A criação de um Hospital do Oeste foi já amplamente discutida, mas com “estudos” enviesados e, por vezes, entre discussões estéreis e sem fundamento.

Resistindo à tentação de voltar a relatar todo o processo de metamorfose na escolha da localização do referido hospital e correndo o risco de ser apelidado de ter uma visão demasiado kafkiana, gostava sim de partilhar um pensamento refletivo sobre a matéria.

O Ministro da Saúde anunciou publicamente a nova localização do Hospital do Oeste, uma decisão política porque, se fosse administrativa, estaria ferida de ilegalidade, já que aguarda eventualmente alterações ao PROT-OVT por forma a acomodar os instrumentos de ordenamento do território à decisão que se pretende agora tomar.

Por outro lado, não tenho dúvidas de que uma decisão acertada e bem fundamentada teria, com toda a certeza, tido como resultado uma localização entre Caldas da Rainha e Óbidos.

Relembro a “engenharia” que foi utilizada para servir de justificação à tomada de decisão, ou seja, a inclusão do sul do concelho de Alcobaça (nomeadamente São Martinho, Alfeizerão e Benedita) na ULS de Leiria para desviar a referência central ou a inclusão de concelhos a sul de Torres Vedras que já anunciaram não aceitar fazer parte da equação.

Acresce que não é ainda conhecido o resultado do estudo de referenciação hospitalar encomendado pelo governo e as suas consequências e/ou a sua articulação com decisões como a de que aqui falamos.

A criação de uma Unidade Local de Saúde (ULS) para todo o Oeste demonstra, ainda, o total desconhecimento do território e um desfasamento tal à conjuntura, que me leva a deixar aqui uma questão: será que não deveriam ser criadas antes duas, a ULS do Oeste Norte e a do Oeste Sul?

De qualquer forma e seja qual for a realidade futura, não podemos deixar colapsar o Hospital das Caldas da Rainha. Nesse sentido, deve ser assumida, com clareza, determinação, eficácia e rapidez, a prioridade da sua reabilitação, de modo a garantir a continuidade dos cuidados hospitalares a milhares de utentes.

O atual estado do Serviço Nacional de Saúde representa um risco para todos os portugueses, mas, em especial, para todos aqueles que não podem recorrer a um subsistema de saúde, como a ADSE ou um Seguro de Saúde. Infelizmente, os mais desprotegidos estão cada vez mais ameaçados pela falta de assistência e encurralados na dependência do serviço público.

No Oeste é escandaloso o que se passa nos cuidados de saúde primários e no CHO (Centro Hospitalar do Oeste), onde, semana após semana e à imagem de todo o SNS, são fechados serviços e recusados doentes. Tirar o Hospital a Caldas da Rainha, além de desonesto, assume-se como o maior atentado alguma vez feito por um Governo contra a população Caldense.

A degradação do SNS é hoje uma realidade incontornável e com rosto, digna de um filme de terror com uma gestão danosa, assustadora e resultante de um socialismo bacoco, leva-nos a ter de questionar dois aspetos cumulativos.

Primeiro, a colocação no Orçamento de Estado para 2024 da menção do lançamento de concurso para o novo Hospital do Oeste deixa uma dúvida sobre a intenção ou não de ser estabelecida uma parceria público privada, que deve ser equacionada até para tornar mais célere o processo. Atento a essa mesma celeridade seria importante perceber que a localização Caldas da Rainha/Óbidos não depende de condicionantes, pelo que permite rapidamente avançar sem restrições.

A segunda questão, que nos deve transportar para um pensamento ainda mais refletivo, é perceber qual vai ser o racional do novo Hospital do Oeste no contexto atual de catarse que o SNS atravessa.

Ultrapassadas estas questões, dogmas e engenharias, deixemo-nos de tretas e sejamos racionais porque o Hospital do Oeste só faz sentido ser construído entre Caldas da Rainha e Óbidos.