28th May 2020

Já cá canto em St Andrews, vindo do Porto! Imagine que o Old Course vai abrir amanhã. Estou com tais ganas de jogar golf que telefonei ao Rollo e marcámos sair às 7.03 da amanhã. Ele é agente imobiliário, e aproveitou logo para me dizer que tinha três valentes propostas para a compra desta minha casa. Sabe uma coisa? Eu tenho resistido, mas gosto tanto do Porto, do Douro, e ando numa aprendizagem tão aturada da língua que vou pensar melhor onde quero ficar a viver…

Uma das coisas que mais aprecio nos tripeiros é “contas à moda do Porto”, que batem sempre certo e cada um paga o seu.

Também gosto do Mayor (Mr Moreira, o tal que encontrei no Molhe e meteu conversa comigo, se calhar por que tenho pinta de beef, como eles dizem). Antes de vir para St Andrews fui ver as contas da Câmara. Ao contrário do País em geral, este herói fechou 2019 com um saldo de €100 milhões, a não dever nada a ninguém, isto depois de executar quase 85% do que tinha programado, o que é obra. Eu sei que você é um capitalista de gema, mas foge-lhe muito para a chinela o seu passado Baader-Meinhof, aqueles loucos com que se meteu nos seus tempos da Universidade de Heidelberg. Gente dessa, avermelhada, preferem endividar-se aos milhões para depois serem os filhos e netos a pagar, e eles a viver felizes com riqueza que não criaram! No Porto e no norte de Portugal isso é impossível, gosto!

Sabe? Para os encarnados, os que criam riqueza e lucro são criminosos. Sabe por que é que essa gente de que o Hans gostava (!) perde sempre eleições no Porto e norte da Lusitânia? Primeiro, por que o Terreiro do Paço deixam-no lá estar bem longe. Depois trabalham que se desunham, são empreendedores até à medula, têm o sentido do risco e são inovadores. Na adorada Lisboa do Hans, há uma gente — pouca felizmente — à sua antiga moda, que querem acabar com os lucros, o que leva os empresários a desinteressarem-se e desinvestirem, e até deixar de ter de pagar impostos pois os lucros foram à viola. Para ir reencontrar esses dinheiros que secaram, o Estado vai cobrar ainda mais impostos aos outros portuguesinhos. Um vórtice suicida, é o que esses sado-masoquistas querem. No Norte não há disso. Você arrependeu-se a tempo: desbloqueou e enriquece tudo por onde passa, o Homem Woschiems, ao estilo do Homem Sonae!

Antes de sair do Porto aqui para St Andrews aproveitei a libertação da jaula e fui matar saudades à nossa zona mais esplendorosa da Lusitânia que é o Alto Douro! O vício que partilhamos pelos vinhos deste vale que mais parece o paraíso, é que me levou como um fuso à Quinta do Seixo (um jardim desse nosso venerado Shangri La!)  para ver se encontrava lá alguém que me desse a provar in loco, e me contasse a fábula de um vinho notável que sim, provei, e que lhe recomendo vivamente, Tinta Francisca 2015, da Casa Ferreirinha. Não entro na qualidade da pinga, superlativa. Por que já sobra muito pouco daquela jóia, reservei uma caixa para si. Eu sei que o Hans está sempre a falar do Riesling, do Gewürztraminer, do Spätburgunder, as suas nobres e germanas castas. Mas o que vale a pena perceber é que esta casta Tinta Francisca depois de uma via crucis, desapareceu, e foi ressuscitada na Quinta de S. Pedro, que com ela fazia vinhos imbatíveis, Fernando Nicolau da Almeida, o Pai do incomparável Barca Velha, dixit! Foi trazida para esta lindíssima Quinta do Seixo, onde medrou. Sabe por que me excedo e uso a palavra jóia? Por que aquilo da Tinta Francisca é uma revolução. Quando a casta começar a ser mais usada e devidamente blended nos tintos e nos ports do nosso vale mágico, o Hans espere pela surpresa! Uma saúde à Ferreirinha, faz favor!

Hoje o meu coração ficou dividido. Uma destilaria de single malt Whisky, a Talisker, criou um whisky de topo em homenagem a Port Ruighe, que é a antiga ortografia em galês da cidade de Portree, a principal da Ilha de Skye. Quiseram registar a marca, mas o Instituto do Vinho do Porto e do Douro tossiu e, dado que os nomes “Port” e “Porto” estão protegidos pela legislação de marcas e patentes da UE, nós ecoceses levamos com o chiça, pois a nossa marca podia confundir os clientes, e tirar indevido partido da reputação universal do Vinho do Porto, Port Wine. Mas se o Hans for à net, ou à Garrafeira Nacional, consegue comprar uma garrafa de Talisker Port Ruighe por €64. Qual será a eficácia desta sentença? Olhe, a gente da Talisker teve de pagar uma multa de apenas 1.700 libras ao IVDP, ou seja, nada. Suspeito que vou continuar a beber aquela delícia de whisky chamado Port!

Pois vim encontrar a cidade de St Andrews, com menos de metade das gentes. Só cá estão os locais, uns 14.000. Esta terra, entre estudantes (normalmente são uns 10.000) e golfistas vindos diariamente de fora, conta em média com 30.000 almas! Um apocalipse! Uma razia! A beleza daqui resplandece, mas com tom diabólico. Até quando?

I miss your company on the golf course! With a hug

30 de Maio 2020

Peco por inveja: você já conseguiu jogar golf, ao fim deste tempo todo, nessa coisa única no globo terrestre que é o Old Course., aí em St Andrews, um altar!

O William nunca perde pitada para beliscar as loucuras anarco-marxistas da minha juventude. O que vale é que são poucos e desiluminados os militantes desses irreal-idealistas. Claro que há na Lusitânia gente dessa, de meter medo ao pavor, parecem saídos de um livro de fantasmas, tais os personagens galâmbicos, disfarçados com vestes rosadas, que deviam na verdade ser de cor viva, nem parecem nascidos na nossa terra prometida! Dizem que não gostam da generosidade para com o próximo! Estão desfasados pois essa é uma virtude em que os admiráveis lusitanos se excedem, pois quanto mais modestos mais ajudam os que precisam nesta onda/tsunami de novos pobres que os assola.

Olhe, lá na Woschiems AG da Pucariça, como na Fábrica de Vila Franca das Naves, como é tudo gente do melhor, ninguém bloqueia nada. E como os sindicatos que lá temos são independentes, e já nada têm a ver com os de antigamente, representam os interesses dos nossos empregados com galhardia, e conseguem tudo o que querem, num ambiente pacífico. Até fizeram um grupo bem grande para dar ao Banco Alimentar na campanha online que está a decorrer, tão necessária!. Esse espírito faz com que a Woschiems PT contribua com excelentes lucros para o grupo Woschiems, e pague impostos em Portugal, que são o que são, mas altíssimos.

Nas nossas duas fábricas IT temos portugueses fugidos ao demente do Maduro, que perderam tudo, mas a quem é fácil recomeçar a vida pois são trabalhadores como nenhuns. Na Venezuela há 400.000 venezuelanos de ascendência lusitana, e até o castelhano que lá se fala tem centenas de aportuguesamentos. Aquilo deixou de interessar à Woschiems AG, mas estamos a trazer de lá quantos lusitanos encontramos para refazerem a vida numa das nossas 111 fábricas espalhadas pelo mundo. Sabe o que aconteceu àquela desgraça que tem uma das maiores reservas petrolíferas do mundo? Eles exportavam 100 biliões de US$ por ano. Adivinhe quanto vai ser essa receita em 2020: 4 biliões, ou seja 4% do que era há tão pouco tempo… As bênçãos do socialismo ao que levam!

Agora vou-lhe dizer por que vou ter de ir a Tokyo. O nosso amigo e parceiro de golf Herb Kohler que comprou aquela maravilha chamada Hamilton Hall por trás do Royal & Ancient aí em St Andrews, e onde enterrei uns dinheiros num pied à terre que alugo com facilidade nos longos períodos em que não o visito, convenceu-me a investir no Japão em loiça sanitária inteligente, um bom conselho! Não admira, não há retrete ou mictório na América que não seja da marca Kohler! Mas no Japão a inteligência do trono refinou, e a nossa fábrica Woschiems Japan, não só vai de vento em popa, como ganhou a lotaria. Sabe-se lá por que bulas (mais uma expressão que aprendi há pouco!) houve uma compra em pânico de sanitas, de retretes, de mictórios, nem sei como dizer em lusitano. Os construtores acharam que, por causa das paragens do CV19, não podiam acabar milhares de prédios em construção com sanitas como deve ser, e vai daí compraram tudo!

Os japoneses adoram sanitas inteligentes, que levantam ou baixam a tampa mal a gente se aproxima, aquecem ou arrefecem o traseiro, lavam-no ao fim do serviço, e também nessa altura deitam cheirinho que elimina o outro. A Toto, que é a marca mais conhecida e o nosso maior concorrente, fechou as fábricas, e os clientes viraram-se para a Woschiems Japan AG e aquilo nunca vendeu tanto, nos 25 anos que tem de existência! Os rios correm para o mar, foi um ditado que aprendi na Pucariça. Os três maiores bancos japoneses, Got sei dank, não foi por causa da Woschiems que tiveram de fazer provisões do equivalente a €10.000 milhões (não digo em yens, pois são zeros a nunca acabar)  para tapar buracões com os devedores.

Naquela correria lusitana de há duas semanas, tive a oportunidade de dar à Costa lá na Calçada da Estrela, um tipo simpático para quem tudo está na maior. Ali em S. Bento parecem fazer de conta que não percebem que os chineses andam a falar com os europeus como uma arrogância como se a UE e os lusitanos fossem lixo. Ao que chega aquela ambição comunista! Parece que se regressa aos infernos da foice e martelo universais…, mas desta vez não é com goulags e extermínios maciços, como da última vez em que liquidaram nada menos que 60 milhões de almas, ou mais. Agora rugem e andam com o livro de cheques com triliões de US$ fresquinhos e disponíveis sem limite, mas só para quem se ponha em sentido perante o que eles querem… Assustam.

E eu metido com aquela gente na energia, caro William, quem diria. Mas olhe: dizem que o dinheiro é cego: mas o deles é com um olho aberto, e de lince, oh se é! O meu, já nem sei….

Sehr freundlische abraços,

Palavras Cruzadas é o título de uma série de cartas íntimas trocadas entre dois amigos. Um é alemão (Hans Hoffmann), residente em Krefeld, perto de Dusseldorf, e outro escocês (William Archibald), residente em St Andrews, na Escócia, mas ambos com casa em Portugal, país que os apaixonou. A correspondência tende a revelar um Portugal e um mundo vistos por Hoffmann na perspectiva da floresta, mas mais como árvore nas cartas de Archibald. Misturam nessa correspondência acontecimentos políticos, sociais culturais e económicos tanto portugueses como internacionais, revelando o seu cosmopolitismo. Usam de ocasional ironia em factos por vezes semi-ficcionados.