Mais de três décadas do regime hiper-keynesiano de Alberto João Jardim empurraram toda uma oposição, genuinamente Keynesiana, ao contorcionismo da opção pela contestação do modelo que idolatram. Alberto João e o seu PSD Madeira, de centro direita na ideologia e de esquerda na governação, esvaziaram de sentido toda a oposição regional, incluindo o CDS, que caiu na armadilha escoltando a onda do discurso esquerdista. Foi com este modelo de políticas económicas intervencionistas, de estímulos de carácter permanente, alavancadas nos impensáveis e inesgotáveis fundos da EU, aplicados em doses maciças no betão, que a Madeira atingiu o 2º mais alto PIB per capita do País, logo a seguir a Lisboa e bem acima da média nacional e da UE.

É neste contexto que os candidatos às eleições regionais, todos assumidos opositores do Jardinismo, incluindo o próprio candidato do PSD, vêm prometer um novo ciclo de crescimento económico, com menor austeridade e mais democracia, maior sensibilidade social e, acima de tudo, um ciclo não keynesiano; Ou seja, advogando o fim das obras públicas como meio e fim de suporte a uma economia artificial (feriram gravemente a competitividade estrutural do turismo, sector central da economia regional), mas bem real no poder de compra da população até a crise se instalar.

É também neste quadro de um nível de poder de compra da população acima da média nacional e europeia (mas com um desemprego excessivo), que todos os partidos que concorrem às eleições contra o modelo ultra-estatista de Alberto João Jardim, não conseguem apresentar propostas de modelos alternativos que garantam uma economia capaz de manter este poder de compra. Pior, todos os partidos, do PSD à oposição, sem excepção, ao clamarem que o nível de rendimento dos madeirenses está abaixo do minimamente aceitável, armaram uma armadilha de expectativas utópicas a si próprios e a toda uma população habituada aos “sucessos” de um modelo económico que tem sobrevivido na base das cirurgias plásticas.

Afinal, uma ilha que viveu as últimas décadas na ilusão da riqueza das transferências financeiras exógenas, mas sem criar riqueza endógena sustentável para o PIB actual superior aos 5.000 milhões. Ou, se preferirmos, o drama da ilusão de uma população cuja riqueza “real” não tem paralelo no seu efectivo engenho produtivo.

Dura realidade que impôs a todos os partidos viciados na demagogia, da direita (só na convenção mediática, pois na prática não há direita na região) à esquerda, a apresentarem-se ao eleitorado com propostas de mera cosmética, transversais no conteúdo e divergindo somente na forma, mas de forma até impercetível.

Um Ferry para garantir as ligações com o continente – a grande bandeira de todos os partidos – que dependerá de subsídios e que não irá mudar o que quer que seja na substância da economia regional. Um novo hospital cujo mega investimento ninguém sabe onde irá encontrar fontes de financiamento, mas certamente a principal prioridade da região. Maior competitividade nos transportes marítimos e o fim do monopólio das operações portuárias, sem que qualquer partido apresente um modelo claro que resolva o problema de raiz.

A renegociação com a república do PAEF com vista à redução dos encargos financeiros por forma a permitir, não o fim da austeridade, mas sim a continuidade do excesso de peso do governo na economia e o mesmo número de funcionários públicos, os eleitores VIP.

A Economia do Mar, esta sim uma grande oportunidade mas de resultados em horizonte ainda não descortinável. Por fim o Turismo – sector nuclear – onde saltam propostas plagiadas uns dos outros, mas raras na convicção acérrima da recuperação estrutural da competitividade do destino – autenticidade, identidade e atractividade do macro produto.

E “last but not the least” o projecto de competitividade fiscal diferenciada como única forma de garantir riqueza a uma região com insuficiências produtivas. Um brilhante artificialismo que deve ser testado e certamente a única proposta materialmente relevante, mas que não resolve os problemas da sustentabilidade estrutural da economia regional, e que, queiramos ou não, é efémero. Existirá enquanto o país e UE permitam que assim seja.

Quanto a privatizações, nem pensar em propostas liberais!

Em síntese, temos eleições com todos os partidos contra o regime estatista de Jardim, mas sem respostas que garantam que a Madeira possa manter de forma consistente – resultante da sua real e endógena produtividade – a riqueza actual.

Para agravar, todos os partidos querem oferecer-nos, a nós madeirenses, mais autonomia, paradoxalmente com propostas na sua maioria dependentes de fundos externos. É o conflito da ambição autonómica de uma população adicta aos subsídios e a um Governo proteccionista. Estamos perante a equação de promessas impossíveis e de novos surtos emigratórios (matéria tabu, não referida em nenhum programa, mas central para a equação da economia regional).

Ou seja, tudo se jogará na forma: conseguir atrair os melhores e mais credíveis quadros por forma a ganhar junto do eleitorado a percepção de uma efectiva capacidade governativa, em particular, de uma capacidade de influência nacional que garanta os fundos necessários à “autonomia”.

As sondagens mais recentes apontam para uma maioria absoluta de Miguel Albuquerque, o que não é nenhuma surpresa tendo em atenção que foi o único candidato que percebeu que o que o povo quer é “Renovação”, deixando tudo igual no conteúdo (apesar de impraticável) e tudo diferente na forma.

O PS de Vítor Freitas apostou numa coligação disfuncional, mas igualmente numa proposta errada: o slogan “Mudança”, conceito que sem o charme do Paulo Cafofo, só vai gerar receio num eleitorado que não quer mudar nada na substância.

Por outro lado, as recentes sondagens também reflectem o facto de ter sido a determinação de Miguel Albuquerque, e não a oposição, que derrotou internamente o Jardinismo. Não menos relevante, foi a capacidade que demonstrou ao conseguir atrair os quadros mais conceituados, alguns independentes e de grande credibilidade profissional.

Para ajudar ainda mais o candidato do PSD, um PS ansioso aposta em colocar em 3º plano os seus quadros de 1º plano, ensaiando uma nova teoria da inversão da hierarquia das elites.

Por seu lado o CDS, depois de ter conseguido nas últimas eleições chegar a 2º força política e 1º partido da oposição, decide jogar à defesa com o débil slogan “A Força da Madeira” apostando tudo em ser o grande dos pequenos, o adjunto de quem o quiser, com preferência clara para quem, paradoxalmente, definiu como alvo das suas mais contundentes críticas – o PSD.

Quantos aos restantes partidos temos o JPP que irá aproveitar a coligação “Mudança” para “mudar” alguns assentos parlamentares do PS a seu favor. A CDU e o BE, que mantêm a aposta na consistência reacionária, estática e imutável dos partidos de matriz não democrática. O PND diferenciando-se pelo espírito guerreiro e humorístico que poderá ver premiado com a continuidade parlamentar, e por fim um mosaico de partidos, todos da mesma cor, da iliteracia política.

Ao Miguel Albuquerque, caso as sondagens se confirmem, cabe a “Mudança” do PSD, do Governo, da ditadura dos monopólios estratégicos de grupos privados oriundos do regime em fim de ciclo, da percepção originária de crítica internas em relação à sua permeabilidade aos referidos grupos, e cabe também mostrar a sua capacidade de liderança, provando ser mais talhado para funções governativas do que de autarca e, acima de tudo, demonstrar a consistência e maturidade sustentável do seu programa.

Ao PS competirá a “Renovação” da liderança para que se constitua, no futuro, numa alternativa renovada e credível, o que muita falta faz à Madeira.

Ao CDS, a “Força” de vontade para renovar a ambição de querer ganhar eleições.

Aos micropartidos restará a solução de uma mega coligação para se tornarem num mini partido que continue a luta contra o Jardinismo que, tendo-os alimentado, já chegou ao seu fim.