Lisboa foi sempre cidade de contrastes. Nas páginas de Eça de Queirós denunciava-se já a hipocrisia, o atraso e as desigualdades de um país que tropeçava no seu próprio destino. Antero de Quental, com a sua inquietação filosófica, pedia uma regeneração moral e política. Passaram mais de cem anos, mas ao caminhar hoje pelas ruas da capital, sinto que as suas palavras poderiam ter sido escritas ontem.

Tenho 19 anos e todos os dias viajo para Lisboa para frequentar a universidade. A cidade recebe-me com uma luz única, que parece capaz de apagar todas as sombras, mas basta andar alguns metros para perceber que essa beleza convive com um caos crescente: ruas sujas, lixo acumulado, prédios degradados, trânsito sufocante e, cada vez mais, os ratos, não os metafóricos de Eça, mas os reais, que atravessam os passeios como se fossem habitantes oficiais da capital.

Lisboa deixou de ser a cidade onde me sinto completamente segura a andar sozinha. É triste ter de calcular rotas, evitar certas ruas, desconfiar de cantos e becos. Uma capital que devia ser de todos, torna-se, muitas vezes, desconfortável e excludente, mesmo para os que a amam e nela vivem.

A Lisboa antiga era a das praças cheias de vida, dos cafés onde se discutia literatura e política, dos bairros de vizinhança sólida. O Elevador da Glória, inaugurado no século XIX, simbolizava essa ligação entre o quotidiano e o encanto, mas  em setembro de 2025, tornou-se símbolo de tragédia: um cabo de segurança que cedeu, carruagens que descarrilaram, 16 mortos, dezenas de feridos. Aquilo que era postal turístico revelou-se frágil e mortífero. Foi o retrato mais duro do que tantas vezes esquecemos. Lisboa não é só luz; também falha, e falha com consequências irreparáveis.

Globalizada, Lisboa ganhou movimento, diversidade, projecção internacional, mas perdeu autenticidade, perdeu moradores, perdeu alma. Os preços da habitação afastam famílias, os transportes públicos não respondem às necessidades, os espaços verdes são escassos para uma cidade que tanto precisa de respirar. Investe-se em hotéis e eventos internacionais, mas adiam-se reformas estruturais,tais  como: saneamento, mobilidade, habitação acessível, segurança urbana.

Se Eça ou Antero ressuscitassem por um dia, talvez um escrevesse com ironia amarga, a cidade-turismo que expulsa quem nela vive, enquanto o outro se indignaria com a ausência de uma política capaz de pôr o bem-estar humano no centro. Provavelmente, ambos concluiriam que Lisboa continua a viver entre o esplendor das fachadas e o vazio das soluções.

Não falo apenas com o peso da literatura passada. Falo enquanto  uma jovem, que todos os dias caminha pela cidade com esperança, mas também com a exigência de quem quer um futuro melhor. A minha geração não se satisfaz com uma Lisboa que serve de cenário, mas falha no essencial. Queremos uma cidade limpa, acessível e humana. Uma cidade que pertença a quem nela vive, não apenas a quem nela passa.

Lisboa tem luz suficiente para se reinventar. E eu acredito que a minha geração pode acender essa luz. Podemos ser a mão que segura o cabo de segurança da cidade, que evita novos descarrilamentos, que devolve segurança, beleza e vida às ruas. Lisboa não precisa apenas de ser vista; precisa de ser vivida. Precisa de ser amada, cuidada e transformada por todos aqueles que nela acreditam. E é assim, com o coração jovem, exigente e desperto, que acredito que Lisboa pode,  e deve, ser a cidade que sempre sonhámos.

“Lisboa, tu és a cidade que me habita, e que não posso abandonar.” — Fernando Pessoa.