É difícil encontrar um café em Lisboa onde me sinta confortável a ler. A maioria dos espaços transmitem uma espécie de urgência que é contrária à ideia de leitura. A propósito, li há uns dias uma notícia que dava conta de que certos cafés aumentam os preços consoante o tempo que ali permaneces. Acontece em Espanha, mas há-de chegar cá. Se levares, por exemplo, A Montanha Mágica, estás tramado. Assim que o empregado vê a tote bag e o nome Thomas Mann a espreitar, o cronómetro começa a contar. Imagino um preçário mutável, que muda consoante a obra:

— A Piada Infinita? Vai sair-lhe caro.

— E um conto da Clarice, pode?

— Se for mesmo só um.

Recentemente, desenvolvi uma teoria (ou uma conspiração) de que há cafés que implementaram uma nova técnica: sempre que percebem que alguém está ali há demasiado tempo, soltam uma varejeira, que tinham guardada algures, com o intuito de atormentar o leitor. A vítima, cansada de ouvir o zumbido, pega nas suas coisas e vai embora. Aconteceu-me duas ou três vezes, logo deve ser verdade.

Em A Náusea, de Sartre, há uma descrição que me parece resumir bem o que podia ser o café ideal: “Tudo parece normal nos cafés, particularmente no Mably, por causa do dono, o sr. Fasquelle, que tem um ar despreocupado e reconfortante. Está quase na hora da sua sesta e os seus olhos estão avermelhados. (…) Quando está sozinho, dorme.” Neste cenário, o leitor é o melhor amigo do dono do café, pois não o chateia. No entanto, a sesta foi substituída pelos sugadores de iced coffee (atenção!, não é com gelo, é iced), matcha, avocadotoastecookies. Talvez estejas a ir aos lugares errados, pode alguém dizer. Mas onde ficam os certos?

Há uns anos, pensava ter descoberto um espaço quase perfeito, situado na zona da Baixa, que contrastava com o caos dos Armazéns, embora se localizasse muito perto. Era fresco, uma boa opção em dias infernais, e não havia rede. Os preços eram aceitáveis e nunca encontrava ali muita gente. Houve um dia em que fechou para dar lugar a um restaurante de tapas (fazia tanta falta a Lisboa).

Enquanto não encontrar o sítio certo, continuarei a fazer a pergunta que Juarroz fez:

“Porque estamos aqui?
Este não é o nosso lugar
Haverá um lugar para nós
em algum outro sítio?”

Quando a resposta for “sim”, é certo que voltarei.