A mais recente polémica sobre ter ou não ter público nos estádios provocou em mim várias dúvidas (e algumas certezas) existenciais. Os adeptos do “sim ao público” utilizam como argumento principal a vitimização em relação a outras áreas onde o público é permitido (touradas, espetáculos de música, humor e televisão). Eu, que, por outras razões, sou a favor do regresso aos estádios ligeiramente mais compostos, não posso concordar com o argumento principal. É incoerente e falacioso. Se olharmos com atenção para algumas das pessoas que assinaram o manifesto, ou que criticaram o governo e a DGS por tratarem o futebol de maneira diferente, são as mesmas que contribuíram para que ele seja olhado como um miúdo delinquente que se porta mal e que tem um lugar especial na turma. É por essa razão que pergunto se somos ou não diferentes, se queremos ou não queremos ser um oásis no meio de um vasto oceano e se a nossa imagem é ou não é a de um cão enjeitado da ninhada. Se queremos ser especiais, deixemos que nos tratem como tal; se queremos ser iguais, comportemo-nos dignamente para que nos possam olhar com igualdade e equidade. E deixem-me já que vos diga, é possível ser igual em umas coisas e diferente noutras. Temos é de ser justos com aqueles que nos avaliam para não fazermos uma birra injustificada. Para não ser irrazoável no meu raciocínio (até porque o problema não é apenas o ato comportamental nos estádios), enunciarei agora um conjunto de razões que demonstram bem o pedestal onde nós, os próprios agentes que atuam no meio do futebol, nos colocámos diante de toda a sociedade:

Comportamento nos estádios e eventos desportivos

Lembram-se daquele dia fatídico no Tivoli em que os espetadores desataram todos à pancada após um espetáculo de comédia? É natural que não. Nunca aconteceu, e a probabilidade de acontecer é extremamente reduzida. Ao contrário do futebol. Já aconteceu, e é provável que aconteça muito mais vezes. Por isso, por culpa própria, usar o argumento de que somos iguais ao resto da cultura, neste caso, não é o mais indicado. Todos nós sentimos, e sabemos que é errado, que nem sempre temos as mesmas condições para ter aquilo que os outros têm. E, neste caso, a inveja é ingénua e desproporcionada. Refiro apenas que esta é uma boa oportunidade para que haja uma mudança de paradigma na atitude dos clubes, das federações e do governo em relação a este assunto. Dispõem de mais meios e mais condições para serem exemplares. Resumindo, estamos no pedestal por culpa própria.

O futebol não pode estar separado do mundo

A curva evolutiva está em mutação positiva, devido à quantidade de exemplos de treinadores e outros agentes que vão tendo a coragem de refrescar o meio ambiente. Mas o futebol continua a viver numa cela enclausurada e virado para si mesmo. E isso tem de mudar. O mundo evolui a uma escala global, a geração Erasmus começa a colher os seus frutos e a cultura e a educação são cada vez mais acessíveis. Infelizmente, no futebol em Portugal, continuamos a desvalorizar essa lógica darwiniana. O discurso é este: o futebol é só para pessoas do futebol (porque é uma ciência oculta), um treinador só existe para treinar, um jogador só existe para jogar e um presidente que não completou o sexto ano, desde que ganhe (não interessa como), é uma circunstância normal. E pior, é uma circunstância valorizada. O futebol atingiu níveis de popularidade fora do comum, tem meios financeiros acima da média e causa um impacto relevante na economia. Por essa razão, é-lhe pedido mais, é-lhe pedido que se cultive e abrace o mundo contemporâneo. Ao advogado pede-se que perceba de política, que leia, que entenda o mundo e que seja culto. O treinador, que lida com milhares de culturas numa equipa, que é um exemplo para imensos miúdos e graúdos que olham para ele como uma referência de vida, nem sequer tem de falar inglês. Relembro que estamos no século XXI. Ou seja, a sociedade desenvolve-se, forma-se, adapta-se ao século XXI e o futebol, em muitos casos, continua envolvido pela sua própria pequenez. Resumindo, estamos no pedestal por culpa própria.

IVA, orçamento de estado e peso social. Nem tudo é mau.

Em 2018, a Liga Portugal criticou o governo por ter deixado o futebol de fora na lista de espetáculos ao vivo que tiveram uma redução no IVA de 23% para 6%. É legítima a intenção de baixar este imposto e talvez a discrepância seja exagerada. Mas não terá um clube de futebol mais condições para que lhe seja tributado um valor mais elevado?

Mas nem todas as razões para estarmos num pedestal são negativas. Por exemplo, em 2019, as ligas profissionais foram responsáveis por faturar 549 milhões de euros para o PIB nacional e por criarem 2621 postos de trabalho. E há mais, os clubes em Portugal faturam, em vendas de jogadores, quantias que em outras áreas seria impossível de alcançar. O PIB só tem de agradecer. Já para não falar no papel pesado que, através dos seus valores intrínsecos, pode desempenhar na sociedade. Resumindo, também estamos no pedestal por mérito próprio.

Tudo isto que escrevo revela o caminho longo e penoso que todos nós, pessoas do futebol, em algumas matérias, temos de percorrer. Tudo isto que digo revela também que temos muito para dar ao mundo. Nas matérias em que somos excepcionais (pelas boas razões, claro), sejamos excepcionais, com comportamentos excepcionais e com medidas excepcionais. Nas matérias nas quais nos devemos incluir, não tenhamos receio de estar nivelados com os outros.

Apenas peço para não continuarem com a conversa que o futebol quer ser, em tudo, igual ao resto da cultura, quando, por outro lado, se fecha e isola do mundo, padecendo da síndrome do filho mais novo. Não somos iguais, não seremos iguais, e ainda bem. Desde que a diferença não seja um pretexto para a auto-discriminação.