Na Conferência de Segurança de Munique, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, alertou que a maior ameaça ao Ocidente já não vem do exterior, mas sim da erosão interna dos seus valores democráticos. O seu discurso, centrado na liberdade de expressão, foi recebido friamente na conferência, mas incendiou as redes sociais.
Na base da sua mensagem, estavam ideias pouco controversas: que as pessoas se preocupam com a sua vida, as suas comunidades, aspirações, segurança e subsistência. E essas preocupações devem refletir-se na forma como as sociedades são governadas.
A democracia assenta num princípio sagrado: a voz das pessoas conta. O poder emana do povo e só é legítimo quando validado por mandatos populares. Aos políticos cabe a missão e o privilégio de exercer o poder de forma responsável para melhorar a vida dos cidadãos. Isso exige escutar, responder e ser consequente. Assim se reforça a democracia, legitimando soluções para os grandes temas sociais e alcançando resultados sustentáveis.
Mas para que o processo democrático funcione plenamente, é essencial garantir um ambiente onde o debate seja livre. A liberdade de expressão — o direito de cada um exprimir a sua consciência, em especial opiniões políticas, sobretudo quando desafiam os poderes instituídos, sem represálias políticas — é um princípio inegociável da democracia liberal. Não é apenas o direito de exprimir o que pode não ser consensual, mas também o de ouvir o que desafia as nossas próprias convicções.
No entanto, o discurso de Vance não se limitou a princípios democráticos. Tocou em questões concretas que têm dividido sociedades ocidentais e provocado tensões políticas, dentro e fora da Europa. Foi aqui que o ambiente na sala azedou.
Desde logo, a guerra na Ucrânia. A nova administração americana tem divergido das posições europeias e insiste que a Europa assuma maior responsabilidade na sua própria defesa. Embora tenha reconhecido a propaganda russa na desestabilização regional, Vance criticou a facilidade com que as autoridades europeias recorrem à censura, alinhando-a com as suas políticas para as redes sociais.
Mencionou ainda casos de perseguição judicial à consciência religiosa na Suécia, Inglaterra e Escócia. Referiu o bullying governamental sobre empresas para cancelar vozes incómodas em temas fracturantes, incluindo durante a pandemia. E denunciou a exclusão de partidos não-moderados do debate político — inclusive daquela própria conferência.
A referência ao ataque terrorista do dia anterior, associando-o à imigração descontrolada, foi o momento de maior tensão. Apontou que a imigração em massa foi uma decisão política, que nenhum eleitor teve oportunidade de aprovar — e que, perante a falta de respostas às suas preocupações, os cidadãos votaram pelo Brexit e estão a eleger partidos que prometem travar o fenómeno.
Vance alertou que a classe política europeia ignora activamente as preocupações e aspirações de milhões de pessoas, tratando-as como peças intercambiáveis. Mas estas pessoas não estão resignadas e começam a fazer ouvir a sua voz na contestação crescente às elites políticas.
Para Vance, esta desconexão política tem consequências. Voltou à ideia do mandato popular: este não se constrói com censura, prisões por pensamento errado, fecho de media, condicionamento de eleições ou exclusões do debate público. Não se impõe o que pensar, sentir ou acreditar — e ignorar preocupações legítimas não as faz desaparecer, apenas alimenta a frustração e a desconfiança. Longe de proteger a sociedade, este modelo fragiliza a prosperidade, a justiça social, a democracia e, em última instância, a própria civilização.
Denunciou que os europeus parecem temer o futuro, os eleitores e a possibilidade de que estes expressem opiniões que desafiem a sua liderança. Não querem aceitar que alguém com um ponto de vista alternativo possa ter voz, votar de outra forma ou, pior ainda, vencer eleições.
Mas Vance rejeitou a ideia de que esta situação é inevitável. Afirmou que, se as pessoas devem ter voz, os líderes têm opções. E reiterou que, apesar das divergências políticas, americanos e europeus continuam na mesma equipa, partilhando valores fundamentais e a responsabilidade de lutar por uma visão positiva do futuro — uma visão que exige liberdade para surpreender, errar, inventar e construir.
Este discurso motivou uma torrente condenatória de múltiplos responsáveis políticos, que logo acusaram o vice-presidente americano de interferência política em assuntos europeus, e de estar a fazer o jogo dos populistas antidemocráticos.
A nova administração americana tem, sem dúvida, posições extremamente questionáveis sobre temas geopolíticos que interessam à Europa. Mas, incompreensões perigosas à parte, é um absurdo sugerir que os EUA não consideram a Europa um espaço de valores comuns, um parceiro comercial formidável e um aliado político essencial na luta contra regimes opressivos. Pelo contrário, querem uma Europa mais forte e capaz de enfrentar, de forma soberana, não apenas ameaças externas, mas também os desafios internos que minam a sua estabilidade.
É um facto que enfrentamos ameaças reais à nossa forma de vida. Os nossos inimigos, que odeiam os nossos valores – de liberdade, democracia, comércio, convivência – , nada mais querem do que ver-nos abdicar deles. Temos de enfrentar, decididamente, ameaças militares, campanhas concertadas contra as nossas instituições, movimentos de fracturação social.
Contudo, importa muito como combatemos esses monstros — há uma batalha pela nossa alma. A nossa escolha é entre continuarmos democracias liberais e espaços de liberdade ou sucumbirmos a autoritarismos mesquinhos e transformarmo-nos em algo repulsivamente irreconhecível.
A liberdade de pensamento e de expressão são inseparáveis. Quando se limita o que pode ser dito, limita-se também o que pode ser pensado, e concebido. A conformidade é a carcereira da liberdade e a inimiga do crescimento. E precisamos de crescimento para garantir um futuro com maior prosperidade e uma coexistência mais enriquecedora entre ideias, projetos e formas de vida diferentes.
Ouvir críticas — internas, de partes interessadas, das forças vivas da sociedade, dos agentes económicos e do eleitorado — não nos enfraquece. Pelo contrário, é essencial para uma governação legítima e eficaz. Descartá-las compromete não só a resiliência das soluções políticas, mas também mina a confiança pública e fragiliza a própria democracia.
A Europa parece não perceber que a liberdade de expressão é essencial para ouvirmos, rebatermos e derrotarmos convictamente aqueles que querem quebrar o nosso espírito. Para sermos mais fortes perante quem nos quer fracos. Para podermos ser intolerantes com a intolerância. Para podermos defender as liberdades, direitos e garantias de que usufruímos nas democracias liberais. Para sermos livres.
No passado, o Ocidente liberal enfrentou e derrotou inimigos formidáveis, à custa de grandes sacrifícios, unindo forças diversas em torno dos valores da democracia e da liberdade. Aprendemos o valor da consciência, da denúncia e da dissidência — da coragem de enfrentar o autoritarismo e dizer “não serei como tu”.
Tenhamos, hoje também, a coragem de enfrentar boçais e tiranetes. Mas, sobretudo, saibamos ouvir e responder às pessoas, com a liderança que esperam de nós.