Nos estranhos dias que vivemos, tenho recordado o livro Homo Deus de Yuval Harari. A actualidade trouxe-me à memória, com grande crueza, a impressão com que fiquei ao ler algumas partes do livro. Relê-las, hoje, à luz dos acontecimentos com que todos somos confrontados, reforça ideias que retive no “confronto” com o texto: a ausência de humildade e de experiência concreta da realidade das pequenas coisas, no quotidiano de cada ser humano; a ilusão, criada pela tecnologia, de uma audaciosa e utópica promessa de “sermos como deuses”, influenciando profundamente a própria leitura da história humana.

Afirma o autor: “no século passado, a humanidade conseguiu fazer o impossível e controlar a fome, a peste e a guerra. Hoje, mais pessoas morrem de obesidade do que de fome; mais pessoas morrem de velhice do que de doenças infecciosas”, vaticinando um caminho futuro em direcção à imortalidade.

Procura imemorial, constitutiva da história do ser humano, a busca de “sermos como deuses” tem assumido, ao longo dos tempos, contornos muito diversos. Na era da técnica e da ciência como ideologia, nas palavras do filósofo alemão Jurgen Habermas, a tentativa de nos igualarmos aos deuses, procurando anular a morte, a doença e o sofrimento, gerou um pensamento que se vem afastando cada vez mais da realidade concreta, modificando radicalmente a leitura e a compreensão da própria natureza humana.

Os avanços tecnológicos são meios indispensáveis que precisamos continuamente de explorar. Mas são apenas isso; meios e não fins em si mesmos. Uma utopia sustentada numa ilusão, construída num possível futuro de um ser modificado que não morre, não está doente e não sofre, não é mais que isso: uma ilusão. E uma ilusão que deixou de lado o humano concreto na sua situação. Falando de Bernard Shaw, há mais de cem anos, G.K. Chesterton dizia que Shaw “descobriu um novo deus no futuro inimaginável. Ele, que tinha posto todas as culpas em ideais, estabeleceu o mais impossível de todos os ideais, o ideal de uma nova criatura”. E é essa ilusão que tem impregnado a nossa forma de ver o mundo, os outros e a nós mesmos; e que esta situação actual tão concretamente toca e põe em causa.

Na minha vivência diária da Medicina, no cuidado dos doentes que estão nas nossas mãos, as frases de Harari assumem um confronto com a realidade concreta que é verdadeiramente iluminador. A fragilidade, a ausência de curas milagrosas, o lidar com o limite (e com o limite último que é a morte), o sofrimento (dos doentes e de quem os ama) ensinam-nos a humildade. Humildade essa que está sempre presente também quando nos dedicamos à investigação científica, procurando conhecer as doenças, as suas causas e possíveis tratamentos. Mas é aí, na prática concreta, na ligação com a vida, que os nossos limites se revelam de forma pungente. Quantos doentes não podemos curar? Quantos doentes não vamos nunca poder curar? Quantos têm graves limitações que apenas podemos acompanhar? Quantos estudos de medicamentos são negativos ou até deletérios? Quantas vezes aquilo que achávamos que era uma explicação das doenças se apresenta incorrecto?

A humildade e a procura do conhecimento do mundo andam de mãos dadas. É conhecendo as nossas limitações que podemos avançar para compreender melhor o mundo e cuidar dos doentes.

E é também esta humildade a base da ética médica, centrada na realidade concreta do ser humano que nos é próximo e de quem somos chamados a cuidar. Não se trata de uma ética abstracta, dirigida a uma humanidade global sem rosto, mas a uma acção efectiva centrada na dignidade intrínseca de cada pessoa, independentemente da sua idade ou “qualidade de vida”; é ela que move as nossas acções enquanto médicos.

As doenças infecciosas e as pandemias sempre fizeram parte da história e, como agora tão concretamente aprendemos, talvez sempre venham a acontecer. É a forma como lidamos com elas, tal como a forma como lidamos com as outras doenças, que nos define como médicos e como sociedade.

Os recursos são e serão sempre limitados. Não temos nem teremos nunca tudo aquilo de que precisamos; mas a forma como usamos os recursos disponíveis é decisiva; e a resposta que, como indivíduos e como comunidade, formos capazes de dar será a base do nosso futuro.

Li, ainda há pouco, a conclusão de um artigo escrito por um epidemiologista que, relativamente a esta crise mundial, vaticinava que “sobreviverão os mais fortes e sadios e morrerão os mais fracos e doentes, a natureza funciona assim mesmo e não há como mudar isso”. Mas não é exactamente o contrário que, como profissionais de saúde, procuramos diariamente fazer, ao cuidar dos mais fracos e dos doentes? Não é esse o papel da Medicina e das evoluções tecnológicas e científicas de que tanto nos orgulhamos e que procuramos com afinco, como as vacinas, como os tratamentos inovadores?

Como é possível conciliar estes pressupostos contraditórios de um “evolucionismo social”, deixando a “natureza” seguir o seu curso, com a promessa de um ser humano que se considera capaz de controlar a própria morte e de “criar” vida?

Não foram os médicos quem, no actual contexto, organizou os meios e distribuiu os recursos; não foram os médicos quem planificou os sistemas e as suas arquitecturas; não foram os médicos quem escolheu como trabalhar e em que condições. Sujeitaram-se, muitas vezes, a um sistema que os excluiu e os instrumentalizou. E é, agora, num momento de crise, este mesmo sistema que os obriga a tomar decisões críticas. Decisões que ficam e ficarão para sempre nas suas mãos. O que devia fazer-nos pensar em como agir e retirar sérias consequências para o futuro.

A tentação de “sermos como deuses” surge, hoje, com uma nova e gritante violência quando se escolhe quem vive e quem morre em face de meios limitados. O que guia os nossos critérios? Usar comissões de ética para suportar decisões que têm por base uma discriminação por idade, por “qualidade de vida” ou de gestão de recursos é minar toda a Medicina como a temos conhecido até aqui. É que os fins nunca justificam os meios. E é exactamente em cenários de “guerra” que a humanidade se define.

Ética, que ética?

Ao ter de se escolher quem vive e quem morre, não se estará a assumir um papel de “querer ser como deus”? E, quando os médicos são compelidos a fazer de deuses, a Medicina perde a sua característica distintiva – o cuidado — e a ética médica e a deontologia que, durante muitos séculos, regeram a prática médica estão em risco de ruir.