Não é o rosto da liderança a verdadeira razão do estancamento do crescimento da Iniciativa Liberal. Para aferir o alcance do seu potencial político, bastaria submeter os portugueses a um breve inquérito: qual deve ser a principal prioridade do Estado – a economia, a saúde, a justiça, a imigração, outro? A resposta não passaria de uma medição do território de uma monomania.

Costuma dizer-se que a carência determina a prioridade: para quem sofre na saúde, a saúde virá primeiro; para quem vive com dificuldades financeiras, será a riqueza. No entanto, nem sequer é disso que se trata. A IL é, antes, o partido dos fascinados com o algoritmo, com os “rácios” e com a ideologia do “sucesso”.

Repetem os deslumbrados: “Nada do resto se obtém sem economia; logo, a economia deve vir primeiro.” Apenas um tecnocrata poderia reduzir a política a raciocínios instrumentais, o homem a espécie animal gregária, e considerar a economia mais do que uma mera ferramenta.

A política define-se pelos fins, não pelos meios. São os valores que determinam as prioridades – e à economia cabe o papel subalterno de lhes obedecer e zelar pela contabilidade. A ideologia determina os fins; a economia, na melhor das hipóteses, é um meio eficiente para os realizar.

O liberal autocentrado, que defende a liberdade até ao ponto em que a liberdade do outro o incomoda, vê o mundo como uma engrenagem de utilidade. Para ele, a sociedade move-se exclusivamente por estímulos materiais, porque o ser humano só reage a “incentivos” – é a realidade do homem “abstracto”, o homo economicus, um ser desprovido de afectos. Não reconhece o altruísmo, apenas a “filantropia”. Nada é gratuito, porque, como repete com zelo doutrinário, “não há almoços grátis”, nem gestos humanos desprovidos de utilidade.

Para o liberal, o que é “inútil” carece de valor – precisamente porque o valor reside, para ele, naquilo que é “útil”, os meios; e os fins, sendo “inúteis”, e o seu valor não tendo expressão económica, são vistos, em consequência, como “ineficientes”. Para este liberal, tudo tem de ser reconvertido em “útil” e passado pela peneira da “razão instrumental”.

Mas, caro liberal, um fim é, por definição, “inútil”, porque é final. Não se paga, nem o seu valor é estimável. E uma visão de sociedade em que cada um escolhe o seu fim não é uma sociedade. Uma comunidade política constrói-se em torno de um projecto e de um destino comum. O mérito do “liberalismo” não prescinde da avaliação do fim a que se destina a liberdade que promove.

Assim sendo, meu caro liberal, para o futuro, permita-se, apenas por um instante, esquecer a métrica, o “economês” e o evangelho dos rácios e motosserras.