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O fenómeno da ignorância tem adquirido intrigantes contornos de cariz político e um papel cada vez mais estruturante das actuais sociedades. Este contra-senso em estudo pela Sociologia supera a literacia, uma preocupação das organizações internacionais (UNESCO, OCDE, UE) que conseguiram aumentos significativos de escolarização das sociedades modernas nas últimas décadas, mas que ainda se debatem com a existência de um “novoanalfabetismo”, traduzido na incapacidade de domínio das competências de leitura, escrita e cálculo.

Outras incapacidades igualmente importantes parecem estar aqui incluídas, como os déficits de interpretação do mundo, consequência de uma visão doutrinal da Escola, mera transmissora de ideias supostamente objectivas, predispondo os indivíduos à insensibilidade ética e à falta de criatividade, situação que mina um dos pilares centrais da democracia que é a autonomia do pensamento.

Estas circunstâncias agravam-se no espaço social atolado em informação em que é cada vez mais difícil processar os conteúdos que nos atropelam ao segundo. Verificam-se sentimentos de solidão e desconexão, comportamentos de agressividade do tipo fuga para a frente, uso compulsivo de redes sociais, jogos e outras actividades que, parecendo agradáveis, anestesiam o indivíduo dando-lhe a sensação de que os problemas não existem.

Interessa-nos, por isto, outro enfoque da ignorância humana como condição mais profunda e complexa, quando produzida com intenção, dirigida “cirurgicamente” às lacunas cognitivas e emocionais dos indivíduos. Longe de teorias da conspiração, a ignorância é essencialmente um facto humano incontornável, pois apenas é possível conhecer a realidade à nossa volta de modo parcial e fragmentário. Esta condição é perfeita para o crescimento da ambiguidade e da anarquia, especialmente quando estão no comando interesses a quem importa que a sociedade regresse à crença como forma operativa, um poder de mobilização capaz de erguer ou destronar qualquer império.

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Falamos de “ignorância estratégica” uma expressão usada por Linsey McGoey, socióloga da Universidade de Essex quando se refere à produção deliberada de obscurantismo, através do lançamento de dúvidas ao conhecimento instituído por mão de interesses económicos e intenções de facções políticas ou sociais. No recente livro The Unknowers: How Strategic Ignorance Rules the World (2019), refere que a dúvida adquiriu incalculável valor, virou-se contra o método científico de Descartes e está na origem de descréditos, negacionismos de toda a ordem, fundamentalismos e “opinismos” que pretendem ter força de lei e influenciarão irremediavelmente a História.

Na sua tese de doutoramento na London School of Economics, McGoey apontou numerosos casos de sucesso da ignorância, entre eles as indústrias farmacêuticas que a usam como estratégia para aprovar medicamentos sem informar devidamente o público sobre os seus efeitos adversos, e, em matéria política, igualmente repleta de exemplos, destaca os críticos do Brexit, com entendimento comum de que muitos eleitores de classe operária do Reino Unido votaram pela saída da União Europeia por ignorância.

Ora quando falamos de desconhecimento teremos de ir ao outro lado, ao conhecimento científico que não sai impune deste processo pois, cada vez mais politizado, está longe de ser neutro e objetivo. Os cientistas e especialistas não produzem conhecimento no vácuo social, há vieses específicos que iluminam certas questões em detrimento de outras. Isso significa que a ciência, ao mesmo tempo que produz conhecimento, pode produzir também formas de desconhecimento ou ignorância, sempre que a sua aplicação prática tiver consequências politicamente inconvenientes.

A ciência vive de financiamentos das pesquisas e tem lugares de destaque com vínculos políticos, inevitavelmente ligados a interesses capitalistas de direita e de esquerda, ideologias à parte. Não nos deve surpreender então que conhecimento relevante seja mantido estrategicamente na gaveta, assim como não nos espanta que os governos para se promoverem chamem a si sucessos da ciência. É o caso daqueles que quiseram colar-se ao sucesso do Vice-Almirante que liderou a Task Force portuguesa da vacinação contra a Covid 19, e que apenas fez exemplarmente o seu trabalho, coisa vista como rara, como se não competisse aos cargos diretivos em particular fazê- lo por regra.

A consciência colectiva é determinante no processo de aquisição de valor da ignorância, mas a responsabilidade individual não pode ser descartada. O desconhecimento está frequentemente ligado à cegueira voluntária. De facto, não é difícil perceber o quão inconveniente é a faculdade da boa visão – ou dá uma enorme canseira ou traz problemas e conflitos – por isso são demasiados aqueles que, no drama social, fecham os olhos como na cadeira do cinema quando a cena é demasiado terrífica.

Somos todos réus, quantas vezes vestimos a pele do Homo Ignorans por preguiça e comodismo? Viajamos, comemos, poluímos como se não houvesse amanhã, como se nada tivéssemos a ver com o aquecimento global e a sustentabilidade do planeta. Ignoramos estrategicamente conhecimentos do domínio público para fazer o que nos apetece, porque somos livres e temos direitos. Liberdades próximas da ignorância movem alguns meios de comunicação social na escolha e produção dos conteúdos informativos e de entretenimento. Liberdades que têmnorteado os cidadãos na escolha de governantes, bons gestores da pobreza, símbolo que teima em fazer parte do património cultural português, como o fado, ou a Torre de Belém.

A conspiração, aparentemente em todo o lado, parece-nos mais apatia da mente social que procura fantasmas para se redimir de culpas e, depois, sente-se ameaçada por forças que pouco ou nada têm de ocultas. Qualquer impropério vociferado com excesso de decibéis, partilhado compulsivamente nas redes sociais, pode dar origem a correntes de opinião, movimentos ou causas. Entrámos no perigoso domínio do vazio cognitivo preenchido com medo, insegurança e incerteza. Um atordoamento em que o cidadão tem dificuldade em discernir sobre o que é ou não normal. E ai! de quem tiver o atrevimento de usar vocabulário sem se certificar da imparcialidade, pois poderá ser qualificado com o selo da xenofobia, racismo, misoginia, homofobia e outras fobias recentes.

Teremos de virar as páginas da ignorância, mas do outro lado, além de conhecimento terá de vigorar a humildade intelectual porque ninguém tudo sabe. São despropositadas arrogâncias activistas que correm para lugar nenhum, melhor é valorizar aquilo que tem valor para lá das aparências. No quotidiano, na cama do hospital ou na ambulância, habitualmente, ninguém pergunta sobre a orientação sexual, política, ou etnia de quem bem cuida e salva vidas. Mais importa, em qualquer espaço social, competência e integridade, venham de que latitude vierem, tenham a cor que tiverem.

Preocupa-nos o homem comum, sem direito a ser comum, no caminho da segregação face à multiplicação de minorias, já perpétuas maiorias, “vítimas do sistema”. Corrompida a racionalidade, aceitámos viver entre a mentira e a fábula, dissipou-se a fronteira entre bem e mal. Sem percebermos onde estão os juízos de facto, chegámos à Era da Pós-Verdade – testemunho de um misto de crença e axioma em que as evidências têm menos influência na opinião pública do que os apelos às emoções.