Quando grande parte do país esperava, ou temia, que nas últimas eleições autárquicas o Chega do Dr. Ventura fizesse tremer até as pedras da calçada de dezenas de municípios, eis senão quando a curta vitória em três singelas câmaras municipais deixou o meio político em comemorado alívio. Afinal, não, o Chega não é só vitórias atrás de vitórias até à vitória final. Afinal, dizem, o bi-partidarismo que Ventura ameaça está vivo e de grande saúde. E, concluem, é aqui, nas autarquias, que reside a estratégia e o modo como se contém a ameaça da “extrema-direita”. Agora, crê-se, “política de proximidade”, “equipas ligadas aos reais problemas das populações”, “programas práticos e compreensíveis”, “candidatos reconhecidos na rua”, é que compõem a receita que livrará o sistema político tradicional da ameaça “Chega”.

Não me convence. Quanto a mim, no passado Domingo, consolidou-se uma mudança estrutural na dinâmica eleitoral nacional com um potencial para poder vir a ser muito maior. Mas para ver isso é preciso fazer como em Moneyball, o filme de 2011 com Brad Pitt e Jonah Hill, e esquecer as narrativas, olhar estritamente para os números e partir do zero. Entre 2011 e 2015, durante os anos de Passos Coelho em que Ventura ainda pululava pelos corredores do PSD, o equivalente à agora AD, a PAF, perdeu um pouco mais de 700,000 votos. Destes, cerca de 500,000 passaram para o lado esquerdo do parlamento, distribuindo-se entre PS, CDU e BE, enquanto por volta de 180,000 acabaram na abstenção. Quatro anos depois, em 2019, após o primeiro mandato da célebre “geringonça”, a PAF, então já concorrendo separadamente, perdia mais 314,000 votos, sendo que metade destes, entre trocas à esquerda, acabaram no PS, e a outra metade de novo na abstenção. Daqui, retira-se que, entre 2011 e 2019, 340,000 votos saíram do sistema.

Estes números tornam-se pertinentes porque, em 2022, 312,000 votos reapareceriam nas urnas de voto. Se esses votos recuperados eram os votos perdidos da PAF ou não, isso é impossível de saber. Agora, que nessas eleições, após os brilharetes de Ventura e Cotrim de Figueiredo enquanto deputados únicos, o Chega cresce cerca de 330,000 votos e a Iniciativa Liberal à volta de 200,000, essa é a realidade. Haverá, obviamente, comunicação entre os diversos partidos, pelo que votos entrados no sistema não vão necessariamente cair no partido que mais sobe. Mais ainda, os votos novos no sistema não são suficientes para justificar todo o crescimento de Chega e IL pelo que estes terão ido buscar também votos aos partidos pré-existentes no sistema, em particular a um PSD de Rio colocado no “centro-esquerda” e a uma Cristas ziguezagueante. Agora, que há uma elevada probabilidade de haver uma ligação entre o crescimento exponencial destes dois partidos e a recuperação do número de eleitores, isso será uma hipótese a ser considerada.

O mesmo, aliás, ocorre em 2024 de forma ainda mais notória. Aqui, o número de votantes aumenta um pouco mais de 900,000 votos. O Chega, movendo-se a par, sobe 770,000 votos. A IL cresce menos de 50,000, um resultado aquém das suas expectativas, bem como a AD que, apesar de ganhar as eleições, apenas aumenta o número de votos em cerca de 160,000. Isto significa que a direita toda junta sobe quase um milhão de votos, a maior parte dos quais provenientes directamente da abstenção e, destes, a grande maioria depositados no Chega. Esta será a melhor interpretação dos resultados, isso porque se é certo que terá havido transferências dentro do sistema entre os diferentes partidos, estas foram em número menor, cerca de 490,000 votos perdidos pelo PS que foram parar, em parte, à AD, imagina-se, bem como, voluntária ou involuntariamente, ao ADN (100,000), e, em números redondos, aos brancos e nulos (120,000), ao PAN (40,000), ao BE (40,000) e ao Livre (130,000).

Mais uma vez, muitos cenários e muitas transferências são possíveis, mas que a uma subida de 900,000 votos no total da eleição correspondeu outra tanta subida de quase 800,000 ao Chega, isso é inegável, pelo que deveremos considerar com seriedade o impacto que a diminuição da abstenção pode ter no universo eleitoral do Chega.

As eleições seguintes foram as Europeias de 2024. Aí, com a excepção da IL — melhor seria dizer de Cotrim —, todos os partidos perderam votos, o que era esperado, cifrando-se o aumento da abstenção em 2,500,000 eleitores perdidos. A AD baixa quase 640,000 votos, o PS perde mais de 540,000 e o Chega, quando, tal como nas Autárquicas deste ano, toda a gente esperava um grande resultado que elegesse entre 3 e 4 mandatos, perde praticamente 800,000 votos e elege apenas 2 deputados. Então, a justificação foi o “mau candidato” do Chega, o facto “não ser o Ventura”, o “efeito Bugalho”, mas a verdade é que não deixa de fazer muito mais sentido uma hipótese alternativa: sendo que grande parte dos eleitores das Legislativas de 24 que votaram no Chega eram abstencionistas, essas pessoas, em grande medida, teriam maior tendência para não se motivar a votar numas eleições onde, tradicionalmente, a participação é reduzida e o interesse diminuto.

Chegamos então a 2025. Aqui, nas Legislativas, regressaram às cabines de voto mais de 2,570,000 eleitores. Correspondentemente, o PS, que viria a perder clamorosamente as eleições, face às Europeias, apenas conseguiu recuperar 175,000 votos, um autêntico descalabro. Já a AD, vencedora com 32%, recuperou quase 800,000 votos. Mas o Chega, ainda que com um pouco menos de 23%, repare-se, conseguiu recuperar mais de um milhão de votos — para ser exacto, 1,051,176 dos 1,442,194 com que conseguiu eleger o segundo maior grupo parlamentar. Ou seja, se — em números absolutos, atente-se — o Chega foi o partido mais prejudicado no acto eleitoral com a maior taxa de abstenção, também foi, e por larga diferença, aquele que mais votos recuperou quando a abstenção baixou significativamente. Ainda assim, e se compararmos Legislativas 25 com Legislativas 24, percebemos que os eleitores diminuíram em cerca de 150,000, sendo que o Chega continuou a subir, no caso, um pouco mais de 270,000 votos. Isto significa, claro, que, tudo somado, o Chega tem que estar a “roubar” votos dentro do sistema, em particular em 25, directa ou indirectamente, ao PS. No entanto, as Europeias e a relação com as Legislativas aponta, mais uma vez, para uma ligação muito grande entre o Chega e a abstenção.

Neste aspecto, parece-me que as Autárquicas foram muito clarificadoras. Mais uma vez, após os célebres 23% das Legislativas, Ventura esperava um vendaval e faziam-se contas nos concelhos onde o Chega havia obtido melhores resultados nas Legislativas sobre como seria o resultado de diversas corridas camarárias a três. Na verdade, como vimos, nada disso aconteceu: o Chega apenas venceu 3 concelhos, tendo sido consistentemente a terceira força mais votada, e a grande distância. Vejamos, então, os números brutos: face às eleições Legislativas, juntando PSD e CDS, quer em coligações quer separados, vemos que o universo AD mantém mais ou menos o mesmo número de votos. O PS, esse, cresce de forma significativa mais de 380,000 votos, sendo esse acréscimo eleitoral que permitiu a José Luís Carneiro, bem como aos comentadores socialistas, passarem a noite eleitoral a congratularem-se com o resultado obtido. Este, no entanto, explica-se em larga medida pelo contexto particular das autárquicas, quer engrossado por coligações variadas encabeçadas por socialistas, quer por transferência de votos directa devido ao sistema eleitoral onde o presidente da câmara, sendo o mais votado mesmo que em minoria, privilegia o voto útil no candidato de esquerda, ou direita, com mais hipóteses de vitória — ou seja, a verdade é que este resultado não é traduzível para eleições legislativas porque foi obtido, no essencial, à custa dos partidos à sua esquerda que, em conjunto, face a 2021, em candidaturas a solo ou encabeçadas por si, perderam mais de 215,000 votos.

Do mesmo modo, a forma de eleição first past the post também terá prejudicado o Chega, é certo, agora aquilo que me parece mais relevante está longe de ter entrado na narrativa mediática: é que se é certo que o Chega perdeu à volta de 790,000 votos face às eleições Legislativas de 25 — o que explica a incapacidade de conquistar câmaras —, também não deixa de ser verdade que houve cerca de menos 800,000 participantes no acto eleitoral. Ou seja, mais uma vez o Chega é o partido que mais perde votos para a abstenção, neste caso praticamente em número idêntico. Do mesmo modo, se compararmos directamente o número de eleitores nas eleições autárquicas de 21 e 25 vemos mais uma vez o mesmíssimo sinal: de 21 para 25 apareceram nas eleições Autárquicas cerca de 500,000 novos eleitores, tal como o Chega, em quatro anos, subiu também um pouco mais de 440,000 votos.

No final, mais que as narrativas de circunstância, o que se retira da análise fria e crua dos números parece-me relativamente simples. Primeiro, o Chega apresenta resultados consecutivamente melhores em eleições Legislativas, nomeadamente a par com a descida da abstenção — directa ou indirectamente, de 2019 para 2025, o Chega arrecadou mais de 1,300,000 votos que se explicam, pelo menos necessariamente em parte, pelo aumento de cerca de 1,000,000 de eleitores. Depois, quando André Ventura não é candidato e o partido Chega se candidata em actos eleitorais onde há tradicionalmente mais abstenção, o Chega é o mais prejudicado, perdendo votos junto com o aumento da abstenção. Tal coisa significa que, o factor que mais faz variar a votação no Chega, mais do que candidatos, propostas ou temas, é o acto eleitoral em si mesmo — até agora, Ventura foi incapaz de mobilizar todo o seu eleitorado das Legislativas para outros actos eleitorais. Ainda assim, e isto é relevante, o núcleo duro eleitoral do Chega continua a crescer de forma muito significativa. Nas Autárquicas de 25, o Chega, mesmo em acto eleitoral desfavorecido pelo sistema eleitoral, conseguiu obter mais de 650,000 votos, dos quais, a par do que se passa nas eleições Legislativas, grande parte parece ter vindo da abstenção — e 650,000 votos como núcleo duro eleitoral, ainda por cima de “novos” eleitores, é uma mudança estrutural, bem consolidada já, no sistema eleitoral nacional.

Assim se desmonta grande parte das narrativas a propósito das Autárquicas que pretendem explicar a “derrota” do Chega com a qualidade dos projectos políticos apresentados pelos “partidos do sistema”. Não foi. Aquilo que impediu o vendaval do Chega foi a natureza do acto eleitoral e a incapacidade de Ventura mobilizar aquela fatia do eleitorado que parece apenas mobilizar-se nas Legislativas — e apenas para votar em Ventura. Ou seja, é um diálogo, directo e exclusivo, entre Ventura e a população, não entre Ventura e o restante sistema político que, como um todo, disputa um eleitorado, pelo menos em parte, partilhado.

Este é o dado fundamental, e uma novidade: há um enorme conjunto de pessoas — possivelmente, neste momento, a rondar em número os 700,000 — que, em determinadas circunstâncias, aparecem para dar o voto, em exclusivo, a um dos candidatos, numa relação que, nesta dimensão, se torna no principal factor a influenciar, não apenas o resultado do Chega, mas o das eleições propriamente ditas.

O que motivará verdadeiramente essa fatia do eleitorado que dialoga de forma directa, e exclusiva, com Ventura? Intuitivamente, parece-me ser a desilusão com o “sistema”, o cansaço “dos mesmos de sempre”, o fartar dos casos, da corrupção, dos escândalos e, mais que tudo, a recompensa que sentem quando vêem o seu voto reflectido num Ventura na AR, de dedo apontado, a clamar “vergonha”, no fundo, a dizer aos governantes e aos deputados aquilo que lhes vai na alma. A esses desafectados do sistema, os desiludidos com o regime, Ventura aparece como o seu interlocutor, a sua voz, sendo essa a principal força do Chega, alimentada, obviamente, pela inabilidade do “sistema” em integrá-lo — bem pelo contrário, ao isolá-lo com “linhas vermelhas” e estratégias do “não é não” garantiram-lhe o exclusivo da sua posição. No entanto, precisamente porque Ventura só há um, bem como AR também só há uma, a dimensão eleitoral do Chega no Parlamento não se tem conseguido replicar, em todo o seu potencial, no resto do país.

Vejamos, agora, o caso das eleições presidenciais. Desta nova perspectiva, há aqui dois factores contraditórios a ter em conta. Por um lado, a personalização do acto eleitoral, algo que joga a favor de Ventura — inclusive, os seus resultados nas Presidenciais 2020 chegaram a ser superiores em 100,000 votos ao que veio a obter dois anos depois nas Legislativas 22. Pelo outro lado, as eleições presidenciais, apesar de a duas voltas, igualmente resolvidas no método de first past the post, têm sido tradicionalmente menos participadas do que as Legislativas, o que pode, como vimos, funcionar contra Ventura. Assim, na medida em que aquilo que decidirá qual destes dois vectores será predominante deriva do diálogo directo de Ventura com este grande grupo de potenciais eleitores (de Ventura), então, mais que os projectos e equipas dos adversários, ou do próprio André Ventura, aquilo que se revelará decisivo, muito provavelmente, será qual a narrativa mediática contextual que irá marcar na generalidade o ambiente eleitoral.

Ou seja, se a narrativa dos candidatos for a do “votem em mim para impedir Ventura de ir à segunda volta porque isso representa o fim do mundo em cuecas e o triunfo da extrema-direita”, então, muito provavelmente, grande parte desse eleitorado desafectado, irritado, zangado com o sistema, aparecerá para votar em Ventura — e se assim for, feitas as contas, Ventura pode muito bem passar à segunda volta, em primeiro lugar, com mais de 25% dos votos. Se, por outro lado, a narrativa comum for a de que, tendo em conta os 23% das Legislativas, Ventura até tem a obrigação de passar à segunda volta, algo natural, mas “votem em mim porque se for eu a disputar com ele a segunda volta, então serei eleito presidente”, assim se esvazia o escândalo, a polémica, logo o interesse, bem como se faz passar a ideia de que ir votar em Ventura implica garantir a eleição de um terceiro — furando o balão da indignação, acabando o circo, na impossibilidade de ganhar, perante a irrelevância do acto, aquele eleitorado torna-se muito mais difícil de ser mobilizado.

No final, e aqui se vê o verdadeiro peso de Ventura, nestas presidenciais, aquilo que decidirá o seu resultado, bem como o futuro presidente da república, é a relação directa que ele tem com esse “seu” muito particular eleitorado. E uma coisa é certa: o que esse eleitorado mais gosta é mesmo de “linhas vermelhas” moralistas — porque, estando farto do “sistema”, adora votar no demónio que o põe em polvorosa.