Durante a campanha presidencial de 2024 nos Estados Unidos, a candidata democrata Kamala Harris acusou Donald Trump de ser “fascista” e expressou preocupações sobre a sua admiração por ditadores, incluindo Adolf Hitler. Estas declarações foram feitas após o ex-chefe de gabinete de Trump, o general John Kelly, ter afirmado que Trump se enquadra na definição de fascista e que desejava ter generais leais como os de Hitler.
Donald Trump expressou diversas vezes admiração pelo líder norte-coreano, Kim Jong Un, durante e após o seu mandato presidencial. Após deixar a Casa Branca, manteve na sua posse diversas correspondências, incluindo cartas trocadas com Kim Jong-un, que ele descreveu como “lindas”.
Ao longo dos anos, Trump tem expressado admiração por Vladimir Putin em diversas ocasiões. Durante a sua campanha presidencial de 2016, Trump elogiou Putin como sendo um “líder forte” e afirmou que esperava “dar-se muito bem” com ele. Mais tarde, Trump chegou a declarar que Putin era um líder melhor do que o então presidente dos EUA, Barack Obama. Os elogios públicos dirigidos a estas personalidades reforçam a suspeita de que Trump tem uma admiração por ditadores.
Em outubro de 2024, mais de 200 psiquiatras e psicólogos expressavam, através de uma carta aberta publicada no jornal The New York Times, a sua preocupação sobre os riscos para a democracia de ter um presidente dos EUA, alegadamente com uma doença psiquiátrica (perturbação de personalidade narcísica maligna).
Avaliar a personalidade de Trump é sempre um exercício subjetivo, incompleto e tendencioso, pois a Associação Americana de Psiquiatria adotou a “Regra de Goldwater”, considerando antiético diagnosticar figuras públicas sem realizar uma avaliação pessoal.
Contudo, tendo por base esta acusação, há uma questão importante que se deve colocar: se uma pessoa com personalidade narcísica é por definição um individuo com uma enorme autoestima e autoconfiança, acreditando ser especial e único, por que motivo Trump admira tanto outros líderes que têm em comum serem fortes, implacáveis e ditadores? Não será isto uma contradição? Revela insegurança? Será que precisa de estar próximo de figuras de autoridade para validar sua própria grandeza?
Afinal, Trump poderá não ser tão forte e autoconfiante como faz supor. O seu recente comportamento, na sala oval da Casa Branca, humilhando Zelensky mostrou a necessidade de exibir publicamente o seu poder sobre o mais fraco, já que necessita de provar constantemente a sua grandiosidade. O aparente fracasso que tem tido nas negociações de paz da guerra da Ucrânia — depois de ter afirmado que resolveria o conflito em 24 horas — evidencia que o seu poder e o seu sucesso, não são assim tão grandiosos; afinal não é assim tão especial, como é característico de uma personalidade narcísica. Será um falso narcicista?
Convém reconhecer que Trump tem demonstrado coragem ao enfrentar alguns poderes internos ideologicamente instituídos. Refiro-me à forma como combateu a cultura woke, revogando algumas normas do politicamente correto, como é o caso da ideologia de género. Mas o poder não deve servir apenas para reverter políticas do antecessor e desafiar o mundo, tem de ser consistente, inspirado numa estratégia política coerente, percetível e pacificadora da sociedade.
Trump provavelmente não tem a segurança e a autoestima que aparenta; é provável que tenha consciência das suas limitações. Consequentemente, a sua liderança baseia-se mais na obsessão pela “perceção do poder”, através da comunicação social, do que propriamente em resultados concretos e consistentes. Veja-se a encenação televisiva, logo após a tomada de posse, mostrando a pilha de pastas contendo dezenas de ordens executivas que ia vorazmente assinando. A sua estratégia é alimentar permanentemente uma imagem pública de poder. Porém, Trump talvez seja mais “normal” do que a alegada perturbação da personalidade que os psiquiatras norte-americanos, signatários da referida carta aberta, referem que possui.
Seja como for, é difícil enquadrar esta personalidade num sistema de classificação psicopatológico. Do meu ponto de vista, Trump é menos autoconfiante do que transparece, pois as suas fragilidades, virtudes e contradições coexistem como em qualquer outra pessoa, embora sejam dissimuladas pela sua permanente necessidade de afirmação.
Os líderes europeus têm tido muita dificuldade em lidar com o atual presidente dos EUA. Creio que uma parte da explicação se fundamenta no seguinte: Trump possui um poder temerário que não deve ser subestimado; o seu verdadeiro poder reside na sua inconstância e imprevisibilidade, no aparente caos do seu “mundo interior” e no medo que a sua “loucura” sempre provocou nos outros.