Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

O mundo já não passava por uma pandemia mundial, de proporções épicas, há mais de 100 anos. A última vez que tivemos uma pandemia tão grave como a que vivemos nos dias de hoje, terá sido quando, em 1918, surgiu a Gripe Espanhola, que infetou cerca de 500 milhões de pessoas, um terço da população mundial na altura. Mas naquele tempo, o mundo funcionava de maneira diferente, os meios de comunicação e de ajuda não eram tão práticos e eficazes como os de hoje e a humanidade também tinha acabado de passar pela Primeira Guerra Mundial. Hoje, a pandemia Covid-19 é algo que domina por completo a agenda diária dos meios de comunicação social e das redes sociais e, por consequência disso, vamo-nos esquecendo de muitos problemas que assombram outras partes do mundo.

O Iémen atravessa uma guerra civil desde 2014, entre os rebeldes Xiitas Hutis, com o apoio do Irão, e as forças sunitas leais ao Presidente Abdrabbuh Mansur Hadi, que contam com o apoio de uma coligação internacional liderada pela Arábia Saudita. Este conflito deixou dois terços da população sem qualquer tipo de proteção, os serviços sociais foram completamente dizimados e apenas menos de metade dos serviços de saúde ainda funcionam. Este conflito, que tem merecido muito pouca atenção do mundo, deu origem a uma das maiores crises humanitárias de sempre.

Atualmente, mais de 13 milhões de habitantes do Iémen encontram-se privados de água, comida e eletricidade, resultado do conflito. Segundo um relatório levado a cabo pela UNICEF, o Iémen tem cerca de 100 mil pessoas deslocadas em todo o país. Mas o mais chocante destes números, são as cerca de 850 mil crianças que neste momento passam fome e sede, sem acesso a água potável ou a qualquer tipo de alimento. Muitos dos programas humanitários das Nações Unidas estão suspensos e os restantes estão em risco, devido à falta de financiamento, e cerca de 80% dos 29 milhões de habitantes do Iémen dependem de ajuda humanitária.

O conflito no Iémen continua a escalar e dezenas de civis continuam a morrer diariamente, na maioria crianças. A nível económico, o Iémen também não vai pelos melhores caminhos. Neste momento, o Rial Iemenita continua numa queda abrupta e os preços dos alimentos continuam a aumentar. O atual clima pandémico também não ajuda. O Iémen tem das maiores taxas de mortalidade do mundo entre as vítimas de Covid-19 e a pandemia tem atrasado a importação de bens alimentares e de meios de subsistência. Segundo a UNICEF, pelo menos duas mil crianças foram mortas, 4800 mutiladas e 2700 meninos foram recrutados para as fileiras da guerra.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

A nível político e diplomático, o presidente-eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, já afirmou que vai acabar com o apoio americano à guerra liderada pela Arábia Saudita no Iémen. Os números elevados de fatalidades civis deram origem a uma grande oposição ao envolvimento americano nesta guerra por parte da ala mais à esquerda do Partido Democrata e de um número crescente de membros do Congresso e do Senado. A Arábia Saudita é o aliado árabe mais próximo do Presidente Donald Trump, uma pedra angular na aliança anti-Irão. Alguns analistas veem Biden distanciar-se da aceitação de Trump face à família real Saudita. Existe também uma elevada preocupação com a mudança que está a decorrer no Médio Oriente, no que toca a uma política mais pró-Irão do que pró-Arábia Saudita.

Mas a leitura mais importante que tem que ser feita a partir deste conflito e dos resultados desumanos que dele emanam, é a violação clara de Direitos Humanos que todos os dias têm sido expostos ao mundo. Existem vários tipos de direitos, a maioria aplica-se a um determinado grupo, mas os direitos humanos são os únicos que se aplicam absolutamente a todos, em qualquer lugar. Crianças, idosos, pessoas pobres, africanos, indianos, muçulmanos, etc. Todos têm exatamente os mesmos direitos humanos. Por outras palavras, são universais. Aquando da criação da Organização das Nações Unidas e da elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a humanidade viu acontecer uma grande evolução no que toca aos direitos humanos, e, que, na sua essência, iriam trazer paz e uma maior prosperidade ao mundo, exceto com um pequeno problema. Se as pessoas têm direito a comida e abrigo, porque é que existem 850 mil crianças a passar fome neste conflito? Se a escravatura foi verdadeiramente abolida, porque é que existem milhares de crianças e adultos a serem forçados a combater nas fileiras de guerra? O facto é que, quando foi assinada a Declaração dos Direitos Humanos, ela não tinha a força da lei, era opcional. Quem irá fazer destas palavras uma realidade para estes milhões de pessoas que lutam diariamente pela sobrevivência?

Aqueles que lutam hoje contra a tortura, a pobreza e a discriminação são pessoas, indivíduos de pensamento livre que se recusam a ficar calados, que compreendem que direitos humanos não são discursos ou palavras numa página. São as escolhas que fazemos como seres humanos, são a responsabilidade partilhada entre todos para ajudarmos e protegermos quem precisa.

Há uma citação de Eleanor Roosevelt, primeira Presidente da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, que descreve a lição que devemos tirar e defender quando assistimos à crise humanitária do Iémen: “Onde é que, afinal, os direitos humanos começam? Em pequenos lugares, perto de casa – tão perto e tão pequenos que não podem ser vistos em nenhum mapa do mundo. No entanto, são o mundo de uma pessoa individual; o bairro em que habita; a escola ou faculdade que frequenta; a fábrica, quinta ou escritório onde trabalha. Muitos são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura justiça igualitária, igualdade de oportunidades, dignidade igual sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado nesses lugares, eles têm pouco significado em qualquer lugar.” Em conclusão, é urgente que as nações e a organizações internacionais cumpram os propósitos para os quais foram criadas e ajudem a erradicar esta crise humanitária, a guerra e a fome que daí advêm. Sobretudo as nações com maior poder, porque são as que têm mais responsabilidades.