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No recente debate televisivo entre Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura foi interessante registar que os dois candidatos a Presidente da República, reivindicando-se de direita (uma novidade em MRS, pois publicamente sempre fez juras à sua filiação social-democrata), apresentaram-se, no entanto, como representantes de direitas antagónicas, sendo que o candidato Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que a sua direita é uma direita social e cristã, logo uma direita abrangente, ao passo que, ainda segundo MRS, a direita de André Ventura será uma direita securitária e divisionista, logo, pouco cristã.

Do lado de André Ventura teria sido interessante que este se tivesse pronunciado expressamente sobre a classificação da sua direita por parte de Marcelo Rebelo de Sousa, o que, não o tendo feito, deixou no ar a dúvida em saber se, quando falamos em direita, estamos, afinal, a falar do quê?

Por isso, o debate em causa serviu para demonstrar, mais uma vez, o vazio que continua a existir na direita portuguesa no que diz respeito à ausência de uma formação política que represente genuinamente aquilo que de melhor existe na direita democrática, a saber, a defesa da democracia liberal, a defesa do Estado Social e a preservação dos valores e das instituições fundamentais à vivência salutar em sociedade.

A direita que Marcelo Rebelo de Sousa diz representar não será uma verdadeira direita, se apenas se limitar à defesa da democracia liberal e do Estado Social, assim como a direita que André Ventura diz representar não será uma verdadeira direita, se apenas se limitar a defender a autoridade do Estado e a segurança dos cidadãos.

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Por muito que isto possa custar, quer a Marcelo Rebelo de Sousa, quer a André Ventura, qualquer das direitas que os dois dizem representar vai precisar uma da outra para que seja possível apresentar à sociedade e aos eleitores em geral um projeto político nacional, que seja, simultaneamente, liberal, conservador e social.

A direita é liberal porque acredita na democracia liberal, no Estado de Direito, nos direitos fundamentais dos cidadãos, na economia de mercado e na sociedade civil.

Porque é liberal, a direita rejeita, em absoluto, todos os regimes políticos totalitários e autoritários que caracterizaram em grande parte a História política do século XX – o nazismo, o fascismo e o comunismo -, assim como rejeita, presentemente, a ditadura do politicamente correto gerado pela política cultural da esquerda no século XXI, a qual criou um clima de intolerância e de asfixia para quem se atreve a pôr em causa o pensamento único ditado por essa mesma esquerda que tomou conta do poder nas universidades e nos “media”.

Mas a direita, porque é liberal, também rejeita todos aqueles que invocando valores (falsamente) conservadores, se atrevem a subir violentamente as escadas de um qualquer Capitólio para imporem a sua visão autoritária de Estado e de sociedade, subvertendo completamente os fundamentos do Estado de Direito.

A direita é conservadora, porque acredita em todo um conjunto de valores e de instituições forjadas pela História e pela cultura de um povo e que, por isso, lhe conferem identidade e personalidade próprias.

Porque é conservadora, a direita rejeita todas as iniciativas que, ao abrigo de políticas “friendly LGBT”, visem fragilizar a família enquanto célula básica da sociedade e rejeita que, em nome do multiculturalismo, se adoptem políticas que ponham em causa a Nação como valor que sintetiza o modo de ser, de estar e de sentir de um povo nos domínios do sagrado e do profano.

A direita é social, porque acredita que a defesa do Estado Social tem de estar suportada, em simultâneo, por uma economia de mercado forte, geradora de riqueza e de emprego, e por uma sociedade civil verdadeiramente livre.

Porque é social, a direita entende, que só através da conjugação da riqueza e de emprego gerados por uma economia de mercado forte e do dinamismo de uma sociedade civil verdadeiramente livre, que permita gerar parceiros disponíveis para colaborar com o Estado na concretização dos fins do Estado Social, é que será possível, com sucesso, combater a pobreza e promover, assim, a ascensão social dos cidadãos e dos grupos de cidadãos mais pobres.

O combate à pobreza não é uma tarefa solitária do Estado, mas antes uma tarefa solidária, ou seja, de todos.

Contrariamente à demagogia própria da esquerda, a direita detesta a pobreza, mas não diaboliza a riqueza, até porque crê que, quanto mais ricos forem os cidadãos, mais livres eles serão na gestão das suas vidas e, por conseguinte, menos dependentes do Estado para decidirem do seu destino.

Mas onde está esta direita liberal, conservadora e social?

Esta direita, à falta de um partido político que a represente, está disseminada por um vasto leque partidário que vai desde o PSD até ao Chega, passando pelo CDS, pelo Aliança e pela Iniciativa Liberal.

A fragmentação da direita, de que o debate entre Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura bem representou, é, neste momento, a sua maior fraqueza.

Daí que, mais uma vez, seja absolutamente necessária a renovação do sistema partidário português à direita, pois nenhum dos partidos que actualmente existem – do PSD ao Chega – está em condições de assumir, por inteiro, um projeto nacional de direita liberal, conservadora e social.

O PSD, sobretudo com Rui Rio, está claramente posicionado ao centro e rejeita qualquer conotação com a direita.

O CDS luta pela sua sobrevivência perante um Chega que está a consumir rapidamente o seu eleitorado.

A Iniciativa Liberal não tem qualquer agenda conservadora.

O Chega está completamente absorvido pelo seu discurso anti-sistema.

O Aliança está desaparecido em combate.

Perante este cenário, há que ultrapassar o vício de raciocínio em saber qual é a direita que tem maior grau de pureza ideológica, para se avançar, a curto prazo, para um projeto político que consiga federar todas estas direitas.

Portugal precisa deste projeto.

Só com a sua concretização é que será possível enfrentar o poder socialista instalado no Estado, poder este que dá mostras de um cada vez maior autoritarismo (elegendo deputados e políticos da oposição como traidores à Pátria só por terem ousado criticar o Governo), assim como dá mostras de uma cada vez maior incapacidade e incompetência na gestão de assuntos que se refletem no bem-estar e segurança de todos os Portugueses, sejam eles no domínio da segurança interna, sejam eles no domínio da saúde pública, ao que acresce a habitual inoperância socialista para fazer crescer economicamente o país.

Está na hora de o país virar à direita, mas, para que tal aconteça, não é possível continuar a discutir se a minha direita lava mais branco do que a tua.