Lisboa tem enfrentado, nos últimos anos, uma crise profunda no seu património comercial, marcada pelo encerramento sucessivo de lojas históricas que, durante décadas, ajudaram a construir a identidade e a memória da cidade.
Existem exceções que demonstram que é possível conciliar renovação com respeito pelo ADN urbano. A Pastelaria Patriarcal vai integrar o futuro Hotel Valverde, no edifício da antiga Pensão Londres. A Tascardoso, na Rua do Século, será a nova morada do restaurante Faz Frio. Mas estes casos são raros. O fecho da pastelaria Cister, que mesmo descaracterizada na sua ultima renovação, foi fundada em 1838 e frequentada por Eça de Queirós que comia sempre um pastel de nata antes de descer o Chiado, ou a ameaça à Ginginha Sem Rival, no Rossio, reforçam um alerta inevitável: até quando pode Lisboa continuar a perder estes espaços históricos sem
comprometer a sua própria identidade?
Os números são claros. Em 2023, encerraram 16 estabelecimentos emblemáticos, o pior registo das últimas três décadas. Entre 2000 e 2023, Lisboa perdeu 82 lojas históricas. O aumento das rendas, a pressão de um turismo massificado e a ausência de mecanismos eficazes de proteção ajudam a explicar o fenómeno, mas não o justificam.
A lógica do mercado tem prevalecido sobre espaços que não são meros pontos de venda, mas elementos centrais da identidade urbana. O programa Lojas com História, da Câmara Municipal de Lisboa, representa um reconhecimento importante, mas insuficiente. Distinções simbólicas não garantem sobrevivência face a rendas incomportáveis; são necessários apoios financeiros, incentivos fiscais e um enquadramento legal que permita intervir em situações de risco iminente — afinal, como defendia Jane Jacobs, urbanista e autora de Morte e Vida de Grandes Cidades, a diversidade de pequenos negócios e a vitalidade das ruas são essenciais para a vida urbana e para a segurança da cidade.
Outras cidades europeias oferecem exemplos a seguir. Em Paris, a autarquia adquire lojas históricas e espaços de comércio local para preservar a diversidade, apoiar pequenos negócios e garantir bairros vivos. Esta estratégia reforça o carácter único da cidade, incentiva a circulação pedonal e sustenta uma economia urbana mais equilibrada.
Portugal precisa compreender que a perda destas lojas não atinge apenas a cultura e a tradição: compromete também a economia, o turismo e o emprego. Que valor tem um destino que abdica da sua autenticidade em troca de uma uniformização global? Lojas históricas como Paris em Lisboa, Luvaria Ulisses ou Caza das Vellas Loreto — que faço questão de continuar a frequentar — sobrevivem não pela utilidade dos produtos, mas pelo vínculo que estabelecem com quem as frequenta e pela continuidade do seu carisma insubstituível.
A juntar ao colapso, a gentrificação e a proliferação de negócios exclusivamente turísticos, como lojas de recordações genéricas, descaracterizam bairros inteiros. Critérios rigorosos na atribuição de licenças — o licenciamento zero já não faz qualquer sentido — são essenciais para preservar diversidade, autenticidade e equilíbrio comercial.
A responsabilidade não é apenas das autoridades. Os lojistas também desempenham um papel decisivo. Manter uma loja histórica no século XXI exige adaptação: formação em gestão, modernização de infraestruturas e atenção à experiência do cliente. Redes de colaboração entre comerciantes permitem estratégias conjuntas de promoção e apoio mútuo, reforçando a resiliência face à concorrência.
O poder público deve garantir que as regras de proteção do património não se limitem ao plano simbólico. Impedir intervenções que descaracterizem espaços históricos, criar fundos de conservação e acompanhar a realidade destes estabelecimentos são medidas essenciais. Sem esta vigilância, qualquer política corre o risco de permanecer apenas no papel.
Lisboa não pode continuar a perder as suas lojas históricas a este ritmo. Preservar um estabelecimento histórico é proteger a identidade de uma cidade, a memória coletiva e o futuro cultural e económico de Portugal.