Há quem ache que os impostos são um mal necessário. Eu discordo. Os impostos são um bem absoluto, um gesto de amor cívico, uma oferenda sagrada à entidade abstracta que tão sabiamente decide por nós.
Venho propor o Dia Nacional do Imposto!
Um dia que nos deve orgulhar a todos os que sabem que devem entregar ao Estado tudo o que essa entidade abstracta nos solicitar. Porque eles, sim, sabem como gerir os nossos salários!
Sinto vergonha de descontar tão pouco e sugeriria até que nem devíamos receber nada directamente. Deveríamos entregar tudo ao Estado, garantindo assim que todo o nosso dinheiro seria bem gasto e não esbanjado em futilidades e infantilidades.
Este Dia Nacional do Imposto merece as melhores e maiores celebrações, sendo totalmente organizadas pelo Estado, pois claro. Merece hinos, bandeiras, medalhas… tudo aquilo que uma festa merece.
Mas isto é apenas uma sugestão. Afinal de contas, o que sei eu sobre como gastar o meu salário? Deixo nas mãos de quem estiver temporariamente à frente das várias entidades que compõem o tão clamado Estado decidir.
Pagar impostos é um acto patriótico! É um acto de amor e de indescritível felicidade. Quem não se comove quando analisa o seu recibo de ordenado? Eu, pelo menos, quase que choro de tanta felicidade. Sinto até que podia e devia ser mais.
Saber que cada euro do meu suor é gasto de forma tão eficiente é o que me faz levantar da cama todas as manhãs. Sem este propósito de vida que é o pagamento de impostos, como é que iríamos sobreviver!? Como é que íamos ter obras de arte em rotundas, ciclovias decorativas, engenheiros em câmaras municipais a impedir que estes abusadores tenham a ousadia de fazer nas suas propriedades aquilo que lhes apetecer?
Todos sabemos que falamos de pessoas que trabalham incansavelmente, entre pausas estratégicas para café, para garantir que os formulários são devidamente carimbados.
Vivam os impostos e a eficiência do Estado a gerir os nossos salários!
Sim, eficiente! Porque, se o Estado somos nós (como dizem), então ao afirmar que o Estado é ineficiente, estamos a criticar a nossa própria gestão. O que poderia muito bem ser verdade, se fosse o caso de sermos nós a gerir o nosso dinheiro. Pois somos seres inferiores e, nesse caso, seríamos os culpados da má gestão.
Os impostos são o preço a pagar pela civilização e, quanto mais elevados forem, mais civilizados somos.
Há uns que dizem por aí que imposto é roubo! Ingratos!
Os impostos são sempre voluntários. Ninguém te obriga a pagar. Podes perfeitamente recusar entregar dinheiro ao Estado, mas claro que tens de lidar com as consequências. No entanto, continuas a ser livre de não pagar. Há liberdade mais bela do que aquela exercida sob vigilância? Duvido…
Imposto é roubo!? O imposto é justo! É justiça social, humanismo, igualdade… e parem de ser de extrema-direita. Fachos!
O Estado distribui o que é de todos com a sabedoria de um pai. Uns recebem subsídios, outros estradas, outros financiamento para estudos sobre temas fundamentais como palhinhas de papel embrulhadas em embalagens de plástico ou tampas agarradas a embalagens de iogurte. Tudo criteriosamente pensado. Vamos salvar o planeta!
E o melhor de tudo: se algo falhar, criamos mais um imposto para resolver!
Os impostos são a salvação moderna. E quando, um dia, percebermos que devemos entregar tudo ao Estado, finalmente seremos livres.
A maior liberdade consiste em não possuir nada e, como tal, não ter preocupações nem responsabilidades sobre nada. Nem propriedade, nem consumo, nem educação dos nossos filhos, nem saúde, e muito menos esta maçada que é pensar.