Mais do que a política interna, é a geopolítica, ou, se quisermos, as Relações Internacionais, que se prestam à maior margem de erro diante do que Reinhart Koselleck chamou de períodos ou tempos de aceleração histórica. Diante de mudanças abruptas, a análise com base em factos conhecidos pode tender para a espuma dos dias, e menos para as águas profundas.

Este cenário de margens de erro é agravado diante da mudança de paradigma, em que, situados na Europa, tendemos a olhar para os acontecimentos com a lente kantiana da sociedade das nações, imbuída de valores jusnaturalistas racionais, materializados nos direitos humanos e nas normas jus cogens. O problema é que, num piscar de olhos, esse paradigma foi abalado sobre os escombros do leste ucraniano e pelo redesenho em marcha da geopolítica atual, tornado mais explícito com a captura de Nicolás Maduro no início de janeiro de 2026.

Numa primeira camada de análise, evidencia-se que a captura do ditador venezuelano –  assumida sem grande pudor político pela própria administração –  teve, entre outros objetivos,  aceder aos recursos naturais do país, nomeadamente o petróleo, mas também outras riquezas como o ouro.

Mas essa é apenas uma primeira camada, que fica na espuma dos dias. A segunda diz respeito à recuperação da Doutrina Monroe e do Corolário Roosevelt, em que a América Latina surge como zona de influência (o tal “quintal”) americana, afastando outras influências externas, no caso, a China e a Rússia, cujas relações com a Venezuela e outros países, como Cuba, são vistas como uma ameaça política e económica por parte dos Estados Unidos. Este ressurgimento da lógica esferocêntrica, típica da Guerra Fria, sugere que a política externa norte-americana está menos preocupada com a liberalização democrática e mais focada em conter rivais estratégicos.

E é aqui que entramos na terceira camada e, consequentemente, no caso da Gronelândia. Este fio contínuo que vai mergulhando mais fundo nas águas geopolíticas leva-nos a encontrar um realismo estratégico nas ações norte-americanas onde, à primeira vista, não o vemos ou o qual nos repulsa por atentar contra os valores e consensos que fundaram a ordem internacional das Nações Unidas e da NATO.

Ora, à margem das intenções negociais de Trump, parece, então, haver um racional geopolítico que passa pelo reconhecimento de que o crescimento económico chinês tem uma dimensão imperial cada vez menos disfarçada de fazer do país a maior potência mundial. É por isso que afastar a China dos países do Médio Oriente, onde tem peso tecnológico, através de empresas como a Huawei (redes, dados, infraestruturas digitais), e da América Latina, já referida, é uma prioridade estratégica para a Casa Branca, à qual se poderá juntar a questão africana, continente onde a China tem uma presença determinante.

É aqui que a Gronelândia desempenha um papel estratégico para a administração Trump. Se, para Donald Trump, a Gronelândia é atrativa pelos minerais críticos, petróleo e gás natural, do ponto de vista estratégico, é uma localização vital na interpretação da segurança alargada americana, diante do reforço agressivo militar russo no Ártico, que considera a região, igualmente, zona vital para a sua estratégia nacional e desenvolvimento económico. E é também por isso que a discussão sobre “comprar” a Gronelândia voltou ao centro do discurso político em Washington.

Adicionalmente, o degelo está a tornar a Rota do Mar do Norte navegável por períodos mais longos. Consequentemente, a Rússia e a China estão a cooperar no desenvolvimento desta rota, que encurta significativamente o tempo de viagem entre a Ásia e a Europa, contornando o Canal do Suez (em certos trajetos, pode encurtar a distância de forma muito relevante). O projeto russo de criar um “Suez Ártico”, com apoio logístico chinês, reconfigura o valor geoestratégico do Ártico e torna a sua militarização mais provável.

Dessa forma, na perspetiva americana, a Gronelândia afirma-se como um corredor fundamental para monitorizar os movimentos de submarinos e navios russos que entram no Atlântico Norte, donde a lógica do “estrangulamento” marítimo do GIUK (Greenland–Iceland–UK) continua a contar. Assim, a presença norte-americana em Pituffik (antiga Thule) dá a esta ilha um peso militar que a Europa tende a subestimar.

Ora, com os EUA a ampliarem o big stick de Roosevelt para um “Corolário Trump”, a Dinamarca e a Europa encontram-se apertadas. Se Trump diz que pode tomar controlo da Gronelândia, ele pondera fazê-lo. Mas essa será, creio, a última opção. Como homem transacional equaciona o controlo do território, não diretamente junto da Dinamarca, por autonomia política da Gronelândia, mas através de uma campanha que conduza a população daquele território a requerer um referendo de independência, algo que não é impensável no quadro do seu autogoverno, por meio de uma “proposta irrecusável” aos cidadãos (um ou dois milhões de dólares per capita), “adquirindo-a”, assim, indiretamente, juntando a promessa de um estatuto político-militar equiparado às Ilhas Marshall, aos Estados Federados da Micronésia ou ao Palau, estados soberanos no Pacífico que delegaram a sua defesa total aos EUA. Este modelo de soberania limitada – em que o Estado mantém aparência formal de independência, mas transfere funções estratégicas cruciais – tem precedentes que ilustram bem a visão instrumental que Washington pode aplicar à Gronelândia.

Para acalmar a Europa, Donald Trump poderá garantir o seu compromisso com a NATO e o artigo 5.º, justificando a pressão na Gronelândia como uma combinação entre decisão soberana da sua população e necessidades superiores de defesa norte-americana numa nova era de agressividade tripolar.

Tal deixa a Europa meio “descansada”, mas moralmente derrotada, mesmo sabendo estar do lado certo da história. E como fica a situação da Ucrânia? E como ficará Taiwan? E o que se seguirá para o Canadá, a Coreia do Sul ou até a Austrália? No novo redesenho imperial ao estilo do século XIX, não há territórios seguros, porque, em última análise, o Direito Internacional Público sempre esteve atrelado a dois princípios: o poder de o impor e a vontade de lhe aderir.