As doenças cérebro-cardiovasculares continuam a causar mais mortes e incapacidades do que outras doenças, como o cancro.
Porquê?
E a pergunta repete-se: porquê, quando sabemos hoje que 80% destas doenças podem ser prevenidas e tratadas?
A maior esperança de vida que temos em Portugal e em grande número dos países do mundo ocidental tem como consequência inevitável termos de lidar com um maior número de doentes (ou sobreviventes) em risco de vir a ter um AVC, enfarte agudo do miocárdio ou insuficiência cardíaca. A insuficiência cardíaca, que já foi denominada pela Organização Mundial de Saúde como a nova “epidemia do século XXI”.
Consequência inevitável? Não, se colocarmos socialmente a saúde cardiovascular no centro das políticas de saúde e do clima.
Os problemas mais complexos na maior parte das vezes têm respostas simples…
Propostas muito práticas e eficazes
- Promover na comunidade o acesso a opções de nutrição saudável, ar e água limpos e espaços recreativos para a prática de exercício físico;
- Implementar a nível nacional campanhas de sensibilização divulgando os meios de diagnóstico e tratamento existentes e opções de vida saudáveis;
- Garantir o acesso a tratamentos com ganhos cientificamente validados em sobrevivência e qualidade de vida;
- Implementar uma política de restrições e impostos sobre produtos que sabemos serem prejudiciais (por exemplo, tabaco e bebidas açucaradas) e facilitar, simultaneamente, o acesso a alimentos nutritivos e práticas de exercício regulares;
- Utilizar as novas ferramentas digitais baseadas em dispositivos de uso corrente (pulseiras, anéis, relógios, telemóveis, etc.) como novas oportunidades de orientação e educação, potenciando a comunicação com os profissionais de saúde e aumentando a confiança dos doentes na autogestão da sua saúde;
- Utilizar os meios de comunicação social (incluindo as redes sociais) para divulgar conhecimentos sobre o desenvolvimento de novos procedimentos diagnósticos e terapêuticos que sabemos terem impacto verdadeiramente positivo sobre as doenças cérebro-cardiovasculares.
Sensibilizar, informar, educar, treinar são paradigmas de uma nova forma de intervenção que tem como objetivo último capacitar o doente para gerir melhor a sua saúde e doença. Cidadãos melhor informados serão necessariamente cidadãos mais capazes de tomar decisões corretas.
Trata-se de uma tarefa global que envolve governo, sociedade civil, profissionais de saúde, indústria farmacêutica e de dispositivos médicos e todos os cidadãos numa rede multidisciplinar orientada para criar e dar valor a linhas de ação que modifiquem, a curto prazo, atitudes e comportamentos relacionados com a gestão das doenças cérebro-cardiovasculares.
Na doença estabelecida, a implementação de percursos clínicos integrados para patologias específicas, no âmbito das unidades locais de saúde, como seja o doente com insuficiência cardíaca, permite ganhos demonstrados em eficiência, redução de custos, satisfação dos profissionais de saúde e melhoria da qualidade de vida dos doentes. O objetivo é promover a eficiência da articulação no percurso do doente entre cuidados de saúde primários e hospitalares com novas respostas, como sejam o recurso ao Hospital de Dia, a monitorização remota no domicílio ou a hospitalização domiciliária.
Neste desafio global, não deve ser esquecido o papel fundamental que as organizações de doentes e de profissionais de saúde desempenham na sociedade civil desde há muitos anos. É justo destacar a Fundação Portuguesa de Cardiologia que, há mais de 40 anos, intervém diariamente, 365 dias por ano, junto dos portugueses, sensibilizando, divulgando, educando para o conhecimento e para as melhores boas práticas da prevenção, do diagnóstico e do tratamento das doenças cérebro-cardiovasculares.
Carlos Morais é diretor do Serviço de Cardiologia do Hospital Fernando Fonseca e vice-presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia. Docente convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, da Universidade Católica de Lisboa, da BizzSchool e da Escola Superior de Enfermagem de Lisboa. É um dos cronistas convidados do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.
Antes de sair, temos três perguntas relacionadas com o artigo que acabou de ler. É um mini-questionário muito rápido e totalmente anónimo.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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