A Iniciativa Liberal está perante uma decisão estrutural: quer ser parte de um movimento  europeu que redefine a liberdade no século XXI ou será apenas mais uma linha na história do  populismo de mercado? Esta pergunta é prática, urgente e política. E o seu nome, neste  momento, é Javier Milei.

A ascensão do presidente argentino tem sido usada como argumento de autoridade por sectores  que, à procura de inspiração, encontraram num economista performativo e num governo de  choque fiscal aquilo que julgam ser a encarnação de um liberalismo autêntico, cru, sem travões.  Mas o que Milei oferece não é uma renovação do liberalismo. É a sua distorção. Não é a resposta  liberal à decadência do Estado social latino-americano, mas sim o seu espelho invertido,  igualmente distorcido, igualmente dogmático.

Em nome da disciplina orçamental, Milei fez o que muitos à direita sempre desejaram: paralisou  o Estado. Mas fê-lo com o impacto de um sismo: suspendeu obras públicas, cortou brutalmente  os apoios sociais, desacelerou a ciência, reduziu o ensino superior ao silêncio e empurrou  reformados para a indigência. A inflação caiu, sim. O défice foi contido, também. Mas a que  preço? Um liberalismo sério tem de responder a esta pergunta sem se esconder atrás de  percentagens. A política não se mede apenas nos números. Mede-se nos rostos dos que ficam  para trás.

O que torna Milei politicamente inaceitável não é a agenda económica, mas sim o método, o  tom, a ideologia do colapso como estratégia. A violência simbólica contra os pobres, o desprezo  pelo Parlamento, os ataques ao jornalismo, a negação histórica dos crimes da ditadura e tudo  isto é mais do que um estilo. É uma visão de mundo. E é uma visão que nada tem de liberal.

Num continente como a Europa, com tradições democráticas sólidas, instituições construídas  com base no compromisso e uma cultura política assente no equilíbrio entre liberdade e coesão  social, importar o modelo Milei seria importar também a desintegração. A Europa não precisa  de mais messianismos económicos. Precisa de responsabilidade, inteligência e uma capacidade  cada vez mais rara: a de reformar sem destruir.

O liberalismo europeu e, com ele, a Iniciativa Liberal, tem um papel a desempenhar na  refundação do contrato social, não na sua implosão. A nossa tarefa não é apagar o Estado, mas  reconfigurá-lo. Não é sacrificar os mais frágeis, mas garantir que têm espaço para participar nele.  O verdadeiro desafio liberal não é cortar por cortar. É sim saber onde cortar e porquê, com que  objetivo, com que salvaguardas. É rejeitar o facilitismo das soluções universais e a preguiça  intelectual de um “menos Estado” indiscriminado. Porque, no fim, o que nos distingue dos outros  não pode ser a força do grito: tem de ser a profundidade da razão.

A IL não pode ceder à tentação de se colar à figura de Milei para parecer radical ou coerente.  Isso é teatro, não política. E uma ideia que precisa de ser representada de forma histérica para  ser ouvida já perdeu o seu conteúdo. Se aceitarmos esse modelo, damos razão aos que nos  acusam de sermos uma ideologia feita para os fortes, uma retórica sem conteúdo mascarada de  eficiência. E, pior, deixamos de ter legitimidade para criticar a esquerda quando ela, também ela,  envereda por atalhos autoritários. Se nós temos Milei, quem somos nós para apontar o dedo a  Maduro ou a Ortega?

É possível ser liberal sem ser cruel. É possível defender a liberdade económica sem trair a justiça  social. É possível exigir eficiência ao Estado sem cair no desprezo pelo serviço público. É possível  reformar com firmeza, sem governar com raiva. E é essa a diferença entre um liberalismo  europeu, humanista, de matriz democrática, e o populismo económico que Milei representa.

Se a Iniciativa Liberal quiser ser alternativa e não apenas excitação mediática, terá de fazer esta  escolha. A escolha entre o curto-prazo do choque e o longo-prazo da construção. Entre a  caricatura do liberalismo e a sua renovação. Entre o ruído e a responsabilidade.

Porque os portugueses que querem um país mais livre também querem um país mais decente.  Querem uma política séria, que reconheça os erros do Estado, sim, mas que não insulte quem  dele depende. Querem reformas que mudem vidas, não frases bonitas desprovidas de conteúdo que as piorem. E querem partidos que saibam distinguir entre o que é eficaz e o que é  simplesmente violento.

A IL tem espaço para crescer. Mas para isso tem de escolher: quer ser a vanguarda de um  liberalismo renovado, europeu, socialmente consciente? Ou será mais uma voz a gritar contra o  sistema, sem perceber que sem sistema não há liberdade para ninguém?

A resposta a esta pergunta é o que nos vai definir nos próximos anos. E começa por aqui: Milei  não nos representa. E, se não o dizemos com clareza, perdemos o direito de representar quem  espera mais de nós do que apenas uma versão ruidosa da velha política.