A asma é uma doença inflamatória crónica das vias aéreas,frequente e potencialmente grave, que afecta crianças e adultos, que pode e deve ser controlada, situação que pode ser atingida na maioria dos doentes, com uma gestão adequada da doença. A asma, quando não é devidamente tratada, tem um impacto negativo significativo na vida dos doentes, limitando fortemente a sua actividade profissional, escolar e social. No entanto, com as múltiplas opções terapêuticas disponíveis a grande maioria dos doentes asmáticos se realizarem o tratamento regular e diário adequado, conseguem ter uma vida perfeitamente normal.

A asma em Portugal tem uma prevalência de 6.8%, com um custo por pessoa com asma de 762€ e um gasto global de 550M€, representando 3% dos gastos em saúde em Portugal no ano de 2010. Na infância a prevalência de asma em Portugal é de 10.7%. O custo anual específico em Portugal por criança com asma é de 929€ e de 708€ por adulto aumentando para mais do dobro este valor por pessoa com asma não controlada.

Sabemos que globalmente a Asma é uma doença subdiagnosticada e subtratada que atinge cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo e perto de 700 mil pessoas em Portugal. Quase metade dos asmáticos portugueses não tem a doença controlada, representando 43% da população geral e 51% da população pediátrica. Cada 9 em 10 doentes com asma não controlada tem uma percepção inadequada do estado de controlo da sua doença, pois apesar de não estarem controlados acham que têm a sua asma controlada, o que pode dificultar a procura de melhor tratamento e controlo. Uma das consequências da não adesão ao tratamento e do mau controlo da asma são as agudizações graves com necessidade de internamento.

O especialista em Medicina Geral e Familiar tem um papel fundamental na identificação das pessoas com asma e na implementação da melhor e mais adequada estratégia de controlo e tratamento para cada doente, de modo a controlar a sua doença e a sintomatologia diurna e nocturna, a prevenir o aparecimento de agudizações, a melhorar significativamente a qualidade de vida e a contribuir para que se mantenham fisicamente activos. No entanto, a maior parte das vezes, os asmáticos só recorrem à consulta do seu Médico de Família numa situação de crise, ou seja, de agudização da sua doença, nomeadamente quando ficam com falta de ar, sibilância, tosse, sensação de aperto no peito e apresentam uma maior dificuldade em respirar que limitam significativamente a realização das suas actividades da vida diária. Os sintomas de asma geralmente são piores à noite ou ao acordar, variam ao longo do tempo em intensidade, frequentemente ocorrem ou agravam-se com as infecções víricas e podem ser desencadeadas pelo exercício físico, riso, exposição a alergénios, mudanças no clima, exposição a irritantes, poluição ambiental e ao fumo de tabaco.

A pessoa com asma deve ser sempre acompanhada regularmente pelo seu Médico de Família e fazer diariamente e por longos períodos a medicação de controlo da sua doença e não fazer apenas nos períodos de maior dificuldade respiratória ou de crise a medicação de alívio, que unicamente controla os sintomas e não a inflamação das vias aéreas.

A base do tratamento da asma consiste na inalação regular de medicamentos anti-inflamatórios, como os corticoides inalados, que vão controlar a inflamação persistente e crónica das vias aéreas e melhorar os sintomas, prevenir as agudizações e permitir que as pessoas com asma tenham uma vida normal. Uma vez que é necessário que os medicamentos que estão contidos nos dispositivos inalatórios cheguem às vias aéreas, aí se depositem e actuem combatendo a inflamação, dilatem as vias aéreas e assim permitam que os asmáticos passem a respirar melhor e a não terem qualquer limitação na realização da sua vida diária.

No entanto, na vida real os maiores problemas na obtenção do melhor controlo da asma consistem na utilização incorrecta dos dispositivos inalatórios e na não utilização diária e prolongada da medicação de controlo da inflamação das vias aéreas. Para combater o incorrecto uso dos dispositivos inalatórios, é essencial ensinar correctamente as pessoas com asma na sua adequada utilização e na regular verificação da sua utilização correcta e ver o asmático a utilizar o seu inalador pela equipa de saúde, pelo médico e/ou enfermeiro. Na actualidade, existem múltiplos e simples dispositivos inalatórios, os quais deverão ser adequadamente selecionados e adequados às preferências e necessidades de cada tipo de pessoa com asma e assim efectivamente permitirem que se atinja com êxito e de forma sustentada o controlo da asma.

Existem presentemente questionários validados para fazer a avaliação periódica ao longo do tempo do controlo da asma, os quais permitem avaliar e quantificar de uma forma simples e rápida o nível de controlo da asma. Os mais usados em Portugal são o ACT (teste de controlo da asma, disponível aqui ou aqui) e o CARAT (teste de controlo da asma e da rinite alérgica, disponível aqui). Caso seja usado o questionário ACT considera-se que o asmático está controlado quando obtém uma pontuação >20 pontos, parcialmente controlado ente 15 e 19 pontos e não controlada se <15 pontos. Ao aplicarmos o questionário CARAT desenvolvido em Portugal, considera-se a asma controlada para um valor de CARAT global >24 ou um CARAT das vias aéreas inferiores ≥16 pontos.

Toda a pessoa com asma tem presentemente a capacidade de em parceria com os profissionais de saúde, nomeadamente com o acompanhamento regular pelo seu Médico de Família, a grande oportunidade de não viverem em esforço e com falta de ar e juntos obterem o melhor controlo e bem-estar e assim conquistarem e vencerem a asma, para viverem em pleno e sem limitações.

Coordenador do Grupo de Trabalho de Problemas Respiratórios da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar Especialista em Medicina Geral e Familiar