As eleições presidenciais de 2026 partiram de um contexto de forte fragmentação política, em particular no centro-direita — onde não incluo a direita radical. Essa fragmentação permitiu ao eleitorado uma escolha mais ampla, potencialmente mais próxima da sua ideia de representação ideal.

No espaço do centro-direita e da direita democrática, o confronto central colocava frente a frente duas visões de país. Por um lado, a ambição de imaginar um Portugal diferente — mais reformista, inovador, irreverente e aberto ao futuro. Por outro, uma visão de estagnação, avessa a reformas e defensora do statu quo do “centrão” tradicional. Em paralelo, esta fragmentação permitiu aos candidatos posicionarem-se de forma clara no eixo socialista/anti-socialista e, sobretudo, no plano da defesa das liberdades democráticas.

Até ontem, parecia consolidar-se a perceção de três candidaturas capazes de gerar dois cenários possíveis de segunda volta: um primeiro, entre socialismo e anti-socialismo, dentro de uma base democrática (Seguro vs. Cotrim); e um segundo, mais profundo e decisivo, entre liberalismo e anti-liberalismo (Seguro ou Cotrim vs. Ventura). Este último cenário não é apenas mais um. É o cenário decisivo, porque ultrapassa qualquer enquadramento ideológico estritamente social, económico ou político. Trata-se, essencialmente, de uma luta de valores.

Contudo, bastaram poucas horas após os resultados para surgir uma preocupação legítima quanto ao caminho que poderá ser seguido. A forma como se começou a falar de uma eventual segunda volta — marcada por uma alegada “neutralidade” — terá, previsivelmente, consequências nefastas para a Iniciativa Liberal no médio e longo prazo.

Fui Conselheiro Nacional durante dois anos. Já não exerço qualquer cargo partidário, mas continuo a ter uma responsabilidade clara: sou membro da Iniciativa Liberal. E é precisamente por isso que afirmo, sem ambiguidades, que a Iniciativa Liberal existe, antes de mais, como contraponto democrático e liberal ao projeto anti-liberal do Chega. Esse papel é estrutural, fundacional, e está acima de qualquer estratégia eleitoral de curto prazo ou de um anti-socialismo tático. O combate ao socialismo faz-se dentro do campo democrático; o combate ao anti-liberalismo faz-se traçando linhas vermelhas claras.

Num cenário de segunda volta entre Seguro e André Ventura, a ausência de um apoio inequívoco não será interpretada como neutralidade. Será lida como abdicação. Abdicação do papel histórico da Iniciativa Liberal enquanto garante do espaço liberal e democrático à direita. Ao não assumir esse contraponto, a IL deixa um vazio — e os vazios políticos, como a experiência europeia demonstra repetidamente, são rapidamente ocupados pelos extremos.

O precedente do Ciudadanos, em Espanha, é particularmente elucidativo. O famoso “no es no” a Pedro Sánchez não protegeu o liberalismo espanhol. Pelo contrário: empurrou Sánchez para acordos à esquerda, normalizou soluções políticas mais radicais e abriu espaço à ascensão do Vox à direita. O centro liberal perdeu função, perdeu aliados e, por fim, perdeu eleitores.

Repetir esse erro em Portugal teria efeitos semelhantes. Um não-apoio a Seguro numa segunda volta contra Ventura não enfraqueceria o socialismo; enfraqueceria o liberalismo. Reforçaria a narrativa de que a Iniciativa Liberal é apenas uma força anti-socialista, incapaz de traçar linhas vermelhas democráticas claras, e permitiria ao Chega consolidar-se como o único polo político à direita do PS. O resultado seria previsível: maior polarização, fortalecimento dos extremos e erosão do espaço liberal que a IL foi criada para ocupar.

A Iniciativa Liberal chegou a esta encruzilhada porque, ao longo dos últimos anos, privilegiou esse anti-socialismo em detrimento da afirmação plena do seu projeto liberal. Hoje, essa opção cobra o seu preço. Ou assume, de forma clara e pública, as linhas vermelhas que a definem, ou aceita a irrelevância estratégica do espaço onde se foi colocando.

Num momento como este, a escolha não é entre tática eleitoral e princípios. É entre cumprir a função histórica da Iniciativa Liberal ou abdicar dela — com consequências que se estendem muito para além de uma eleição presidencial. O liberalismo não sobrevive à neutralidade quando está em causa o próprio quadro democrático.

Porque, no fim, a questão não é apenas eleitoral. É identitária. Antes de sermos anti-socialistas, somos humanistas. E é por isso — e só por isso — que somos liberais.