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Janeiro é o mês dos divórcios /premium

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Se é verdade que um país que não produz cultura não pensa sobre si mesmo, um país que assiste passivo a uma televisão - ou ouve inanimado uma rádio – também se demite de se sentar à mesa.

Os psicólogos – essa entidade que doravante definirei como salvadores da Pátria – dizem que o final do ano e a euforia do recomeço posicionam os cidadãos na direcção do fervor revolucionário. Queremos mudar de vida. Mesmo que até gostemos do que se está a passar. Sobe-nos a labareda da purga e acabamos – achamos nós – salvos pela beleza de um dia inteiro e limpo. Tudo isso muito discutível, claro. Veja-se em anexo a sua vida.

Ninguém sabe o que mora dentro das passas, mas comemos doze na esperança de um gatilho mágico, não é? Vai ser desta que vamos viajar. Vou encontrar o amor. Vou ser aceite pelo que sou e não vou dar satisfações a ninguém! Quero lá saber! Vou vestir-me só de amarelo! *uck it.

Cristina Ferreira deverá ter comido as suas passas na Malveira de forma voraz, embora, queira o destino comprovar que Cristina é de facto uma humana, e não uma super-heroína com toque de Midas, o nervosismo de uma estreia lhe deva ter dado alguma falta de ar. Sei que a mim até amigdalites provoca, mas já estou melhor, obrigado.

Calma. Isto não é um click-bait absurdo. Não menciono CF em vão. Nem divórcios!

Sabemos como a reputação da televisão generalista pode ser entendida como dúbia. É aquele restaurante de onde nos lembramos de haver um bom bife, mas onde suspeitamos que as frigideiras não vêem detergente desde a última visita de Ljubomir. O que é uma injustiça. Há muita gente a trabalhar em televisão que o que mais desejaria seria nem sequer usar frigideiras e fazer tudo a vapor para saber melhor e nutrir o espírito.

De cozinha percebo pouco, de televisão e frigideiras alguma coisa. Há anos que matamos a televisão generalista na certeza já consagrada por uns quantos livros com capas chatas que o daytime está dêmodê. Aquilo não é para nós. (Quem somos nós, já agora?). Só as avós e os desocupados é que se sentam em frente da televisão acicatados pela crónica criminal e pelo 760. Que horror. Que passado. Então, e o Netflix? Então, e o Spotify? Mas eu alguma vez vou ligar ao que um apresentador de televisão ou de rádio tem para me dizer? Jamais.

Estou a exagerar. Milhões de pessoas sintonizam todos os dias rádios e televisões. E muitos outros milhões sintonizam todos os dias rádios e televisões e fingem que não, embora saibam bem que segunda-feira o Presidente da República ligou para uma apresentadora de televisão, em directo.

E é aí que o divórcio e Cristina Ferreira chocam e percebemos que ficar num casamento com a televisão generalista é possível. E desejável. Que Cristina é influente, sabemos. Que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa terá muitas outras coisas para fazer, intuimos. Nem podemos duvidar. Ainda assim, como é que conseguiu estar em Cabo Verde para dar aquele abraço? Mais um insondável mistério made in Cascais.

Contudo, aquilo que surge como improvável é o telefonema que sela a importância do momento: uma figura de Estado ligou para uma figura do Entretenimento. E porquê? Porque, no fim do dia, ainda acreditamos no poder de uma história contada em televisão. Marcelo sabe-o, Cristina Ferreira vive-o.

Janeiro é o mês dos divórcios, certo? Olhando para as audiências dos últimos anos concluimos que a fé na miratécnica já foi maior, mas vemos a fome de sempre: queremos encontrar-nos uns com os outros num espaço comum.

Aquilo que Cristina Ferreira representa – e tantos outros extraordinários comunicadores – é a ideia clara de que haverá sempre espaço para o daytime que ninguém vê (?) mas que toda a gente sabe onde mora. O que nos dá segurança mas que também nos deve responsabilizar.

Se é verdade que um país que não produz cultura não pensa sobre si mesmo, um país que assiste passivo a uma televisão – ou que ouve inanimado uma rádio que não lhe diz nada – também se demite de se sentar à mesa. A rádio e a televisão são isso: grandes mesas onde nos podemos sentar e para as quais devemos contribuir para não dizermos no fim do jantar que ninguém reparou nos vidros que estavam perdidos dentro dos ovos.

Às vezes estão mesmo lá e têm suásticas tatuadas ou escondem exploração da desgraça ou revelam a beleza da empatia ou até nos deixam a faísca necessária para nos fazer sonhar. Uns ovos podem ter muita coisa lá dentro. Mas só vamos descobrir o quê e pensar sobre o que é ou não digerível e aceitável se ligarmos a televisão e virmos o que lá está.

Rui Maria Pêgo nasceu em Lisboa e tem 29 anos. Trabalha há 10 anos em rádio e televisão. Em 2015 criou a série Filho da Mãe e em 2017 estreou-se no teatro com a peça “Avenida Q”. Apresenta todos os dias o programa Snooze, na rádio Mega Hits do Grupo Renascença, das 6 às 10 da manhã.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

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