Fechou-se a época das eleições autárquicas, abre-se agora a das presidenciais: o apertado e intenso ciclo iniciado com as legislativas – e com umas europeias de permeio – ficará assim concluído. Os meios de comunicação em geral lamentarão esse epílogo, já prevendo um regresso a uma normalidade noticiosa nem sempre – to say the least – excitante, a exigir-lhes um esforço de imaginação que permita manter a fidelidade dos seus leitores e ouvintes.
Pelo meu lado, e suponho que pelo menos igualmente por parte da maioria da geração dos baby boomers, confesso agradar-me o fim de um tempo de insistente espetacularidade e encenação, embora, faça-se justiça, também de alguns oportunos esclarecimentos e aprendizagem cívica. Mas para já, temos ainda diante de nós as presidenciais.
Estas eleições que se avizinham merecem pois, neste momento, a atenção de milhões de cidadãos-eleitores que deverão deixar na transparente urna a sua opção sobre quem melhor desempenhará, de Janeiro 2026 até Janeiro 2031, as funções de Chefe de Estado. O interesse que as mesmas despertam parece ser abundante, pelo menos no respeitante aos próprios candidatos ao mais prestigiado lugar na hierarquia política nacional: até ao momento, com efeito, apresentaram já publicamente a sua vontade em vir a exercer tal cargo, uma meia dúzia de portugueses sobretudo conhecidos pelas suas prestações parlamentares e/ou televisivas, e convencidos – todos eles – de possuírem as melhores condições para servir e engrandecer a nossa Pátria comum, Portugal.
Quanto ao que pensam as pessoas na rua sobre estes candidatos, ainda é prematuro opinar sobre o assunto , porque nomeadamente as entrevistas já feitas e transmitidas ao público foram tão somente uma apresentação das pessoas em liça, a procissão estando ainda no adro: dois meses separam-nos da data do evento, e vai ser a forma como se desenrolarão as respetivas campanhas – porventura acompanhadas de acrescentadas perspetivas pessoais sobre imprevistas circunstâncias internas ou externas a ocorrer ao longo deste período – a determinar a decisão final sobre o sentido do voto.
Uma coisa é certa: com maior ou menor peso de um eventual aparelho partidário no apoio a ser-lhes conferido, todas as candidaturas são, em qualquer circunstância, reveladas a título individual por cada um dos aspirantes que, assim, se colocam diante do eleitorado na qualidade de seu único interlocutor.
Reza a lei que o lugar de Presidente da República portuguesa é unipessoal, e os costumes ditam que o candidato deverá assumir uma postura suprapartidária, assim reforçando a imagem da sua preocupação em prover ao bem-estar e à segurança da população por inteiro, sem discriminações de qualquer tipo: esta situação é naturalmente indiferente para um/a ´independente` (dos aparelhos partidários), mas faz todo o sentido para a maioria dos restantes, conhecidos pela comprovada militância numa das existentes formações partidárias: nestes casos, assiste-se a um distanciamento – público e formal ou tácito – dessa experimentada militância.
Diante desta realidade, muitos dos eleitores têm presente a sua experiência pessoal no contexto de eleições homónimas clubísticas. Ora, neste âmbito, verificam-se semelhanças e diferenças que, como curiosidade, se assinalam: em vez do Cartão de Cidadão, é o Cartão de Sócio o documento fundamental e indispensável que autoriza o pretendente a avançar com a sua candidatura. Para um convicto ´encarnado`, por exemplo, que se revê na ´Nação Benfiquista`, é essa identificação particular, pessoalmente desejada e não apenas herdada ou naturalmente adquirida, que define e qualifica a sua pertença à «família benfiquista»: a fidelidade à instituição SLB constitui a condição sinequanon para exercer o seu direito de voto.
Outra prática que difere, mais substancialmente, do modelo usado e seguido nas presidenciais nacionais, radica no facto – pelo menos presente em alguns grandes clubes portugueses, como o campeão Sporting Clube de Portugal – de cada eleitor ter um número de votos correspondente à sua antiguidade: aqui, é a ideia que a experiência dos anos deverá ser realçada, já que se admite que garanta – na maior parte dos casos – um efetivo ganho de sabedoria, e daí resultar uma óbvia vantagem para o clube .
Não é líquido que haja acordo sobre a necessidade de mudar de orientação em nenhuma das contrastantes situações, e os cidadãos vão aceitando, com o mesmo à vontade, os dois sistemas. E olham com interesse a dinâmica que se vai desenvolvendo nesta nossa Europa no contexto eletivo, com experiências a nível local admitindo a adoção, pelo menos parcial, da escolha de pretendentes por meio de sorteio.
Seja como for, as Presidenciais só excecionalmente geram – mesmo na situação hoje praticamente inevitável da decisão final ser tomada na segunda volta – um qualquer excesso de adrenalina nos votantes: uma vez mais, é previsível que os cidadãos que acorrerão aos locais de votação o façam de forma disciplinada e pacífica: afinal, sempre é o Presidente de todos nós, inclusive dos membros e atletas do mais ínfimo clube nacional.
Uma última observação: todo o processo de enfrentamento de pessoas e projetos que agora se inaugura – sem esquecer o impacto das sondagens e estatísticas intermédias «cuja inexatidão dos números é (no entanto) compensada pela precisão das decimais», vide «Aux Sources de l`humour» de Alfred Sauvy – albergará , sem surpresa, debates e interpretações variadas sobre o status quo e o desejável e pertinente papel que ao Presidente compete desempenhar, e nesse âmbito poderão acontecer alguns confrontos de ordem pessoal : não surpreenderá, por isso, que venham a surgir, ali e acolá, virulentas troca de acusações , porque a sabida vivacidade de alguns intervenientes, por um lado, e em paralelo, a descoberta ou confirmação dos verdadeiros motivos por detrás de algumas ´falsas `candidaturas, apontam eloquentemente nessa direção.
Naturalmente, façamos votos para que não se ultrapassem as fronteiras do bom-senso e do respeito mútuo entre os participantes nesta efeméride: a Política e a Democracia deverão aproveitar o ensejo e reganhar o prestígio que têm infelizmente vindo a perder através da instalação no quotidiano das pessoas de um clima demasiadamente agressivo, gerado por permanentes ataques aos próprios agentes políticos e às instituições que sustentam precisamente a credibilidade e a estabilidade do Estado de Direito.