Nas minhas andanças pelos quatro cantos do mundo, nunca mais encontrei um barbeiro como o da minha aldeia — o Ti Manel Coxo. Quando entrava na barbearia (não era a barba que me iria fazer, mas o corte de cabelo), estava desejoso de me sentar na cadeira para ouvir o som nervoso e constante da tesoura. De aço bem temperado, de fabrico alemão, marca Solingen, a tesoura era o instrumento essencial no corte de cabelo para desbastar, desengrossar, alisar. Ajudado pelo pente que o mestre deslocava debaixo para cima, passava depois com a tesoura, constantemente a trabalhar, manipulada pelo dedo polegar num aro e pelo anelar e o médio no outro. Dava depois os últimos retoques com a navalha de barba, marca Filarmónica, empunhando-a num verdadeiro trapézio entre os dedos da mão direita. Para mim constituía um mistério a maneira de a conseguir segurar, mas lá ia desbastando o que não podia cortar com as tesouras. Quando passava em cima das orelhas, arrepiava-me todo, ao ouvir o corte rasante para separar os cabelos da pele. Desconfiava sempre desta delicada operação e tentava olhar para o espelho, não lhe fazendo nenhuma confiança, sobretudo quando alinhava os cabelos do pescoço. Vigiar o que é nosso fica-nos sempre muito bem.

No final, o Ti Manel Coxo perguntava-me se queria um cheirinho de Floide que esfregava em cima do cabelo para espalhar o odor pelas ruas da aldeia e impressionar as moças que viriam à janela para ver quem estaria a passar. Contentar-me-ia com o Pó de Braga que era mais barato ou, se os bolsos estivessem sem dinheiro, porque nessa semana não tinha ido ao contrabando, aceitaria uma passagem de pedra hume, que era gratuita, para desinfectar um ou outro descuido da filarmónica do Ti Manel Coxo.

Tudo isto vem a propósito da abertura dos salões de cabeleireiro(a)s que tanto nos faltavam quando ainda estávamos, ainda estamos, no confinamento.

Até que enfim! Como já perdi o medo, agora entrego a minha cabeça ao meu cabeleireiro. Fecho os olhos e, em espírito, deixo-me entranhar no ambiente da barbearia do Ti Manel Coxo. Embalo-me com os comentários do barbeiro, fecho os olhos, e corta e corta, ao mesmo tempo que faz cometários sem despegar a litania das palavras que já repetiu ao cliente anterior. Critica este, incensa aquele, e mais isto e mais aquilo. Mal o percebo, agora com a máscara obrigatória e com as palavras a perderem-se entre as dobras do tecido. Acorda-me com a pergunta:

— O carreiro é à direita ou à esquerda?  E alguns minutos depois: — Quer as patilhas curtas? A franja está um pouco longa, cortamos até onde?

Muito preguiçosamente respondo:

— Faça como antes.

— Mas antes já foi há muito tempo.

— Desbaste, desbaste. Não tenha dó.

Continua a moer as palavras, agora contra o Costa e o Marcelo.

— A gasolina é agora mais barata, mas não posso ir à terra. Por um lado, tenho muita clientela e, graças a Deus, não tenho mãos a medir, e, por outro, o meu carro avariou de tanto descanso que teve.

Já estou quase a pegar outra vez no sono e lá vem ele.

— Aparo os pelos das orelhas e as sobrancelhas?

— Claro que sim. Faça, faça. Não quero parecer o Álvaro Cunhal.

— Ah! Mas essa era um gajo que os tinha no sítio! Agora estes nem aos calcanhares lhe chegam. Andam sempre a criticar o Costa, mas ele lá consegue dar-lhes a volta. O Costa é muito hábil. — Pomos um cheirinho para terminar?

— Tem floide? — eu disse isso para ficar um pouco mais na cadeira. — Não conhece então o floide…

E enquanto eu metia a mão no bolso do casaco para lhe pagar esta tão desejada prestação de corte da minha guedelha, ele sacudia a grande quantidade de cabelos do pano que me protegeu os ombros. Fui-lhe dizendo, sem muitas delongas para não fazer esperar o próximo cliente, que o floide era um cheirinho que o Ti Manel Coxo, o barbeiro da minha terra usava, a pedido dos  rapazes mais engatatões  para se fazerem notar entre as moças da aldeia.

— Bons tempos! Bons tempos!… Quem é que se segue?