Com tantas restrições covídicas, sinceramente, tomei a decisão de hibernar! Estava em  frente da televisão com a minha habitual Superbock, a descascar os irresistíveis amendoins, na falta de tremoços que nunca dispenso no Verão, e acompanhava as notícias sobre a Covid, à espera do anúncio do número de mortes, dos internados nos cuidados intensivos, e tive uma iluminação, uma quase certeza de que nunca mais iríamos sair ilesos desta vaga lúgubre que nos assola agora no Outono que começou e muito mais ainda no Inverno que se aproxima a passos largos.

Além disso, o meu restaurante, que é a minha meia pensão, vai fechar, o café onde tomo a melhor bica do mundo e o meu habitual pastel de nata também. É aqui que me encontro com o meu colega de liceu, depois das horas de trabalho para pormos em dia as últimas do Benfica.  Às vezes, as nossas conversas até incomodam os vizinhos da mesa ao lado, que já percebi serem uns renhidos do Futebol Clube do Porto, porque o sotaque lá do Norte já os traiu, e temos de mudar de conversa quando se sentam ao pé de nós, para evitar zaragatas, já que o falar exasperado expele eflúvios que podem provocar o vírus covídico e ainda podemos ser responsabilizados por termos causado danos a terceiros.

Para mim, é certo que não irei escapar ao Covid, mas, sinceramente, já gostaria de o ter apanhado há algum tempo, porque quanto mais tarde, pior. Se, daqui a um mês, o Covid vier ter comigo, quando me levarem ao hospital, estou certo que já não há cama para mim. Olham para os meus cabelos brancos, para as minhas rugas que denunciam a minha idade e dão a cama ao jovem, acompanhado do pai que, ao encontrar a enfermeira de serviço no corredor, lhe entrega um envelope com um cartão identificado como o doutor fulano de tal com uma palavrinha a recomendar o filho e onde se encontra também uma notinha de 100 euros. Vamos ver se há ainda uma caminha livre, sô doutor. Claro que vai haver, nem que tenham de telefonar ao Ikea para a virem entregar.

Já percebi, que para poder sobreviver neste Outono e sobretudo no Inverno, tenho de hibernar. Será a minha melhor protecção. E não há nenhum mal nisso. Há outras criaturas que o fazem também: o ouriço-cacheiro (que nome tão bonito!), as doninhas, os sapos, as formigas…

No Verão ainda se compreende que se empregue a palavra confinamento, mas no Inverno prefiro o termo hibernação. Aliás, todos os anos, por esta época, isolo-me como um verdadeiro carmelita e é o período mais produtivo do ano. De manhã cedo continuo o meu romance que interrompi no começo da Primavera, telefono para encomendar a minha refeição do meio-dia ao restaurante, perto da minha casa, que já ganhou uma estrela no Michelin e que confecciona, por um óptimo preço, uns deliciosos almoços. A sesta é pela uma e meia. Leio um dos cinco livros que estão no meu programa. À noite, vejo a minha série preferida. Nem ouço as notícias… É só Covid para aqui, Covid para ali!

Nem saio de casa! A minha casa em Bruxelas é o meu ninho. Mas é sempre aquele céu cinzento que umas vezes se adensa e deixa cair a chuva e outras se alarga e lá nos mostra, por alguns minutos, o sol. Não me posso queixar, porque foi este país que escolhi e do qual não desgosto. É o que eu respondo sempre às minhas filhas que se queixam do constante ciel si bas de Jacques Brel.

No Facebook publico as fotos que fiz no Verão, e os que não me conhecem, acreditam que levo uma vida sadia. Só tenho medo do veredicto da balança e do meu rosto cadavérico após a hibernação, mas tomarei o primeiro avião, logo que a hibernação termine, para recuperar o bronze numa ilha das Caraíbas. Tenho de me impor uma refeição e meia por dia e mesmo assim, já sei qual é a minha natureza. Como diz a minha filha mais velha: papá, tu engordas só ao olhares para a comida.

Não tenho medo. Vou começar hoje o meu programa de hibernação. O tempo vai passar depressa. E quando apontar a Primavera, a vacina do Covid já está à minha espera.