Vivemos num país onde o trabalho é glorificado em discursos, mas castigado na prática.  Onde se enaltece o esforço nas campanhas institucionais, mas se estrangula o seu fruto  nas folhas de vencimento. A justiça fiscal, um conceito tantas vezes invocado e  raramente concretizado, continua a ser uma miragem para quem, todos os dias, sai de  casa antes do nascer do sol e regressa já depois do pôr do sol, apenas para descobrir  que o Estado lhe ficou com quase metade do salário. E o mais trágico não é apenas  isso. É a resignação. A aceitação tácita, quase cívica, de que quem trabalha mais deve  ser mais tributado. Como se fosse natural.

O país precisa, com urgência, de uma política fiscal que deixe de castigar o esforço. E  aqui a proposta é clara: isenção total de IRS sobre o trabalho suplementar: horas  extraordinárias, feriados, noites e fins-de-semana. Tudo aquilo que representa sacrifício  pessoal deve ser reconhecido como tal, não com medalhas, mas com rendimento  líquido.

Não falo de uma medida simbólica ou de uma isenção parcial. Falo de uma inversão  total da lógica fiscal vigente. Se o Estado quer dignificar o trabalho, então deve começar  por sair do bolso de quem trabalha mais. Esta proposta não é apenas uma reivindicação  liberal; é uma exigência moral. Porque não há justiça social onde o esforço é tributado  como se fosse privilégio.

A filosofia do elevador social, uma ideia segundo a qual todos, independentemente do  berço, podem subir na vida pelo mérito, está hoje em ruínas. Não por culpa dos  pessimistas, mas do Estado. Um Estado que em vez de potenciar, bloqueia. Que tributa  o rendimento adicional como se fosse abuso, e não contributo. Que aplica a mesma  lógica fiscal a quem vive do suor e a quem vive de dividendos. Isso não é equidade: é  cinismo institucionalizado.

A proposta de isenção fiscal total sobre trabalho suplementar visa restaurar o contrato  social entre o Estado e os seus cidadãos produtivos. Visa dizer, sem ambiguidade, que  quem sacrifica o seu tempo, a sua saúde, o seu descanso, a sua vida familiar, terá a  justa compensação: o fruto integral do seu esforço. Não se trata de populismo fiscal.  Trata-se de justiça. De uma justiça que reconhece a diferença entre trabalhar mais e  explorar mais. Entre viver do trabalho e viver do Estado.

Numa sociedade em que os salários de base não chegam, onde os trabalhadores  precisam de fazer horas extra para sobreviver, não é admissível que o Estado veja nisso  uma oportunidade de arrecadação. A atual arquitetura fiscal transforma o trabalho  extraordinário numa dupla penalização: exige mais do trabalhador e entrega-lhe menos.  A isenção fiscal proposta pretende, por isso, inverter esta lógica: quem dá mais ao país  deve receber mais do que deu – não menos.

É essa a essência de uma verdadeira justiça fiscal. E é esse o passo necessário para  reabilitar o elevador social. O mérito precisa de ser recompensado, e não apenas  celebrado. O esforço precisa de ser libertador, e não uma forma moderna de servidão  fiscal. Um país onde trabalhar mais equivale a viver pior é um país em falência ética e  sem futuro.

A proposta está em cima da mesa: quem trabalhar além do seu horário normal, em  condições exigentes e com impacto pessoal, deve receber esse rendimento de forma  limpa, sem impostos, sem penalizações, sem truques. Porque o trabalho extraordinário  não deve ser mais uma fonte de receita para o Estado. Deve sim, ser uma fonte de  ascensão social para o cidadão.

É este o pacto que precisamos de construir: um pacto com quem trabalha, com quem  acredita no mérito, com quem quer subir na vida sem depender de subsídios nem de  favores. Um pacto em que o Estado sai do caminho de quem quer progredir e deixa o  esforço fazer o seu percurso.

Não se trata apenas de uma medida técnica. Trata-se de uma escolha política. Uma  escolha entre continuar a tributar a esperança ou começar, finalmente, a premiar o  esforço. Entre um país onde o mérito é taxado e outro onde é respeitado.

Se queremos, de facto, um Portugal mais justo, com mais liberdade real e mais  oportunidades para todos, então está na hora de agir. De parar de punir quem se  esforça. E de começar a construir um país onde trabalhar mais não seja um fardo, mas  um caminho claro para uma vida melhor.