Uma das críticas mais legítimas que se pode fazer à esquerda cultural internacional é o lugar desproporcional que a “causa palestiniana” ocupa no seu imaginário político. Com efeito, ser de “esquerda” — especialmente no quadro daquilo que chamo de esquerda imaterial, centrada nas lutas de identidade, reconhecimento e emancipação simbólica — parece exigir, em certos meios militantes, a adoção da gramática de uma “Palestina do rio ao mar”, expressão que, consoante o contexto e a intenção de quem a profere, pode traduzir uma rejeição da existência de Israel, bem como a relativização e, nas franjas, a glorificação do Hamas como reduto anticolonial. Mais do que uma manifestação de solidariedade internacional, esta centralidade revela uma hierarquização política das causas e dos sofrimentos considerados dignos de mobilização.
No plano da análise teórica, constata-se que a Palestina funciona como uma espécie de “causa total”, na qual convergem as gramáticas centrais da esquerda imaterial: anticolonialismo, anti-imperialismo, resistência à hegemonia ocidental, solidariedade com populações racializadas ou percebidas como subalternizadas, crítica ao nacionalismo étnico e denúncia das desigualdades globais. Esta capacidade de agregação ideológica explica por que motivo a causa palestiniana é lida como mais do que um conflito nacional, territorial e histórico entre israelitas e palestinianos e se torna uma chave de leitura da própria ordem ocidental. Não é apenas uma causa entre outras: é uma causa capaz de representar, ordenar e conferir unidade simbólica a muitas outras.
A centralidade adquirida pela Palestina no imaginário político da esquerda imaterial compreende-se melhor numa ótica retrospetiva. Isto é, a causa palestiniana pode ser entendida como tendo preenchido uma espécie de vazio de bandeira internacional depois da Guerra do Vietname. Se o Vietname condensava a luta contra o imperialismo americano, a causa palestiniana condensa hoje a luta contra uma ordem internacional percebida como dominada pelo Ocidente, vendo em Israel não apenas um Estado, mas o posto avançado político e militar dessa ordem no Médio Oriente. Nesse imaginário, a ordem internacional contemporânea surge como continuação, sob novas formas, do nexo histórico do colonialismo.
Quando o conflito é interpretado através de grelhas decoloniais assentes num binómio estanque de colonizador e colonizado, tendem a ser secundarizados elementos politicamente polémicos – como o islamismo político, a repressão da dissidência, as desigualdades de género ou a hostilidade aos direitos LGBT por parte de atores islamistas – para preservar a coerência simbólica e a capacidade mobilizadora da causa, inscrevendo estas contradições numa conveniente gramática do “relativismo cultural”. Esta secundarização não constitui apenas uma incoerência teórica: é uma condição prática para que a causa continue a acolher movimentos cujos valores, noutros contextos, seriam dificilmente conciliáveis com os dos atores políticos que apoiam.
É por isso que a Palestina é, igualmente, uma espécie de “significante-mestre” de uma coligação simbólica e política mais ampla: movimentos antirracistas, feministas, decoloniais, queer, estudantis e anticapitalistas. Nem todos têm a Palestina como causa principal, mas encontram nela um ponto de convergência simbólica, capaz de converter solidariedades distintas numa identidade política comum.
É esta capacidade de condensação que ajuda a explicar a assimetria entre a atenção concedida à Palestina e a mobilização suscitada por outros conflitos, perseguições, ocupações ou catástrofes humanitárias. Não se trata apenas da escala da violência, mas também da possibilidade de integrar cada conflito numa narrativa política reconhecível.
A Palestina oferece, nesse sentido, vantagens simbólicas que outras causas não oferecem: um antagonismo facilmente identificável, uma ligação imediata ao colonialismo e ao poder ocidental e um território carregado de significado histórico. Pelo contrário, os conflitos que envolvem responsabilidades difusas, potências não ocidentais, guerras internas ou populações que não cabem facilmente no binómio colonizador/colonizado tendem a produzir menor convergência militante. Não porque o seu sofrimento seja necessariamente menor, mas porque a sua legibilidade política é menos funcional.
Assim, embora a realidade do conflito israelo-palestiniano seja extremamente complexa, a sua função simbólica na política ocidental é frequentemente reduzida a uma estrutura binária: opressor versus oprimido, colonizador versus colonizado, hegemonia versus resistência. A complexidade desaparece precisamente no momento em que a causa deixa de ser objeto de juízo político e passa a ser emblema de pertença. A simplificação não é, neste caso, um acidente do discurso militante: é um dos mecanismos que permitem a sua difusão e asseguram a sua eficácia agregadora.
Do ponto de vista das guerras culturais, a Palestina talvez seja hoje o exemplo mais acabado de uma questão internacional transformada em marcador identitário doméstico. Em certos meios ocidentais, a posição pública sobre Gaza diz menos sobre o Médio Oriente do que sobre a forma como cada pessoa interpreta o Ocidente, o colonialismo, a identidade nacional, a legitimidade da ordem internacional, a distribuição do poder global e a hierarquia das causas que considera merecedoras de atenção e mobilização.
Ora, isto aproxima-se daquilo que se poderia chamar “essencialismo invertido”, em que se substitui a assunção racista de que certos povos são naturalmente superiores pela ideia de que certos grupos são moralmente mais puros por terem sido vítimas da história. É uma inversão da hierarquia, não a superação do essencialismo. O problema é que as vítimas não deixam de ser atores políticos complexos, com interesses, ideologias, preconceitos e capacidade de exercer violência.
Negar-lhes essa complexidade não constitui uma forma superior de solidariedade; pelo contrário, significa retirar-lhes agência, responsabilidade e espessura histórica. Mas o ponto central é anterior à própria questão da pureza moral. A Palestina não adquiriu este lugar apenas pela gravidade intrínseca do conflito, inegável, mas pela capacidade de condensar algumas das gramáticas mais vitais da esquerda internacional: emancipação, opressão, colonialismo.
E esta constatação leva a uma pergunta desconfortável: é a esquerda capaz de reconhecer outras lutas e catástrofes humanitárias quando estas não cabem na gramática emancipatória através da qual passou a interpretar o mundo?