Eduardo Coutinho Andrade, mais conhecido por Eduardo era um autarca astuto, amoral, alguém claramente eficaz no teatro social. Eduardo era um cacique. Nascido próximo da década de 70 cruzou a Revolução dos Cravos enquanto a barba despontava e a voz lhe ressoava de uma caixa de fósforos. O nosso herói desde cedo intuiu que o trabalho e o esforço só modestamente podem ser recompensados. Era como se a equação para o sucesso tivesse uma constante que, acima de um dado empenho, reduzisse qualquer esforço à irrelevância. Para ele, a meritocracia teria de ser mais que isso, teria de incluir sedução, ardil e manha. E assim era Eduardo, um sedutor ardiloso pleno de manha. Enquanto adolescente em CáPelaTerrinha, um lugar sóbrio perdido nas planícies no meio de nenhures, o nosso herói soube aproveitar o PREC de então para terminar o secundário com distinção e louvor, ainda que sempre com passagens administrativas ou tarefas em grupo.

Eduardo verdade se diga, era mais um arquiteto social. “Manipulava” as pessoas, os interesses, falava-lhes à autoestima, intuía com mestria o que precisavam ouvir e, adjetivando com excelência, compunha os grupos de trabalho com sedução e engenho, deixando para os outros os aspetos mais técnicos das ciências, matemáticas e humanidades. Mesmo nas disciplinas em que se exigia alguma destreza ou capacidade física, Eduardo conseguia sempre bajular os colegas convencendo-os a superarem-se. Ao fazê-lo, estes últimos viam nele uma importância que de início o surpreendeu mas que, depois de experienciada, nunca mais lhe largou a pele. Eduardo tinha sucesso sem esforço. Ter sucesso era para ele tão natural como para nós é não o ter.

Terminado o secundário, Eduardo pressentiu que estudos posteriores eram um esforço de baixo retorno, e assim, procurando um sustento mais adequado às suas capacidades entrou, para a política como forma de fazer pela vida. Entrou para a “vida política”, e ao fazê-lo inventou o “Jotismo” muito antes de alguém saber o que isso era.

CáPelaTerrinha era um lugarejo singular. Tinha população, tinha juventude, tinha futuro, mas de uma forma ou outra, todos se conheciam ou conseguiam arquitetar um parentesco recuando não mais de duas ou três gerações. A Vila era um bom lugar para disfrutar o passar do tempo, mas não tinha paisagem capaz de conter a sua ambição. Teria de mudar de ares. E assim fez.

Ainda não tinha completado 20 anos quando conseguiu ser funcionário de um partido local. Teria é de desempenhar a atividade na sede do distrito, o que em boa verdade não era contrariedade para quem a visão ultrapassa o tudo que há para ver. Imbuído de ambição, imberbe e sem a barba cerrada que a maturidade lhe traria, mudou-se resoluto para a capital de distrito.

Burlães, era à época, na década de oitenta, uma cidade de buliço, um antro de oportunidades para todos e seguramente o foi também para o nosso jovem Eduardo. Sempre solícito, sempre bajulador, “lambia” todos os egos com que se cruzava, pois intuía, ainda que o não soubesse, que para chegar à posição de “lambido” há que “lamber” muito até se lhe ganhar o jeito, o gosto e a necessidade.

Ao nosso Eduardo não lhe foi difícil subir na hierarquia do partido. Não fazia grande coisa, mas era visto, não por todos, mas por quem era importante, como alguém disponível, agradável e solícito. E fazia-o com um sorriso e a humildade própria de quem nisso antecipa alguma vantagem. Era à época uma personagem agradável, cativante, alguém com quem se tem empatia de uma forma natural e sem qualquer esforço.

O líder do partido tinha uma filha de uma primeira esposa, uma Eslava que segundo me relataram terá morrido muito jovem. E foi esta filha, à altura em idade casamenteira, que tomou por trilho seguro para o sucesso. Contudo, havia um problema que complicava a relação. A moçoila tinha um pacto com beleza – esta não lhe podia toldar a argúcia. Tendo espelho em casa, não lhe foi difícil descortinar e desconfiar da insistência de Eduardo. Porém, ponderadas as adversativas e apesar da resistência inicial, acabou cedendo às pressões. É que nas questões práticas do “amor” o ótimo é inimigo de um “eventualmente aceitável”. E assim, numa bela tarde de domingo casaram com pompa e circunstância.

Não sei se forram felizes para sempre, mas isso ao caso não interessa, pois o que há de relevo na história é que para se entrar para a ribalta nada como aceder à família política certa e reforçar esses laços entrando para o sangue da família da ribalta. A Eduardo estava destinado um grande sucesso político, só teria de preservar o que os astros lhe tinham alinhado.

Por via do casamente e em consequência deste, Eduardo iniciou-se como autarca de Burlães. Primeiro como consultor, depois como vereador e mais tarde como Presidente. Burlães e os seus Burlados tinham homem, e é dele que vos vou falar.

Eduardo e sua esposa Henga Nádia, se da vida matrimonial pouco se conhece, cedo se alinharam no mundo dos negócios. O casal e o seu amigo António Carvalho Almeida, conhecido como Almeida, cedo descobriram que os serviços camarários aos Burlados podiam ser prestados pela autarquia, mas também podiam ser contratualizados ao exterior, o diga-se, era uma oportunidade de negócio. Precisavam de empresas em “outsourcing”.

O esquema era simples. Eduardo, primeiro Edil de Burlães e depois Presidente, “previa” ou criava as necessidades, enquanto Almeida, na assembleia municipal, aprovava os projetos. Completava a teia uma surpreendente e engenhosa Henga Nádia que operacionalizava os serviços e o circuito dos dinheiros, numa teia de entidades de nomes insuspeitos – Zyra Capital; Aureum Fidúcia Financeira; Bravum; Domus Aurea Construtiva; Nexor; Vitruvius Techné Engenharia Integrada; Tavra; Altiplano Estruturas Nobres, etc, tudo empresas S.A. com ligações a “praças offshore”.

E o esquema funcionava. As obras sucediam-se a um ritmo vertiginoso, as rotundas floresciam como cogumelos, sempre adornadas por obras intrigantes, mas de beleza inquestionável. Havia pleno emprego, a economia florescia, todo o mundo estava feliz e ninguém se queixava. Contudo, havia um senão, a dívida aumentava. É certo que sim, mas não vos quero maçar com coisas desagradáveis.

O circuito funcionava na perfeição. Os Burlados desconfiavam da pujança económica do casal Eduardo & Henga Nádia e de Almeida, o amigo do casal. Os sinais de opulência eram muitos e os Média locais começavam a dar nota disso. Porém, e por muito desagradáveis que fossem as notícias, o povo tendia a atribuir à inveja a inata tendência para a Má língua. Afinal, vemos sempre nos outros as nossas fragilidades e defeitos. Se somos invejosos, os que criticam também o são.

Enquanto as trocas de favores não iam muito além de pequenas obras ou das intermináveis intervenções na via pública, poucos eram o que se atreviam a “sugerir” que algo poderia não estar a bater certo. E quando as suspeitas pespontavam, logo o Burlães Futebol Club festejava um qualquer evento e celebrava a visão do Edil ou, quando o BFC andava na mó de baixo, o que não era raro, pois Almeida seu presidente aproveitava o clube para negócios paralelos, logo o Rotary ou o Lions Club locais reuniam num evento social onde o Presidente da autarquia surgia num esplendor que era detergente para uma qualquer mácula. Os Burlados gostavam disso e, para eles, era Deus nos céus e Eduardo no enclave entre Burlães e CáPelaTerrinha.

Mas tudo o que é bom tem um fim. Fora não ter um fim e nunca seria reconhecido como bom. E assim aconteceu com dois pequenos eventos que aparentemente nada tinham em comum, mas que em simultâneo acabaram por se potenciar.

O primeiro destes decorreu de alguma ganância do grupo. Na casa de campo que o casal possuía, e num fim-de-semana mais estival, enquanto Eduardo de avental aprimorava um churrasco e bebiam umas cervejas na companhia do sempre inseparável Almeida, o autarca lamentava-se de as obras que edificava, e que merecido lucro lhe davam, estarem destinadas a sucumbir com o tempo. Eduardo queria algo que ficasse para posteridade e que de alguma forma pudesse, desinteressadamente, potenciar o justificadíssimo retorno. E foi assim, no meio de cervejas, aventais e churrascos que o triunvirato se lembrou de propor à assembleia municipal a construção de uma ponte.

Se assim pensaram, mais rápido o puseram em marcha. Em assembleia municipal extraordinária o Presidente propôs a construção de uma ponte em Burlães, uma ponte que depois de ver a luz do dia os Burlados conheceriam como “a Ponte Eduardo Coutinho”. Os dados estavam lançados, e o êxtase e burburinho daquela assembleia foi tonitruante. Todo o mundo estava contente. Uma ponte! Que ideia fantástica! Como é que ninguém se tinha lembrado disso? Uma ponte, seria a oportunidade para novas empresas, quiçá um consórcio internacional? Poderiam aproveitar os dinheiros do PRR. Afinal, num país de “mulheres e vinho verde”, por que não também de pontes? E já agora, uma? Por que não várias? Afinal o mercado das pontes está longe de estar saturado!

Perante tamanho frenesim, onde a oposição de imediato se quis colar à sublime iniciativa, ninguém parecia destoar. Apenas um deputado das filas mais discretas ousou levantar-se e timidamente questionou:

– Quer parecer-me, venerável Presidente, que de alguma forma vai ser difícil a construção de uma ponte em Burlães, uma vez que não temos por cá qualquer rio.

Eduardo que se lembrava de imagens nas américas onde algumas cidades tinham dezenas de pontes que ligavam as margens de rios inexistentes, canais secos decorados aqui e ali por escassos charcos, levantou-se e disse: faça-se a ponte que o rio logo Há de aparecer!

Esta frase ficou célebre. De imediato toda a assembleia se levantou e de pé ovacionou o visionário. Nos dias que se seguiram a frase “faça-se a ponte que o rio logo Há de aparecer” foi manchete de jornais e abertura de noticiários. A população alinhou pelo mesmo diapasão e a ponte era tema no café, nos jantares em família e sempre que alguém mais deprimido precisava de uma “ideia” que lhe alegrasse o espírito.

E tudo corria bem. Os terrenos do futuro edificado foram adquiridos a uma das empresas de Henga Nádia que, com uma notável visão empresarial, os tinha comprado meses antes. Os terrenos circundantes, também de outras empresas do grupo, iniciaram a planificação da sua urbanização. O negócio corria bem com empreendimentos satélites a florescerem e as consultoras financeiras e de advogados a arrecadarem o seu vistoso quinhão. A ponte, essa, ainda só era visível em planta e na deslumbrante maquete que a autarquia expunha na sede para gáudio de todos os Burlados. Todo o mundo estava satisfeito, só que a ponte nunca mais arrancava e os gastos não paravam de se acumular.

E se o rio nunca aparecesse? Questionavam-se alguns que começaram a pôr a bondade do empreendimento em causa quando confrontados com os encargos que se acumulavam. O falatório começou e alguns, ainda que em surdina, começaram a pôr em causa a lucidez do Presidente e a honestidade dos seus empreendimentos. Porém, no fundo, todos concordavam que se algo de errado existisse seguramente era resultado dos maus colaboradores.

E se este episódio iniciou o período de desconfianças, Henga Nádia acabou ela própria por ter um papel activo no “desnudar o complot”.

Eduardo já há algum tempo denotava algumas mudanças. Andava evasivo, tinha cuidado com a imagem. Tinha retomado as idas ao ginásio e nos momentos de lazer fazia-se deslocar num vistoso desportivo. Henga Nádia que de parva não tinha nada, soube ler os sinais e pôs-se atenta às entrelinhas. Eduardo, para além dos muitos casos, que ela sempre suspeitara, mas que nunca quisera confirmar, tinha agora algo de diferente, tinha de certeza um motivo para aquele inusitado despontar de juventude. E antes que ele pensasse que poderia trocar de sapatos com a mesma facilidade com que muda de meias, Henga Nádia teria de lhe fazer sentir que o tinha agarrado pelos “ditos ”. Não teve de se esforçar muito, pois eram habituais as inconfidências com um jornalista com que ela comprazia quando a tristeza se lhe assolava ou os apetites lhe davam na gana.

Os impérios é assim que caem, quase sempre por ambição desmedida ou assuntos de saias. De início o falatório era apenas um velado, um burburinho, mas com o passar do tempo o volume aumentou e a sonoridade tornou-se insustentável. Se meses antes o entusiasmo da ponte era a conversa no município, agora todos acusavam o tripleto de factos, muitos confirmados, mas muitos outros seguramente imaginados.

O incómodo era inegável. O ministério publico abria uma investigação, o Tribunal de Contas e a Inspeção geral de Finanças faziam uma auditoria às finanças da autarquia. Só que as semanas passavam, os meses sucediam-se e o processo continuava sem conclusão ou andamento.

Perante o impasse, o incómodo inicial foi-se desvanecendo. O que inicialmente era intolerável, passou para desconforto, depois ficou desagradável e por último, irrelevante. Se a justiça não tomava uma posição, também não seria o cidadão de Burlães, a substituir-se aos tribunais. À justiça o que é da justiça e à política o que é da política é uma máxima com duas faces.

Há no epílogo desta história algo de profundamente inquietante. Apesar de uma ficção ela retrata situações que conhecemos, casos em que a distância entre a ficção e a realidade é apenas de troca de alguns nomes.

Todos conhecemos casos em que há desfalque no erário mas apesar disso continuamos a “confiar” nos infratores, pois se estes ganham eleições é porque são merecedores. Confiamos num presidente de camara ou de um clube desportivo que desfalcou a sua instituição, confiamos e votamos nele. Porém se ele o tivesse feito a um de nós, o lesado de certeza que nunca mais lhe daria a sua confiança. Dizem muitos, confiamos porque fez obra! Será por isso?

Se a mesma pessoa que lhe roubou a bicicleta da garagem tivesse obra, tivesse por sido um benfeitor, voltaria a confiar? De certeza que não!

Então a diferença só poderá estar no objeto do furto, i.e., furtá-lo a si ou, como nesta ficção, furtar uma instituição. E creio que é aqui que a diferença se situa. As gerações mais novas, e de alguma forma o “zeitgeist” em que vivemos, caracteriza-se por um afastamento das instituições, sejam elas políticas, religiosas ou de outra natureza. A sociedade como que regrediu na sua capacidade de estabelecer uma malha social complexa e reage emocionalmente a um Dunbar, que agora por via das redes sociais, têm um denominador muito superior. Esta diluição das relações tem como consequência uma regressão e uma “simplificação” dos laços humanas. É por isso que” gostamos” ou não, pomos um “like” e, não mais pensamos no assunto.

Num mundo assim, que importa que alguém seja um crápula, se tem um sorriso que nos cativa e uma cara que nos recorda a inocência da infância? Fez asneiras? Que importa se tem obra feita? E se a não tem, arranjamos outra desculpa porque antes de a inventarmos já decidimos o sentido do voto!

Burlães aproxima-se de um novo ato eleitoral e o nosso “herói”, Eduardo concorre novamente para presidente da edilidade. A sua eleição vai perpetuar o ciclo ficcionado, mas tenho dúvidas na antevisão do veredito. O que faria o leitor se fosse um dos Burlados desta eleição?