Quando discuto com amigos sobre a tristeza que é Portugal ser regularmente ultrapassado por outros países europeus nos rankings económicos, ou como seria melhor seguir políticas de desenvolvimento diferentes, seguindo o exemplo desses países, a resposta mais comum é referirem as diferenças que Portugal tem para esses países. Os outros passaram-nos por uma qualquer característica específica que têm, cultural, histórica ou sistémica. Ou as suas políticas não poderiam ser aplicadas em Portugal por uma qualquer característica que Portugal tem.

Nas cinco décadas em que vivi, Portugal foi ultrapassado economicamente pela Espanha, Irlanda, Grécia, Chipre, Malta, Eslovénia, Estónia, Lituânia, Eslováquia e República Checa. A Grécia está novamente atrás de Portugal depois da crise brutal que sofreu na última década. Mas parece já ter atingido o fundo do poço e estabilizado num nível ligeiramente abaixo do de Portugal. Não ficarei surpreendido se daqui a meia dúzia de anos estiver no mesmo nível. Quem seguramente nos ultrapassará nos próximos anos serão Letónia, Hungria e Polónia. Pouco tempo depois será a vez da Bulgária.

Perante a variedade no leque de países europeus que ultrapassou Portugal é difícil aceitar a ideia de que o seu sucesso se prende com características culturais, históricas ou sistémicas. Fomos ultrapassados por países periféricos e centrais; mediterrânicos, eslavos e bálticos; católicos e protestantes; religiosos e laicos; com sistemas educativos bons e maus; que sofreram ditaduras de direita e de esquerda; que se tornaram democracias em várias alturas muito diferentes. Para cúmulo, a primeira ultrapassagem veio da vizinha Espanha, que durante a vida dos meus pais foi destruída por uma guerra civil devastadora.

Embora vários destes países sejam menos afectados por greves e perturbações laborais que Portugal, alguns são mais – e Portugal está longe de ser dos países da Europa com maior número de dias de trabalho perdidos por causa de greves. O impacto das greves em França, que é preciso levar em conta ser um país rico, é dez vezes superior que em Portugal. Uma ordem de grandeza. Além disso a maioria das greves em Portugal são no sector público. Exceptuando as greves nos transportes, o seu impacto na produção não é significativo.

De um modo geral, os países que nos ultrapassaram estão melhor colocados que Portugal no Índice de Liberdade Económica da Heritage Foundation. Portugal está em 62º lugar, atrás da Irlanda (6º), Estónia (15º), Lituânia (21º), República Checa (23º), Letónia (35º), Bulgária (37º), Malta (41º), Roménia (42º), Polónia (46º), Espanha (57º) e Eslovénia (58º). Hungria (64º) e Eslováquia (65º) estão atrás de Portugal, apesar de crescerem mais. Dos países ricos a maior parte também está acima de Portugal, embora França (71º) e Itália (80º) estejam abaixo. Os principais obstáculos à liberdade económica em Portugal, de acordo com o relatório da fundação, são a ineficiência e os gastos do Estado.

Olhando para o tecido empresarial portugus﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽l portugu entre todos estes pa produçês, o perfil das empresas nacionais não parece diferir muito da média europeia. Mais de 95% das empresas são microempresas, enquanto na UE a média são 93%. Mais dramática é a diferença nas grandes empresas: Apenas 0,1% são grandes, enquanto na UE a média são 0,2%, o dobro. Em termos de valor acrescentado temos também que em Portugal as grandes empresas têm um peso de  31,7% contra uma média europeia de 43,6%. A mensagem que liberais têm passado sobre a economia portuguesa, que tem um sistema fiscal que desincentiva o crescimento das empresas e a formação de capital, parece confirmada por estes dados.

Considerando os países acima referidos constata-se que vários têm um peso das grandes empresas mais alinhado com a média europeia: República Checa (44%), Hungria (45,9%), Polónia (47,1%), Eslováquia (44,9%), Espanha (38,2%) e Eslovénia (34,9%). Os que não têm, colmatam isso com um peso de empresas pequenas e médias maior: Estónia e Lituânia. De um modo geral, também o primeiro grupo de países tem um maior peso das PMEs relativamente às microempresas. Empresas que crescem são uma característica de economias mais dinâmicas que permitem mais oportunidades.

Existe no consciente colectivo português uma expressão feita à medida para esta situação: “a cauda da Europa”. Em todos os sectores é recorrente os seus agentes queixarem-se de que Portugal está “na cauda da Europa”. A ironia de todos se queixarem, ao mesmo tempo que vão votando sempre nas mesmas políticas e que vamos sendo ultrapassados por todos os outros países, é uma ironia notável. A muito portuguesa noção do “triste fado” que é o nosso destino torna-se realidade pelos dois lados da moeda: Porque ou bem que estamos deterministicamente encaminhados para o fundo, por uma qualquer elusiva idiossincrasia, ou bem que a crença nesse fado perpetua as escolhas que para lá nos levam.