Nas últimas eleições houve choro convulso e clamor pelo elevado nível de abstenção. A maior parte das opiniões sobre o tema não me suscitaram qualquer interesse. Uma excepção foi um comentário que alto dirigente partidário da nossa praça proferiu na recente tertúlia organizada pela Oficina da Liberdade em Lisboa a propósito do que aí virá nas Legislativas.

Na ocasião esse membro do Parlamento disse aos presentes (e eram bastantes) que mais do que a sistemática crítica e o queixume sobre o afastamento dos políticos do seu eleitorado, gostaria de ouvir sugestões e propostas de como os partidos poderão comunicar ou interagir com as pessoas de modo a haver maior número de votantes.

Ora, para quem como eu aprecia sobretudo a liberdade, a diminuta ida às urnas não angustia por aí além. Desde logo porque Democracia e Liberdade são conceitos diferentes e (oh heresia! maldito fascista!) nem sempre são compatíveis.

Basta dar o exemplo do nosso próprio país, onde apesar de haver eleições livres e ser dada ao povo a possibilidade de escolher regularmente os seus representantes, todos nós somos cada vez mais invadidos na esfera das nossas vidas privadas, seja pela subtracção em doses crescentes da riqueza que produzimos seja por via da legislação passar a ditar os costumes e a regular a moral.

É razão para perguntar: quão substantivamente diferente é a liturgia democrática da eleição de quem nos governa da manutenção no poder de um tirano, quando em ambas as situações o resultado tende para o mesmo fim que é o de apascentar populações servis e amputadas da sua soberania enquanto pessoas cientes e responsáveis pelo seu próprio destino?

O uso que os políticos fazem do voto é condicionado ou determinado pelas ideias que prevalecem na sociedade. Daí que seja fundamental que essas ideias sejam boas. Mais do que o voto em si mesmo, o que garante de forma sustentada a Liberdade é intervenção cultural e a promoção de um clima intelectual propício a escolhas assentes na autonomia e responsabilidade individuais.

Para quantas mais áreas e temas os partidos tiverem a vertigem de apresentar propostas, mais espaço haverá para discordância e afastamento das pessoas. Estou certo até de que se a maior parte dos votantes lesse os programas dos seus partidos, muitos encontrariam afinal motivos dissuasores do voto.

Atualmente as pessoas votam por empatias, querem sentir-se bem consigo próprias, ambicionam ser acarinhadas por com quem se relacionam, cuidam de ter a opinião certa e uma estética de virtude. Ora, estes impulsos não garantem que sejam eleitos bons governos nem impedem que o poder de legislar seja capturado por interesses e grupos de tendências totalitárias.

Para preservar a Liberdade, os partidos teriam de adoptar uma atitude e mensagem contra-natura que pugnasse pela redução do Estado e, portanto, da sua própria razão de ser: a de obter posição de poder.

Assim, eu que sempre votei, interpreto os 70% de abstenção como um farol de esperança. Uma evidência de que a sociedade funciona com poderes fragmentados e descentralizados, uma manifestação de que os políticos se auto atribuem uma importância e um papel na comunidade bem superior aquele que os cidadãos desejam.

O elevado nível de abstenção pode refletir também o facto de as pessoas procurarem ter mais influência e transmitir a sua visão do mundo de forma personalizada através das redes sociais do que através do voto. Os cidadãos acabam por exercer mais democraticamente seus direitos e preferências no mercado enquanto consumidores informados do que enquanto eleitores. Praticam a liberdade no seu quotidiano em vez de esperarem cartas de alforria outorgadas pelos partidos ou o Estado.

Desde que a democracia decida sobre o mínimo possível acerca das nossas vidas, a deputada que procurava respostas para a abstenção poderá não se apoquentar e ter confiança na Liberdade.

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