Dona Maria. 80 anos. O marido faleceu durante o confinamento. O seu companheiro de décadas. Está sozinha.

Vem à consulta de Dermatologia. Tem um sinal novo. Sigo o protocolo: primeiro o importante, o sinal fica para o fim. Sente falta dos filhos. Dos netos. Das amigas que já não vê. Um desgosto. Falamos meia hora. Anima um pouco. Ser ouvida faz-lhe bem.

O SNS está doente. Sim, o Covid mata. Muito. Mas passamos demasiado tempo a ouvir os maiores especialistas, os melhores gestores, os melhores médicos. E não ouvimos a Dona Maria. O SNS está doente. Mas não vai morrer por ser um caos administrativo ou por maltratar os seus profissionais. Vai morrer por não ouvir quem mais importa: os doentes.

Sou um defensor da telemedicina. Não por acreditar em soluções milagrosas que vão resolver todas as doenças. Mas por acreditar que pode dar voz ao doente. Ao António de 33 anos, comerciante, que não pode faltar ao trabalho para vir buscar as receitas. À Isabel, de 41, que tem de ir buscar as filhas à escola e que prefere saber o resultado das análises por telefone. Ao Sr. José, de 63, que pode controlar a hipertensão em casa, na companhia da esposa. E… à Dona Maria: que assim conseguiu uma consulta mais cedo.

E todos devemos perceber isso: defender a telemedicina não implica defender a sua aplicação em todos os casos! Não implica acabar com as consultas presenciais, que são fundamentais. Mas implica reconhecer que todos podem beneficiar com uma melhor organização dos serviços de saúde, tão necessária ao SNS.

O plano de telessaúde em Portugal está feito (ver PENTS 2019-2022). Mas dificilmente será cumprido. A suborçamentação é constante, as chefias mudam sem que se perceba porquê, e a telemedicina vai dando uma pobre imagem de si mesma: imposta de forma cega aos médicos e olhada com desconfiança pelos doentes.

O conceito de hospital mudou. Um bom hospital não tem só bons quartos, boas camas, ou boa higiene. Tem de ter bons computadores e bons sistemas. O SNS não precisa de mais planos de futuro, de inventar o melhor algoritmo de inteligência artificial do mundo, ou de criar uma revolução que mude a Medicina. Precisa de olhar para dentro e de perceber que o “rei vai nu”!

Que digitalizámos todo o processo clínico. Mas que todos os anos ficam por comprar 20.000 computadores. Que gastámos dinheiro num moderno sistema de videoconsulta. Mas que os nossos hospitais não têm câmaras. Que criámos rigorosos protocolos de proteção de dados. Mas que os nossos sistemas informáticos, com mais de 20 anos, já não suportam atualizações de segurança.

Quando em 2017 metade do País ardeu, ficou a descoberto o caos da gestão florestal. Infelizmente, a pandemia está a ter um efeito semelhante no SNS. Precisamos de fazer mais e melhor. De tratar os doentes COVID, mas de manter o seguimento de todos os outros. Por videoconsulta, se preferirem. Presencialmente se precisarem. Mas temos de estar cá para os nossos doentes. Sempre, mas sobretudo agora.

Foi bom falar com a Dona Maria. O sinal era benigno. Está à espera do primeiro bisneto. Fico contente. É o melhor remédio.

Tomás Pessoa e Costa tem 29 anos e é médico interno de Dermatologia no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central. Antigo atleta de alta competição de Judo, em 2016 teve a nota máxima na prova de acesso à especialidade médica e fundou a “Perguntas da Especialidade”, uma empresa de formação e apoio à decisão médica, vencedora do World Summit Awards Portugal 2020. Dá aulas de Medicina na Nova Medical School. É membro dos Global Shapers desde 2020.

O Observador associa-se ao Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial, para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa.  O artigo representa a opinião pessoal do autor, enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.