do ruído informativo e quando ainda ninguém detinha uma visão global do sucedido. O objetivo não era contribuir para a resolução, mas criar desgaste.
Mais grave ainda foi a tentativa de responsabilizar diretamente o Governo por uma falha transnacional cuja origem, à data, continua sob investigação. Exigir que um primeiro ministro venha de imediato falar ao país, mesmo sem dados fiáveis, não é pedir liderança, mas sim teatro. E num cenário de crise, o palco deve ceder lugar ao comando.
Também André Ventura não resistiu à tentação de transformar o apagão num palco de acusação sumária, afirmando que o Governo “falhou a todos os níveis”. A frase é eficaz, mas vazia. Houve falhas em alguns níveis? Sim. É importante apurar o que correu mal na Proteção Civil, melhorar os canais de alerta à população e rever procedimentos para cenários de colapso de redes. Mas afirmar que tudo falhou é, além de falso, profundamente irresponsável.
A resposta do Estado esteve longe de ser perfeita. Em várias zonas do país, não houve qualquer orientação; estruturas locais ficaram sem contacto com os comandos distritais; cidadãos recorreram às redes sociais para obter informações básicas. O país tem o direito e o dever de exigir melhor. Contudo, há um tempo para responder tecnicamente e um tempo para fazer política. E, nesse aspeto, quem deveria dar o exemplo falhou redondamente.
É possível ser oposição com responsabilidade, ser exigente sem ser incendiário, criticar sem sabotar. Para isso, porém, é preciso uma qualidade que parece andar em falta: sentido de Estado. Quem ocupa ou já ocupou cargos governativos sabe, ou deveria saber, que nem todas as crises se resolvem com comunicados apressados ou indignações telegénicas.
O dia 28 de abril expôs vulnerabilidades sistémicas que devemos estudar e corrigir. Mas revelou também uma fragilidade mais grave: a facilidade com que parte da nossa elite política abdica do interesse nacional em nome de alguns votos. Enquanto o país tentava perceber o que se passava, políticos faziam de jornalistas, jornalistas de especialistas e especialistas de políticos. Poucos tinham dados, mas muitos falavam com certezas absolutas.
A política não deveria ser isto. Em momentos de crise, a prioridade deve ser garantir estabilidade e não alimentar o pânico. Um político responsável espera por dados concretos antes de se pronunciar. Mas isso parece ser pedir demasiado num país onde a pressa de parecer competente supera o esforço de realmente o ser. Enquanto os profissionais trabalhavam para restaurar a eletricidade, os verdadeiros apagões estavam noutro lado: na decência, no sentido de Estado, no respeito pelo trabalho de quem realmente resolve problemas.
A energia voltou. A vergonha, para alguns, nem por isso. Esta é a falha que, a longo prazo, pode custar mais caro.