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O poke mental e as redes sociais

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Há quem diga que no amor e na guerra não há limites nem regras. E nas redes sociais? Estamos a tornar-nos mais empáticos ou mais violentos? Emocionalmente mais inteligentes? Tenho as minhas dúvidas.

Caro leitor, leia este artigo como um poke!

O que é um poke? Não é um desenho animado japonês que podemos enfiar dentro de uma bola de plástico com mais arrumação do que um armário sueco. Não estou sequer a falar do jogo que estalou como chão de tijoleira em Agosto e se propagou pelo mundo inteiro tornando recorrente a busca por um Charmander debaixo de uma septuagenária no metro.

Não é o Pokémon ou o Pokémon Go. Não é bem disso que estou a falar. Atiro-me mais para a função algo perturbadora que o Facebook permite e que funciona quase como um piscar de olho num bar. Ainda há alguém que pisque o olho num bar sem temer uma providência cautelar? Sim, há, o poke.

Serve para nos aproximarmos de alguém que existe numa rede social. Porque estamos lá todos, não é? Aliás, será possível não estar de alguma forma presente?

O leitor terá amigos que não têm sequer um smartphone. Namorados ou namoradas que não têm interesse em saber qual a nova polémica a deflagrar dentro do clã Kardashian ou se o Presidente Donald Trump liberta ogivas enquanto come bolo de chocolate. Pode até equiparar a ideia de abrir um Instastory a um convite ao demónio para ir jogar raquetes consigo à praia.

O leitor pode detestar redes sociais, mas a verdade é que estamos quase todos lá. Quase todos temos um perfil numa rede social para ir deitando um olho a uma narrativa comum – aquilo de que se fala – como factor de identificação, como potenciador de small talk e/ou até de possíveis interesses amorosos.

Não me parece haver dúvidas de que o romance pós-moderno é rápido, ilustrativo e asmático: respira com dificuldade no meio de um mar que não tem apenas peixes. Tem tubarões altamente experimentados na criação de uma persona pública, na lógica da mitificação do que se é em função do que se quer. Peritos e peritas em fenómenos como o ghosting. A situação pode ser familiar para muitos: conhece-se alguém, trocam-se números de telefone, vai-se a vários encontros, começa-se um relacionamento e tudo parece ir muito bem até que, de repente: silêncio. A pessoa que nos fazia ovos mexidos pela manhã é sugada por um vórtex para nunca mais ser vista.

Sem aviso, sem possibilidade de retaliação, sem “fica com a minha password do Netflix até Junho”. É o “foi comprar tabaco e nunca mais voltou” de 2017? Sim. Com a diferença que nem conseguimos dizer que ele ou ela fumava demais.

Há quem diga que no amor e na guerra não há limites nem regras. E nas redes sociais? Estamos a tornar-nos mais empáticos ou mais violentos? Emocionalmente mais inteligentes?

Tenho as minhas dúvidas. Para tirar isso a limpo estive dois meses desligado de redes sociais e smartphones. Convém trazer para o exercício alguns dados: sou membro da rede social Facebook desde 2007, Twitter desde 2008, Instagram desde 2012. Fiz todo o caminho habitual até aí: IRC, MSN Messenger e Skype. Até um beep tive. Sou o chamado millennial. Trabalho em comunicação com o mundo e estar online é essencial para o meu trabalho diário em rádio e televisão.

Para entrar nesse terreno obscuro que é a vida sem 3G, comprei um telefone sem acesso à internet – o agora chamado “stupidphone” — e vivi tudo aquilo que se pode esperar na tentativa de largar uma dependência: primeiro, o alívio, depois a sensação de ressaca, pelo caminho a noção de isolamento e, por fim, a vontade quase sobrehumana de voltar a pecar.

As reacções não se fizeram esperar e vieram de todas as esferas. No plano pessoal, poucos amigos conseguiam perceber porque é que não queria receber fotografias, vídeos ou desabafos de alma a qualquer altura do dia. No plano profissional, fui admoestado por não estar presente no WhatsApp e por isso contactável a qualquer altura.

Posso garantir que o caminho foi sinuoso, mas não exactamente um calvário. Não tive acessos de raiva nem senti o silêncio como uma doença. As minhas relações pessoais verdadeiras fortaleceram-se, as profissionais adaptaram-se e a lógica da nossa eterna disponibilidade foi posta de parte.

A minha micro-experiência social pode ser um secador para si que está a ler isto, mas o meu ponto é este: ponderarmos sobre o que retiramos da ligação entre todos, do valor da partilha numa arena do tamanho de uma rede social – o mundo – pode mudar a maneira como vivemos em sociedade.

Todos conhecemos cenários escabrosos que nos entram pelo feed adentro. Pactuar com a sua disseminação pela vontade de choque ou de like é útil?

No fundo, parece-me que para o futuro do que quer que seja – neste caso de social media – a nossa responsabilização sobre as publicações que fazemos deve existir na proporção directa ao nosso posicionamento num mundo sem ecrãs.

Atropelar alguém continua a ser um crime.

Perguntava-me o Global Shaper João Marecos, na semana passada, se fazer parte de uma rede social significa abdicar de privacidade. A minha resposta: sim. É inevitável.

Podemos gerir o que damos, mas se nos partilhamos não abdicamos de algum tipo de muro? Isso não tem de ser mau. Pode ser um gatilho de mudança.

Até porque as palavras importam.

Rui Maria Pêgo nasceu em Lisboa e tem 28 anos. Trabalha há 9 anos em rádio e televisão. Em 2015 criou a série “Filho da Mãe” e este ano estreou-se em teatro com a peça “Avenida Q”. Faz parte da curadoria para 2018 dos Global Shapers de Lisboa e desenvolve, entre outras acções, o projecto “Shapers Academy”.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens lideres da sociedade Portuguesa. Para melhor conhecer a relevância desta comunidade internacional recomendo a visualização do seguinte vídeo:

Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respectivas áreas de especialidade, como aconteceu com este “Poke Mental”. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor e não vincula os Global Shapers de Lisboa. Já na próxima semana, o Global Shaper David Braga Malta apresentará um artigo alusivo à importância da inovação em Portugal. Portanto, não resisto em deixar-lhe aqui uma provocação: inovar pode ser um business em Portugal? Ou estamos condenados a não ter espaço e mercado para dar continuidade ao que de novo se cria?

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

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