Em Portugal, nas últimas décadas, o tema mais discutido tem sido a falta de crescimento económico. O crescimento débil ou nulo tem obrigado o país a passar por diferentes fases de restrição orçamental e a aumentos da carga fiscal. A razão, para mim, é simples: o tecido económico português não consegue manter vantagens competitivas sustentáveis no médio e longo prazo que lhe permitam a diferenciação face aos seus concorrentes internacionais. Assim, muitas vezes competimos pelo preço, desprezando a oportunidade económica e ficando totalmente expostos aos ciclos económicos globais.

A questão fulcral é saber como conseguimos de forma estrutural dotar a economia portuguesa e as suas empresas nas diversas áreas (energia, serviços industriais, de saúde, agroalimentares ou mesmo têxteis) de vantagens competitivas sustentáveis.

A solução mostra-se evidente: através da inovação de base científica. O caminho para tal é que poderá ser debatido, sendo certo que esta é a oportunidade que nos permitirá mudar estruturalmente o tecido económico português.

Ao longo dos últimos anos, temos assistido e ficado entusiasmados, e bem, com a revolução tecnológica. O tech integrou o léxico corrente em Portugal, de empresários a políticos, na educação, nas empresas e nos media. Esta revolução, que permitiu criar novas empresas, renovar empresas maduras e até reformular empresas incumbentes, é, para mim, um dos pilares que agora nos permite apostar na inovação de base científica.

O outro é naturalmente o grande investimento que o país fez na ciência e na formação avançada de recursos humanos em ciência. De forma sustentada, nos últimos 40 anos, capacitámos os centros de Investigação & Desenvolvimento (I&D) das universidades e exportámos talento bruto para etapas de formação avançada nas melhores escolas do mundo. Portugal tem por isso hoje massa crítica muito relevante nesta área:

– a nossa produção científica está em linha com a que é feita na Alemanha ou no Reino Unido, embora ainda longe dos países escandinavos, mas tendo dado um salto qualitativo entre 2005 e 2015 com uma taxa de crescimento anual de 10% (lembremo-nos de que, no mesmo período, a economia decresceu 0,05%);

– ao mesmo tempo, duplicámos a capacidade de formar doutorados em diversas áreas de conhecimento, com um aumento significativo, mas não suficiente, da sua integração no tecido económico.

Está assim constituído o caldo de cultura que nos permite, nos próximos 20 a 30 anos, transformar o tecido económico nacional através da verdadeira integração de conhecimento de base científica e da criação de vantagens competitivas sustentáveis. Que, de uma vez por todas, isto nos permita focar no crescimento e não na recessão!

Claro que, neste momento, impõe-se perguntar o que falta. Porque é que ainda não vimos uma revolução de base científica na economia?

Na realidade, já estamos a ver. Por exemplo, quase sem nos apercebermos, tivemos o lançamento no mercado dos dois primeiros medicamentos totalmente desenvolvidos em Portugal. Mas é facto que ciclos de desenvolvimento longos com investimentos significativos de médio prazo têm afastado a maioria das empresas, muitas descapitalizadas, deste tipo de apostas, levando-as a focarem-se maioritariamente no curto prazo.

Como garantimos então que conseguimos de forma estruturada integrar inovação de base científica na economia? Como evoluímos?

Três apostas simples, segundo modelos bem estabelecidos, que devem ser adaptados à realidade nacional:

1. Venture capital

Utilizo propositadamente o estrangeirismo porque a tradução é fraca – “capital de risco” – e o capital não é de risco, nem o termo em português se refere apenas a venture capital.

A importância de criarmos em Portugal uma indústria de venture capital é clara. Por exemplo, se olharmos para os medicamentos inovadores que foram autorizados a entrar no mercado entre 2011 e 2015, vemos que cerca de 2/3 provêm de startups financiadas por venture capital e apenas 1/3 por empresas já estabelecidas. Mais interessante ainda: cerca de 50% destes transitaram para empresas maduras, que são responsáveis pela comercialização de 2/3 destes produtos. Este é um exemplo claro de integração de inovação de base científica na economia.

Em Portugal, infelizmente ainda não temos uma indústria de venture capital privada, devidamente incentivada e com escala adequada. Daqui, entenda-se equipas totalmente dedicadas e especializadas em gerir fundos e adequadamente remuneradas e incentivadas. Para investir com competência em áreas de conhecimento intensivo precisamos de fundos de 30 a 50 milhões de euros e de partners que dominem a área de conhecimento.

2. Transferência de conhecimento e gabinetes de propriedade intelectual

A inovação de base científica nasce nas universidades, pelo que é imperativo que estas tenham gabinetes de propriedade intelectual e transferência de tecnologia capazes. Capazes de, adequadamente, proteger o conhecimento por patentes e capazes de licenciar em condições de mercado as invenções para que estas possam ser desenvolvidas em produtos. Para isso, são necessários recursos que estes gabinetes tipicamente não têm.

3. Manter o que está já a ser bem feito

A aposta forte na ciência de base com financiamento adequado. Ao longos das próximas intervenções, se nos acompanharem, irei aprofundar cada um destes tópicos.

Certo é que se, nas próximas duas ou três décadas, formos capazes de concluir esta transformação, de forma constante e independente de ciclos políticos, vamos deixar uma realidade portuguesa bem melhor para as próximas gerações!

David Braga Malta é especializado na área das Ciências da Vida, com formação de base em Engenharia Biológica pelo Instituto Superior Técnico, tendo passado pelo Imperial College of London durante o mestrado. Concluiu a formação avançada ao abrigo do programa MIT Portugal, tendo-se doutorado em 2012 após um período de investigação de quatro anos no laboratório da Prof.ª Sangeeta Bhatia no MIT. Fundou a startup Cell2B, com base nos resultados do seu trabalho de investigação, que visava o desenvolvimento de produtos de terapia avançada para o tratamento de doenças autoimunes. Atualmente é investidor, venture capital, especializado na área das Ciências da Vida no Fundo Vesalius Biocapital, além de consultor da Caixa Capital. Foi um dos primeiros Global Shapers a integrar o Global Shapers Lisbon Hub quando foi constituído em 2013. Liderou o grupo entre 2015 e 2016. Neste momento, é um dos Global Shapers responsáveis pela consolidação da presença de Portugal no encontro anual do Fórum Económico Mundial em Davos.

Os Global Shapers são um grupo de jovens com grande potencial de liderança que demonstram já o seu valor através de projetos e percursos fora de série. Se quer saber um pouco mais do que fazem os Global Shapers, desafio-o a visionar este vídeo.

Os Global Shapers de Lisboa irão ao longo dos próximos meses, no Observador, discutir alguns dos grandes temas do presente e do futuro, como o da “Inovação de base científica”. Na próxima semana, o Global Shaper João Freire de Andrade vai falar-vos de Tecnologia Financeira. Deixo esta questão: quão científica é a inovação no mundo financeiro? O que é que as outras áreas da sociedade têm a aprender com a tecnologia do mundo financeiro?