A discussão em torno do 25 de abril de 2020 nunca deveria ter acontecido, todos os intervenientes políticos relevantes e a população em geral concordam com a celebração da data. Tivesse o plano de comemorações sido pensado utilizando-se uma ferramenta básica chamada “senso comum” estaríamos perante um não-assunto. Porém, a classe política incumbente, encabeçada por Ferro Rodrigues na Assembleia da República, parece cada vez mais vezes dispensar o uso desse instrumento de raciocínio.

Se se tratasse só das comemorações do 25 de Abril de 2020 poderia remeter-se a discussão para a irrelevância dos “fait-divers”; no entanto, o mais preocupante não é o modelo da cerimónia decidido para este ano, mas antes os sinais para o presente e futuro que, com isto, foram trazidos à luz.

Uma primeira razão que se pode aventar para os incumbentes terem tratado a situação de forma tão irrazoável pode estar no facto de essa classe não se julgar e ver como comum; Ferro Rodrigues e outros concebem-se como uma elite, num nível distinto e separado de pensamento e ação do que é concedido ao mero cidadão. Mas, mais do que isso, é numa patologia específica que se pode encontrar o fundamento principal: o “daltonismo político”.

O daltonismo político não é uma condição nova nos seres humanos, acompanha-nos desde que nos começámos a organizar enquanto comunidade. Quando o daltonismo chega ao poder pode levar, no extremo, à imposição de modelos totalitários e inumanos de Estado e de sociedade. O 25 de abril de 1974 visou precisamente derrotar um desses modelos monocromáticos para Portugal. No entanto, o daltonismo não desapareceu, muitos ainda dele padeciam e padecem. Naqueles primeiros tempos da Revolução, alguns tentaram impor à sociedade a visão que o seu daltonismo ideológico lhes impunha. Felizmente não o lograram e prevaleceu quem defendia a completude de visão de um arco-íris de pluralismo político, definitivamente concretizada em 25 de novembro de 1975. Estabeleceu-se assim, em traços gerais, o modelo atual de Estado em que vivemos.

Mas os arcos-íris são por natureza inconstantes, não se podem tomar por garantidos. Num processo longo e insidioso foi surgindo e espalhando-se em Portugal uma degeneração desse daltonismo inicial e que é o daltonismo partidário.

Este daltonismo partidário aflige Ferro Rodrigues e uma boa parte dos incumbentes, na Assembleia da República e noutras posições políticas, determinando, portanto, muitas das ações e práticas políticas. A situação atual de pandemia veio agravar ainda mais a pulsão para este unanimismo de visão estreita, sendo este epifenómeno das comemorações uma demonstração disso mesmo.

Neste daltonismo vigente, a visão está limitada a um espectro que inclui tons de vermelho, rosa e laranja; nas franjas desse curto espectro, algumas cores limítrofes podem ser, por vezes, percecionadas, mas toda a restante paleta de luz visível não é reconhecida.

Sendo este daltonismo partidário, é ainda mais limitador porque não permite sequer ver lampejos em sentido contrário, mesmo dentro do seu espectro ideológico. Quando Vasco Lourenço e João Soares criticam o modelo destas comemorações e quando Jorge Sampaio e Cavaco Silva se recusam a participar no jogo de “roleta russa” que lhes propõem, nem aí se abre a visão dos daltónicos. Caso ainda mais grave e sintomático, os daltónicos decidem impor a presença de Joacine Katar Moreira na cerimónia, mas recusam que participe dela, lançando-a fora do espectro de visibilidade para a gama de raios infravermelhos.

Derivados de ou associados a este daltonismo que descrevi há um conjunto de sinais que nos deviam deixar preocupados. Refiro três que considero especialmente relevantes e que tiveram manifestações em episódios concretos desta novela de abril.

Primeiro, a imposição por via da arrogância. O daltonismo partidário tornou-se prevalecente na nossa classe política, levando os incumbentes a crer que a realidade é mesmo só essa que veem e como a veem. Não há espaço para questionar se haverá algo mais para além do que estão a ver. Quem fale sobre a existência de outras cores enfrenta incompreensão e, invariavelmente, negação e ataque. Ai de quem afirme que, de facto, o céu é azul; ou que, de facto, o modelo de comemorações de abril preparado para este ano não cumpre as regras e orientações estabelecidas para a generalidade da população e que há outras formas de celebrar. Para o daltónico, a pessoa que diz isso não vê a “realidade” e faz parte de um grande borrão de cinzentos que está, necessariamente, maculado pela “negritude” do fascismo.

Em segundo lugar, o fechamento elitista. Como já tive oportunidade de referir acima, é cada vez mais evidente que os incumbentes se veem como uma elite. Parte da explicação pode estar precisamente contida no daltonismo, já que, apercebendo-se que os outros não veem o mundo da mesma forma, chegam à conclusão de que só eles têm uma visão clara da realidade. Este processo tem sido progressivamente endogâmico, encapsulando os incumbentes numa bolha de “realidade alternativa” que é cada vez mais difícil de rebentar.

É por isso que, deste ponto de vista, quando se começaram a definir os detalhes de uma comemoração, não foi assumido que tinham de ser cumpridas as regras e orientações estabelecidas para a generalidade dos cidadãos. Nem os exemplos institucionais vindos de fora, como a Missa Pascal na Praça de São Pedro ou as cerimónias de memória do Holocausto na Alemanha convenceram Ferro e os seus. Quando as primeiras críticas surgiram, acabou-se por fazer uma reunião especial com a Direção Geral de Saúde para serenar ânimos e mantendo-se o modelo comemorativo praticamente igual. Houve, entretanto, a recusa categórica em usar máscaras. No entanto, cidadãos, empresas e outras instituições não têm direito à sua reunião com a D.G.S. para preparar as condições em que se podem despedir dos seus, realizar uma assembleia ou até fazer as suas próprias comemorações do 25 de Abril, por exemplo; nem estão isentados de usar máscaras comunitárias no seu dia-a-dia.

A resposta da elite às reações da sociedade foi de incompreensão e surpresa, escapando-se-lhes o essencial da crítica que lhes era dirigida: o problema não está no que se comemora ou na possibilidade de comemorá-lo; o problema está em criar-se um estado de exceção dentro do estado de exceção para o fazer.

Por último, mas não menos importante, a falta de imaginação. “A imaginação é mais importante que o conhecimento. Pois o conhecimento está limitado ao que sabemos e compreendemos, enquanto que a imaginação abarca o mundo inteiro, e tudo o que haverá para saber e compreender.” Esta frase de Albert Einstein, confrontada com a realidade de quase todos os nossos protagonistas políticos, deixa-nos constrangidos. A imaginação depende de abertura de mente, de procura de novos estímulos e da modéstia da curiosidade. Tudo o que os atuais incumbentes não conseguem exibir. Aliando essas incapacidades à estreiteza de visão conferida pelo daltonismo, entende-se que a única ideia que surgiu para celebrar Abril tenha sido o mesmo formato bafiento de sempre da “cerimónia institucional em Plenário”. É alarmante pensar que é a esta Assembleia da República e a este Governo que caberá pensar nas soluções que contrariem ou mitiguem os efeitos de uma crise nunca vista. Desprovidos de imaginação e limitados no espectro ideológico, temo que se preparem para conceber as mesmas medidas de sempre com os mesmos resultados de sempre.

Perante este cenário, que pode fazer um cidadão que ainda consegue ver todas a cores? Estaremos todos condenados a, como no romance de Saramago a que subtilmente aludo no título deste artigo, sermos a “mulher do médico” e assistirmos impotentes aos horrores que passarem diante dos nossos olhos? Penso que não e espero que não, enquanto houver oportunidade de participação política, nomeadamente fazendo oposição ao unanimismo daltónico, cabe a cada um de nós fazê-lo.