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Março de 2020 foi um ponto de viragem para o mundo académico, à semelhança de todos os outros setores no país e no mundo. Vimos no início do mês os primeiros casos de infeção e, no espaço de 12 dias, as escolas e universidades fecharam portas e suspenderam as suas atividades presenciais.

A continuação ininterrupta das atividades letivas a partir deste mesmo dia, pelo menos em grande parte das universidades, foi um feito surpreendente. Docentes e staff mobilizaram-se rapidamente e adaptaram conteúdos didáticos ao formato online, criando a infraestrutura que tal permitisse de forma sólida e sustentada. Sei o que estão a pensar: “Os docentes apenas continuaram a lecionar via Zoom ou Teams o que já faziam presencialmente. Que esforço exigiu isto na prática?” Concordaria com o vosso desafio, não fossem dois fatores:

  1. A grande generalidade das universidades detinha (e detém) poucos recursos ou experiência prática no ensino online;
  2. É notoriamente mais demorada a mudança no meio académico do que no meio profissional e a indicação oficial até ao dia 12 de Março era de manutenção das atividades letivas presenciais.

A adaptação rápida foi sentida e recompensada pelos alunos – a avaliação das aulas manteve-se no final do ano letivo face ao seu início e vários comentários de alunos evidenciaram o esforço dos docentes na rápida transição para o online, tendo reconhecido o papel ativo das universidades em dar continuidade à sua formação num momento de crise. Pessoalmente, acredito que cumprimos a missão que o Sr. Primeiro-Ministro nos deu em declaração ao país: não permitir que a crise interferisse com a qualidade da formação desta geração.

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Passada esta fase de transição, em que operámos todos em “modo bombeiro”, tínhamos, e temos, obrigação de estar a fazer mais e melhor! Da mesma forma que comendámos o esforço da comunidade académica, temos necessariamente de a criticar por perpetuar as mesmas práticas de março de 2020, agora mais de um ano depois. Continuamos em situação de incerteza, a voltar cautelosamente ao regime presencial, e o ensino online continua a resumir-se, na sua generalidade, apenas ao Zoom e Teams. O termo “Zoom fatigue” foi, entretanto, adotado globalmente, tal foi a dependência dos mundos profissional e académico deste instrumento, em detrimento de o utilizar apenas para o que deveria ser em contexto online – discussão e colaboração, não exposição.

Em ensino online, o objetivo é a utilização de instrumentos síncronos (“aulas online” como as conhecemos) e assíncronos (ex.: vídeos com conteúdo, leituras, quizzes, trabalhos de grupo), de forma a otimizar o engagement e a retenção de conhecimento. Aplicar instrumentos assíncronos evita que um aluno permaneça em chamadas Zoom oito horas seguidas, dá-lhe a flexibilidade para assimilar o conteúdo da forma que prefere e permite a repetição (ex.: pode ver um vídeo várias vezes) – mecanismo instrumental para a retenção.

Alguns docentes adotaram estas práticas no último ano. “Porque não todos”, perguntam? Por duas razões:

  1. Esforço de transformação de conteúdos, sendo que o regime físico esteve sempre no horizonte;
  2. Desconhecimento ou desconforto na utilização destas práticas.

As universidades têm, por isso, obrigação de formar os seus formadores, dando-lhes os incentivos para adotar as melhores práticas no ensino online. Além de garantir uma melhor qualidade, promover discussão e colaboração online (em vez de exposição, em que os alunos estão reativos) pode cobrir algum do gap de desenvolvimento pessoal e social que o lockdown e o distanciamento provocaram.

Como comunidade académica, temos a obrigação de fazer mais e melhor no ensino online!