Muito se tem falado nos últimos tempos sobre a crise da direita portuguesa. Mas a crise não é de agora. A crise da direita portuguesa começou nos dias seguintes à revolução do 25 de Abril quando a direita, aproveitando a abertura democrática da revolução, tentou seguir um caminho diferente da direita autoritária do Estado Novo, caminho esse que, no entanto, vir-se-ia a revelar ser impossível de percorrer.

Nos anos 74-75, com uma revolução à beira de degenerar numa revolução socialista, era impossível a direita apresentar-se politicamente à luz do dia. Para os revolucionários de então, ser de direita era pertencer ao regime corporativo derrubado no dia 25 de Abril, logo, ao inimigo que a revolução pretendia esmagar.

A ilegalização, por parte do poder revolucionário então vigente, de partidos políticos como o Partido do Progresso, o Partido Liberal e o Partido da Democracia Cristã, veio provar que era política e humanamente impossível a existência de formações políticas de direita durante o período revolucionário.

À direita não restou outra alternativa senão abrigar-se debaixo da sombra protetora de partidos políticos não socialistas — PPD e CDS, sendo que este último também lutaria durante o PREC pela sua sobrevivência política precisamente em virtude de, segundo a lógica revolucionária em vigor, albergar a direita que a revolução se propunha aniquilar.

A crise da direita em 74-75 originou a sua crise de identidade quando esta se albergou em partidos políticos que não eram de direita, mas do centro (CDS) ou do centro-esquerda (PPD).

E essa crise de identidade permaneceu até aos dias de hoje, pois, mesmo nos momentos de aparente triunfo da direita – AD e maiorias absolutas do PSD de Cavaco Silva –, nunca alguma vez aí se assumiu que estávamos perante vitórias da direita e isto porque, muito simplesmente, a direita continuava a ter vergonha em se assumir como tal. Assim, a direita portuguesa sobreviveu até ao presente umas vezes “travestida” de social-democrata, outras de democrata-cristã ou centrista.

Em síntese, até hoje, a direita não ousou sair dos partidos não socialistas que lhe deram refúgio nos anos de 74-75.

Porém, a crise de liderança do PSD e o resultado das últimas eleições legislativas vieram constituir uma excelente oportunidade política para que, finalmente, a direita portuguesa “saia do armário” e se assuma perante o País como tal. Há assim que afastar o fantasma de Salazar e deixar o Estado Novo para a História, para seguir em frente e proclamar a existência de uma direita Portuguesa assente em três pilares fundamentais.

Em 1º lugar, a direita portuguesa tem de ser uma direita liberal. A direita liberal é a direita que asume a defesa do Estado de Direito, da democracia, dos direitos fundamentais dos cidadãos, da economia de mercado e da sociedade civil.

A defesa da liberdade política, económica e cultural tem de ser um combate da direita liberal num momento em que contra estas liberdades sopram ventos ameaçadores por parte do terrorismo, do fundamentalismo islâmico, do fanatismo do politicamente correcto e dos populismos e autoritarismos que, à esquerda e à direita, existem por esse mundo fora.

Em 2º lugar, a direita portuguesa tem de ser uma direita conservadora. A direita conservadora é aquela que, a par da direita liberal, assume a defesa de toda uma cultura e de toda uma História que caracterizam um País e que lhe dão identidade própria.

Mas é também conservadora porque entende ser absolutamente essencial defender valores e instituições tradicionais consideradas fundamentais para assegurar uma sã vivência social e comunitária.

Como é igualmente conservadora quando defende os recursos naturais de um país,  as suas paisagens tradicionais e a cultura e costumes das suas populações rurais. Por isso, o melhor ecologista só pode ser um bom conservador.

Em 3º lugar, a direita Portuguesa tem de ser uma direita social. Neste aspecto, a direita precisa de sair a terreno para desmontar a intoxicação ideológica feita pela esquerda e que já dura há 45 anos.

A direita é inimiga da pobreza por que entende, tal como já o entendia Adam Smith no século XVIII, que uma sociedade de pobres é uma sociedade de infelizes.

O combate à pobreza só será eficaz se, em vez de nos preocuparmos com o combate aos ricos, investirmos  fortemente na educação ao mesmo tempo que se estimula o crescimento económico.

Só um investimento do Estado na educação, acompanhado da criação de medidas que estimulem o crescimento económico, é que permitirá arrancar Portugal à sua pobreza.

E o crescimento económico só se fará com uma economia de mercado forte porque dotada de empresas e empresários fortes, sem medo de investir e desenvolver os seus negócios, o que só pode acontecer quando a burocracia e a carga fiscal deixarem de constituir obstáculos ao desenvolvimento da economia por parte da iniciativa privada.

Agora que o PSD e o CDS entraram em ebulição em torno das suas lideranças e agora que existem novos partidos à direita com expressão eleitoral, é tempo de a direita Portuguesa que se encontra por aí espalhada reunir finalmente as suas hostes e, independentemente do lugar onde se encontre, assumir definitivamente perante o País e sem medo o seu ideário liberal, conservador e social.