O tempo do debate político morreu. A política já não é debate, mas espetáculo. Já não é confronto de ideias, mas competição de indignações. A sequência de reacções recentes em torno do assassinato de Charlie Kirk é apenas mais um sintoma da doença.
Pode-se gostar ou detestar o que Kirk dizia, não é relevante. Pode-se rebater com argumentos ou demolir com factos, mas acusá-lo de ser um perigoso radical apenas porque ousa entrar em cena com vontade de discutir é uma fraude intelectual. Pior ainda: é aplaudida.
O que me choca não são os comunicados oficiais, quase sempre muito polidos e politicamente correctos, mas as reações do público e dos comentadores (pseudo comentadores profissionais?). O coro moralista, sempre pronto a erguer a voz contra os “inaceitáveis”, encena virtude e distribui certificados de respeitabilidade e moral. Metade das acusações não resiste a uma verificação mínima, mas isso parece pouco importar. O que vale é o aplauso fácil, o gesto de pertença, o agitar da bandeira, aquela história de instagram e aquele comentário que enche a peitaça de vaidade de quem se mostra “do lado certo da história”.
E aqui, aqui reside o perigo. Esta esquerda que se refugia em tribunais morais não prepara a ascensão de moderados, mas o caminho da autocracia. Parece-me que hoje estes “progressistas” vivem na fantasia de um mundo por si idealizado, mas que não corresponde minimamente à realidade. Quando confrontados, recorrem apenas à violência como forma de estar.
Quando se transformam adversários em inimigos públicos, quando se criminaliza a divergência e o debate, quando se confunde discordância com ameaça, a consequência não é mais democracia liberal, mas menos. O que se planta, invariavelmente, é ressentimento e polarização. O que se planta é, invariavelmente, a ascensão de quem reúne e recolhe esse ressentimento e o usa em proveito próprio.
O problema actual é que já não se distingue se estamos perante “a esquerda” ou apenas perante estupidez coletiva. Onde está a esquerda moderada que não vejo há anos? O moralismo tornou-se a nova ideologia e nela cabem tanto militantes como oportunistas.
A superioridade moral é hoje a moeda mais valiosa das redações e das redes. Empatia e humanismo, que deveriam ser valores universais, são apropriados como slogans de guerra cultural. O resultado? Redações transformadas em pequenos conventos de ativistas disfarçados de jornalistas, que ditam excomunhões em vez de informarem imparcialmente e jornalistas de televisão que são parte do debate em vez de ser moderadores.
Entretanto, as televisões perceberam a mina de ouro: quanto mais indignação, mais audiência. Fabricam choque e drama para alimentar o ciclo noticioso. Criam os moralistas de serviço apenas para, no instante seguinte, inflar os populistas que dizem combater, esquecendo que o seu papel é o de informar imparcialmente. Até quando vamos chamar ao telejornal informação? Não é.
A engrenagem é perfeita: indignação gera polémica, polémica gera cliques, cliques geram receita. O jornalismo morreu, substituído por um teatro de orangotangos em que uns berram pela superioridade ética e outros pela indignação patriótica numa manifestação tribal.
O Governador do Utah disse-o com clareza: as redes sociais são a maior desgraça do nosso tempo. Para mim, tem razão. O espaço digital é hoje um campo de batalha em que moderados não têm voz. É sempre “nós contra eles”. Não há meio-termo, não há racionalidade. Somos todos obrigados a pensar de acordo com a “caixinha” em que nos meteram e qualquer desvio é brutalmente reprimido. Só existe tribalismo, slogan, lobby e histeria.
As redes sociais são hoje o substituto da catarse popular. Antigamente, a frustração desaguava no futebol ou em vícios mais terrenos. Hoje, descarrega-se em 280 caracteres. Jovens de 18 anos, sem experiência de vida nem densidade de pensamento, são instrumentalizados e gritam palavras de ordem que aprenderam em cinco vídeos no TikTok que depois são replicados em série para todos “comerem a mesma cartilha”. É a morte do pensamento próprio, do debate e da crítica construtiva. O resultado é violência verbal, e cada vez mais, violência física.
Entretanto, descobre-se o óbvio: há quem mate por ideias, religiões ou ideologias contrárias. A História sempre o ensinou, mas agora a descoberta é encenada como novidade do Instagram e do X.
Tenho a sensação de que o mundo perdeu o chip em 2020. Passou a acreditar que a realidade nasceu no Twitter, no Facebook e, mais recentemente, na Inteligência Artificial. A pandemia de COVID acelerou a mutação. Não se trata de negar o vírus, mas de constatar o óbvio: a reação foi usada como ensaio geral para uma mudança de rumo mundial. O medo tornou-se governabilidade. A histeria tornou-se política. A exceção virou regra. Kissinger escreveu-o e a actualidade prova-o.
Hoje, vivemos sob essa ressaca. A cura não é simples, e bastava-nos uma semana sem redes para vermos multidões a subir paredes como toxicodependentes privados de heroína. Talvez assim se percebesse a escala da dependência.
Não me move saudosismo. Não desejo o regresso a um passado idealizado. Mas desejo o regresso ao óbvio: uma sociedade em que se possa discutir sem ser excomungado. Em que jornalistas informem em vez de doutrinarem. Em que redes sociais sejam ferramentas, não drogas.
O moralismo hipócrita, travestido de virtude, está a corroer as bases de uma democracia liberal que não foi conquistada para servir de palco à vaidade dos indignados de serviço. Não há mal nenhum em ter opiniões diferentes e em querer debater com quem pensa de modo diferente do nosso.
Se continuarmos neste caminho, o futuro não será democrático nem livre. Será autocrático, sectário e hipócrita. Seja de esquerda ou de direita. Até porque, como disse Hannah Arendt, “o sujeito ideal de um governo totalitário não é o Nazi convicto nem o Comunista convicto, mas as pessoas nas quais a distinção entre facto e ficção deixou de existir”.
O debate público não precisa de mais guardiões da moral. Precisa, isso sim, de cidadãos capazes de pensar sem slogans e de líderes que não confundam democracia com espetáculo.