O terceiro dia do ano é marcado pelos ataques dos Estados Unidos da América à Venezuela, que culmina com a captura de Nicolás Maduro, circunstância que confronta não somente com o direito internacional, como principalmente com a razoabilidade e bom senso.
Perceber-se-á a momentânea alegria de quem é Venezuelano, que deve acompanhar-se de preocupação a respeito do futuro. Porém, a quantidade de portugueses que festejam o bombardeio na Venezuela coloca em evidência as razões que justificam o facto de não sairmos da cepa torta, não conseguimos ver além da ponta do iceberg.
O regime de Maduro era execrável e a deposição deste é uma boa notícia. No entanto, a forma como é executada esta captura revela-se assustadora, sendo ainda mais aterradora a aceitação que este direito de invasão vai tendo aos olhos dos portugueses.
Para que melhor se entenda, o tipo que governa uma das nações mais poderosas do mundo, faz um cerco a um país e passado umas semanas tem o capricho de capturar o respetivo Presidente, sem prestar contas a ninguém. Adicionalmente, ainda o leva a julgamento em território estrangeiro.
Fácil se consegue prever que a sentença está dada, e que Maduro será condenado pelos alegados crimes de narcoterrorismo. Para além da completa ilegitimidade para o retratado, cumpre apurar se esta prevalência da lei do mais forte se motiva nas ações criminosas praticadas por Maduro ou nas reservas de petróleo que exuberam na Venezuela.
Assim como sucedeu no Iraque, será que os Estados Unidos somente se interessam em fazer justiça nos territórios onde abundam recursos naturais?
Ao invés de se idolatrar Trump, seria pertinente encaminhar a atenção para o que nos trará o horizonte. Não a respeito do próximo líder da Venezuela, esta tornar-se-á uma questão de residual significância, mas sim da caixa de pandora que se abriu para o mundo.
Mostra-se agora aceitável que Putin capture Zelensky e o leve para Moscovo, ser julgado por crimes de terrorismo, enquanto faz da Ucrânia território Russo?
Se com ligeireza e sem qualquer oposição se pratica o direito de invasão num país com cerca de 30 Milhões de habitantes e com mais de 900 mil metros quadrados, o que impede que os pequenos países da América Central, ali bem perto, sejam igualmente invadidos?
E no caso europeu, quem trava a Rússia de começar em expedição até à Chéquia? Ou, em alternativa, conseguir agrupar países de reduzida dimensão territorial e populacional, como são exemplo os vizinhos Estónia e Letónia.
Perante o nosso sorriso e aceno, qual será o ulterior papel da China neste âmbito?
Podemos não gostar de Maduro, pode este ser um ditador, pode o povo Venezuelano ter uma breve alegria e ter outra perspetiva de futuro, mas até que ponto esta ideia de falsa libertação em Caracas não torna o resto do mundo refém?
O que resulta desta consagração do direito de invasão pode ser bom para o governo norte americano, para o governo russo e para outros que se assemelhem, contudo não é certamente motivo de celebração para o povo português, apenas para aqueles que não conseguem ver para além do óbvio.