A imagem é absurda, mas real: bombeiros parados durante quatro ou cinco horas, à espera de ordens que nunca chegavam, enquanto a poucos quilómetros um incêndio lavrava descontrolado sem meios de combate. Foi o que revelou uma reportagem televisiva recente e é o espelho consequente de uma falha grave de coordenação que nos persegue há décadas: quando o país arde, o que falha não é apenas a meteorologia é, sobretudo, organização. Continuamos a enviar homens e mulheres para o terreno com coragem e generosidade de sobra, mas com menos ferramentas mínimas para garantir eficiência e segurança no combate aos fogos.

Contudo, o país não pode viver refém da sorte, da generosidade ou voluntarismo e, muito menos, da improvisação crónica. A tecnologia existe, está ao nosso alcance e até já é produzida em território nacional. A Tekever, por exemplo, já fabrica drones de longo alcance utilizados em missões militares internacionais. Adaptar esta capacidade à Proteção Civil seria um salto civilizacional. Com sensores infravermelhos e inteligência artificial, estes drones podem detectar focos de incêndio ainda de madrugada, mapear frentes de fogo em tempo real e localizar casas isoladas ou pessoas em perigo. O custo? Entre 500 mil e 1 milhão de euros por unidade. Uma frota de vinte drones, suficiente para cobrir o país, custaria entre 10 e 20 milhões de euros: menos do que reconstruir uma aldeia após um verão de chamas.

Mas não chega ver o fogo do ar. É preciso saber onde estão os bombeiros no terreno. Hoje, em pleno século XXI, não existe um sistema que permita acompanhar, em tempo real, a posição de cada operacional. A solução é simples: localizadores GPS individuais, semelhantes a um AirTag, mais robustos, com rede móvel e wifi e um botão de pânico. Um dispositivo destes custa cerca de 100 euros. Para 30 mil bombeiros, o investimento total seria de 3 milhões de euros. Menos do que gastamos anualmente em campanhas de sensibilização que pouco mudam. A manutenção, cerca de 20 euros por ano por dispositivo, custaria menos do que um café por mês por bombeiro.

Claro que sem rede nada disto funciona. Grande parte das nossas zonas florestais continua às escuras, invisível para os mapas das telecomunicações. Aqui, não há milagres: é preciso financiar as operadoras móveis, com fundos públicos e europeus, para garantir cobertura nacional. Um investimento entre 50 e 70 milhões de euros, semelhante ao que outros países da União já fizeram, e que teria impacto muito para além dos incêndios: turismo, agricultura e populações locais.

A quarta peça deste puzzle é a inteligência artificial. Com dados vindos de drones, GPS, satélite, meteorologia e históricos de incêndios, é possível prever necessidades, prever onde reforçar meios e evitar falhas de coordenação. Um sistema nacional de IA custaria cerca de 5 milhões de euros a desenvolver, com manutenção anual de 1 milhão. É pouco, se compararmos com o preço em vidas e hectares queimados de um verão como 2017.

Somados todos estes investimentos – drones, localizadores, cobertura de rede e inteligência artificial – falamos de 80 a 100 milhões de euros. Um valor que corresponde, grosso modo, ao custo de um único verão trágico em Portugal. A pergunta é simples: queremos continuar a gastar fortunas a reconstruir o que o fogo destrói ou queremos investir na prevenção e na coordenação?